Eu também sou Capaz

De repente tenho mais uma filha, um emprego novo, dois cabelos brancos que não tinha o mês passado e muito medo não ser capaz. Que melhor altura para ver um texto meu publicado no projecto Capazes?

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Não é uma novidade para os meus leitores habituais, mas passem por para ver como fica bonito entre tantos bons textos e ideias. Gostei tanto de o ver que pode ser que um dia destes me dê para escrever mais qualquer coisa.

Para quem não conhece o projecto, é clicar aqui.

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BEST OF “A Grande” #1

“A primeira vez que aconteceu foi numa festa da aldeia, à noitinha. No balancé com o meu irmão, para trás e para frente, os meus pais na conversa com primos e primas. A minha camisola da She-ra, o meu rabo de cavalo gingão e um espertalhão de 20 anos, capacete de mota debaixo do braço, símbolo dos Iron Maiden algures. Eu tinha 11 anos, corpo de 15, a altura que se sabe. Posso-te conhecer?”

Há por aqui um número significativo de novos leitores que não conhecem da missa a metade. Para os orientar espiritualmente lembrei-me de recuperar de vez em quando alguns posts antigos que até me saíram bem jeitosos ou que continuam a ser visitados, semana após semana, sem eu saber bem porquê. É o caso deste a que pertence o excerto. Todos os dias aparece na lista de artigos lidos. Porque será?

 

Notícias da Selva

E que boas que são!
Projecto novinho que promete, para seguir, fazer like, essas coisas.
As autoras são duas meninas fabulosas de quem sou fã. Cá estão elas:

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(Rita, tive de te roubar o boneco que está tão giro!!)
(Diana, pá, nós conhecemo-nos porque eu queria ir à Amazónia, lembras-te? :))

Os bichinhos verdes eram malaios

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Há muitos, muitos anos, eu era a irmã mais velha. Tinha uma razoável quantidade de problemas psicológicos e, ainda que aparentando o contrário, muito pouco juízo.
Em plena adolescência, com os níveis de parvoíce e tendência para o drama a atingirem o seu zénite, aconteceu darem-me para a mão uma criancinha inocente. Toma conta dela, disseram, e não pensaram mais no assunto. Eu tinha boas notas, parecia sossegadinha, que mal podia fazer? Pois saibam que escangalhei a miúda para sempre.

A minha irmãzinha andava sempre atrás de mim e eu deixava. Se estivesse a arranhar o “Hotel California” na guitarra, ela punha-se a dançar ali por perto, se fosse escrever no meu diário, ela vinha fazer as suas garatujas, devidamente legendadas por mim, “a mana e eu”, no fim das páginas onde eu chorava as minha mágoas. Naturalmente, quando eu via a excelente televisão dos anos noventa, ela via também. Sem censura, como convém às criancinhas inocentes.

Foi assim que o Mulder e a Scully entraram no nosso folclore familiar. Primeiro fizeram parte de histórias mirabolantes de viagens no tempo que eu inventava para lhe contar, depois, deixei-a mesmo ver um ou outro episódio dos X-Files. Ela sentava-se comigo, muito quieta, nunca dava parte de fraca, e foi só anos mais tarde que me contou como costumava ficar aterrorizada.

Um determinado episódio, assombrou-a durante anos. Conhecido entre nós como “o dos bichinhos verdes” e pelo resto do mundo como “Darkness Falls”, esta aventura do bom do Mulder e da querida Scully é um clássico. A rapariga teve olho para a coisa. O problema é que esse olho, mesmo fechado, ficou a ver bichinhos verdes na escuridão para sempre. Eu não disse que a tinha escangalhado?

A semana passada, quando ela me trouxe da Malásia um pacote de snacks de ervilha, pequenas lagartinhas verdes doces e salgadas, lembrei-me imediatamente disto. Os bichinhos verdes existem! Depois comi-os todos porque, já se sabe, estou de dieta. Sobrenaturais de tão bons.

Em jeito de remate, a minha irmã estava na Malásia a trabalhar como voluntária num orfanato de uma ONG, no meio da selva. Escangalhada, é o que ela é. Desculpa, manicas, para a próxima vemos “A Bugs life” e talvez possas ser uma pessoa sem aspirações nem iniciativa.

E se pensam que vou falar na temporada actual dos X-files, esqueçam, que eu também já a esqueci.

 

 

Ainda serão as hormonas?

Jessica-Arnott

Sabes que estás há demasiado tempo em casa quando desatas a chorar na eliminação da semifinal do Masterchef Austrália – T7.
As hormonas são lixadas. Ou então era mesmo só fome.

Este post contém um spoiler fotográfico. Hoje não me sinto caridosa.

Vais a exame, ó Maltês?

Antes de construírem a A2 havia sempre filas de trânsito intermináveis na zona da Marateca, aos domingos à tardinha. Veraneantes de fim de semana, de papo cheio de sol do sul, espalhavam-se por quilómetros e quilómetros da estrada nacional, condenando-nos a uma longa espera. Fechados no Fiat 125, depois de dois dias à solta pelos campos, a sachar com o avô, a meter os pés no tanque e a descer ribanceiras de bicicleta, eu e o meu irmão fechávamos os olhos e dormitávamos. O meu pai, se não vinha ainda muito moído dos constantes reparos da minha mãe ao seu excesso de velocidade, ultrapassagens, proximidade do carro da frente, etc., etc., acordava-nos com uma história. Era uma história que tinha de ser contada ali, na Marateca, pois que era esse o covil dos seus protagonistas.

Contava o meu avô que, em tempos idos, um grande grupo de malteses, os fora-da-lei do Alentejo, se acoitava no vale por baixo da ponte de ferro da Marateca. Ali comiam, dormiam, planeavam incursões às herdades, partilhavam o resultado das pilhagens, faziam vida de maltês.
Eu estava mesmo a vê-los. Os carvalhos da floresta de Sherwood transformados em chaparros, os alegres companheiros a depenarem galinhas roubadas em vez de esfolarem as rezes do xerife, o frade beberrão a sorver restos de aguardente dos bigodes.
Ficava capaz de me juntar a eles debaixo da ponte de ferro, tão românticos os achava. E podia, jurava o meu pai, só tinha de recuar trinta anos e passar no Exame. O Exame para maltês!

(É aqui que a história faz a sua dramática mudança de canal: estávamos a ver um episódio do Robin Hood, passamos para o Masterchef Alentejo.)

Segundo o meu avô, para se ser aceite entre os malteses não era preciso saber ler nem escrever nem contar, apenas preparar umas boas migas. Para tal não bastava acertar nas quantidades de alho, sal e banha de porco, havia que dominar certa técnica. Atentem bem: assim que as migas começassem a ficar cheirosas, a tostar nos cantos e a descolar do fundo do cacifre, o candidato a maltês tinha de as lançar ao ar, com força e precisão, por cima da ponte de ferro, de forma a ir a correr apanhá-las direitinhas do outro lado. Parece difícil? Já se terão ganho estrelas Michelin com muito menos. Não admira que não haja hoje por aí malteses aos pontapés, isto é coisa que não se faz com uma Bimby.

Resta explicar que um cacifre é uma espécie de frigideira com pega, calculo que para ser mais fácil efectuar a manobra.
Vitória vitória, acabou-se a história, o trânsito já flui e eu agora almoçava umas migas, se as houvesse. Com espargos selvagens. E carne de porco frita. Ui.

Para mais leituras sobre a polémica dos alentejanos do Raposo, hoje recomendo este senhor, que sabe do que fala e é da família.

Daquilo do Raposo

O melhor de toda esta confusão foi eu ter-me lembrado daquela história mesmo boa que o meu avô algarvio-alentejano-não-suicida contava sobre malteses. E dos malteses propriamente ditos. Agora é convencer esta miúda a dormir para a passar para o papel.

(Alexandra, bem que podias escrever editor de texto, não era? Podia, mas onde está o romance disso? E os malteses são personagens românticas, vão por mim.)

Após quantos anos?

Coisas a não levar para uma entrevista de emprego, breve resumo:

  • 1 série de noites muito mal dormidas.
  • 3 meses de isolamento em casa de conversa com um ser que é extraordinariamente lacónico e algo choramingas.
  • 1 estado de nervos que se manifesta ao nível do hemisfério inferior, vulgo “tripa”.
  • 1 ano inteiro em abstinência de café.
  • e… cocó de bebé debaixo da unha do indicador direito, essa com que se apontam os melhores detalhes do nosso portefólio.

Recuperação pós-parto III

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E depois o brunch, essa coisa tão 2014, chegou finalmente à Margem Sul. Estamos chiques aqui pela “Lisbon South Bay”, por quem nos tomam? Chiques, empaturrados e a tender para o balofo. Que se lixe. Eu, que aprendi que devemos comer tudo o que está no prato, porque há crianças na Etiópia* que não têm nem uma fatia de pão para trincar, fui experimentar este** brunch suburbano e, digo-vos, não deixei migalha.
Ele foi scones com marmelada, croissants com doce de abóbora, pãezinhos quente de alfarroba com manteiga a derreter, paninis crocantes com salmão fumado, bolo de laranja… ui… um não acabar de hidratos de carbono de várias espécies, todas mui maléficas para quem deveria estar a contar calorias. Nem o facto de ter a bebé ao colo a maior parte do tempo me impediu de alambazar o mais que pude. Resultado: não sei se são resquícios de granola ou de crosta láctea que ainda ando a sacudir da cabecita dela.

A Oprah diz que emagreceu 11 quilos sem cortar no pão. Alguém tem o número de telefone dela? É que aqui podemos privar-nos de tudo menos de pão. É coisa de descendente de alentejanos isto de se ser capaz de cortar os pulsos se falhar a nossa dose diária de glúten. Dieta paleolítica? Pois sim. Ide plantar trigo que eu fico aqui a ver o bikini cada vez mais longe este Verão.

*Nos anos oitenta era com as crianças etíopes famintas que se ameaçavam as ocidentais esquisitinhas, ficam a saber. Hoje a escolha estará mais diversificada, suponho, ainda não tentei essa ameaça. Gosto de pensar que é porque cozinho muito bem e aboli o dia do peixe cozido)

**Este brunch da Paleta dos Sabores é coisa para fazer com que vocês, os da Margem Norte, se atrevam a vir aqui para os meus lados a um domingo de manhã. Já falei do iogurte com granola ikigai? Seja lá o que isso for, é BOM! Comi o meu e o do vizinho do lado…

Recuperação pós-parto II

Mas o que eu precisava mesmo de estar a fazer era uma coisa assim*:

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Não há como um trekking de Inverno para aclarar as ideias, limpar os pulmões e acordar os músculos adormecidos. É esperar que um certo bebé caiba na cadeira de pôr às costas…

*Plataforma de El Traviesso, Sierra de Candelario, Castilla e Léon

Recuperação pós-parto I

Então Alexandra, que estás a fazer para recuperar a tua fabulosa figura de antes da gravidez? Como tencionas derrotar os quatro quilinhos malandros que ainda faltam até caberes outra vez no vestido preto? Será que andas por aí a correr desalmadamente enquanto empurras o carrinho da bebé? A fazer abdominais pela casa fora? A subir e descer o hindu-kush que são as escadas do teu prédio?
Pois bem, não. Fazer exercício em casa é aborrecido e na rua não posso correr. Há por aqui demasiados passeios esburacados, ruas para atravessar, e na única reta de jeito, a que dá para acelerar um bocado, o chão está minado de cocós de cão, que os meus cívicos vizinhos acham por bem deixar ali ficar em jeito de street art. Fartei-me de ter de verificar e limpar os pneus do carrinho antes de voltar a entrar em casa.
Mas toda a gente sabe que correria imenso se não fossem os cocós de cão, certo? Aliás, é ou não conhecida a minha devoção à corrida? Tenho corrido tanto que me fartei e decidi experimentar antes uma coisa mais original e prática, algo que a blogosfera nunca viu: a ginástica artística! Filha nº1, versada nas artes das piruetas mirabolantes e espargatas impossíveis, voluntariou-se para minha PT. Olhem para nós, lindas, empoleiradas na trave.

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Não parece, mas aqui a Alexandra está a fazer um avião, plenamente convicta que levantou aquela perninha até à cintura. Depois viu esta foto… O que é que querem? Já é mau o suficiente estar ali de pé sem tombar para o lado!

Talvez não seja tarde para voltar a ir fazer slaloon entre os cocós.