Trufas e Sevilhanas

Proliferam como cogumelos e a maior parte deles têm mais características fungícas* que outra coisa. Às vezes, só às vezes, lá se fareja uma trufa. Estou a falar de sites de moda, tendências e bla, bla, bla, e de como ontem encontrei aqui uma preciosidade digna de Périgord: uma boneca sevilhana igualzinha à que comprei na minha célebre excursão aqui ao lado.

Se espreitarem o resto do artigo, verão que o conceito está engraçado e satisfaz na perfeição desejos fetichistas de cuscuvilhar casas, prateleiras e gavetas alheias em busca das histórias que os objectos contam. E nada de tendências carneirada. Ufa!

E agora adeus, que tenho de ir indagar se a minha sevilhana ainda está na cristaleira da minha avó, apoiada na moldura da foto do meu baptizado. Diz que é estiloso tê-la lá para casa.

*Características fungícas dos sites de moda: podem ser alucinogénicos, tóxicos, valer mais do que merecem e ter propriedades medicinais, mas geralmente são só parasitas, cheiram a mofo e encolhem quando cozinhados.

Uma torrada maniqueísta

Há uns anos, enquanto googlava um rapazinho de caracóis farfalhudos e falsetes poderosos, que soava a Freddy Mercury mas queria ser a Grace Kelly, descobri o Marmite. Ou a Marmite. Não sei, que isto do género em inglês é coisa que me ultrapassa. Escreve-se Marmite, lê-se “marmaite”, seja menino ou menina.
O Mika, pois era dele que se tratava, era comparado, num artigo britânico qualquer, ao Marmite. Love it or hate it, ama-o ou odeia-o, dizia. O que é esta merda, teria pensado eu se formulásse pensamentos com palavrões, e seria um bull’s eye: o/a Marmite é mesmo uma bela merda. Dentro de um boiãozinho muito bonito está uma pasta pegajosa, quase preta, de cheiro nauseabundo e sabor indescritível. Trata-se de extrato de levedura de cerveja. Yummy. Os súbditos de Sua Majestade barram as suas toasts com isto, esguicham-no às golfadas nas pancakes, misturam-no com scrambled eggs e lambem os lips de prazer. Ou pelo menos alguns deles. O produto é alvo de tradicional controvérsia. O lema da marca é mesmo o tal Love it or hate it com que estavam a descrever o Mikinhas, ‘tadinho, que até diz que “Big Girls are beautiful” e por isso tem o meu amor eterno.

Eu quis gostar de Marmite. Um produto com uma tal promoção maniqueísta deveria forçosamente servir para separar o trigo do joio. Achas que é bom? És dos bons. Achas mau? Não vales nada. Foi o que eu achei, porque às vezes ponho-me a achar coisas por falta de melhor ocupação. Além disso as filosofias simples agradam-me muito porque são um descanso para cabeça: Luz – Trevas, Preto – Branco, Deus – Diabo, Lisboa – Porto, Céu – Inferno. Um descanso. Fui logo a Londres comprar uma embalagem de Marmite – e aquela porcaria ainda é cara – para me sentir um bocado gnóstica. Fiquei muito desiludida quando não gostei. Tentei numa torrada, tentei à colher – intragável. Parecia petróleo. Afinal não fazia parte da raça dos eleitos. Eu que até fazia tão bem o falsete da Grace Kelly, mesmo naquelas partes mais rápidas. A embalagem passou de prazo só com uma esguichadela a menos.

Porque é que isto interessa? Porque tenho andado a precisar de um bocadinho de filosofia Marmite na minha vida. Quem és tu, pergunta o site. Eu sou uma fatia de torrada à espera de ser barrada à bruta. Com pasta de coisas boas, com pasta de coisas más e nada de pasta de coisas assim-assim.

 

Santa Alexandra

De maneiras que estive tão ocupada a fazer de fotógrafa oficial na boda do mano que violei todos os mandamentos de uma boa blogger: Não consegui arranjar tempo para me fotografar com desfoque facial artístico, zoom nos acessórios vintage, pézinhos sobre a relva ou pétalas de rosa negligentemente espalhadas em modo macro. E sim, não me esqueci de explicar aos noivos que só tive 13 a fotografia, não consigo fixar os valores da profundidade de campo e tenho uma espécie de Parkinson temporário cada vez que me passam uma máquina para as mãos. Ainda assim eles acharam que eu era mulher para a tarefa. Mesmo quando tirei uma foto às avós da noiva com um copo de Martini numa mão e um rissol na outra. Vou dizer que a culpa foi toda do calor.

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A santinha é da menina Feline Zegers. Diz que estão a voltar os batons escuros, mas eu cá usei um gloss coral da H&M – tomem lá que é para não dizerem que não sou da malta (Não é uma referência directa a isto, é só uma coincidência espantosa – acabei de ver. Mas podia ser.)

 

Não me envergonha por aí além… #6

…ser tão básica como isto:

Tirando o Mao e o Napoleon, papei-os todos. Sim, até a Meyer. E, sim, mesmo o Paulo Coelho. Alguns destes livros fizeram-me ganhar juízo, outros deram-me amigos e um deles até me valeu um prémio. The point being, ganhei sempre qualquer coisa sempre que li qualquer coisa. Eu disse-vos que não era esquisita. Bem, só com roupa amarela. Cá vai um sorriso da mesma cor.

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Infografia de Jared Fanning

Aparições-Fashion 2012

Queridos peregrinos do nosso Portugal, quem diria que eram malta capaz de compôr um look trendy destes?

Eu sempre soube que a devoção à Santa Carrie não parava na blogosfera, mas amarelo néon? Deus vos perdoe.

Oremos irmãos, que elas não sabem o que fazem. A não ser que estejam também a caminho do 13 de Maio.

Eu acendia-vos uma velinha mas já há para aqui luminosidade a mais.

A mama direita da Julieta

Há duas coisas que eu não tenho e nunca dei por que me fizessem falta. Uma: autoridade para escrever sobre relações amorosas.  Duas: o segredo da longevidade da mesmas.
Esclarecidos neste ponto podíamos passar à parte em que eu, a fingir insatisfação por tais faltas, tento colmatá-las à força comprando o livro do blogger mais arrumado do momento ou fazendo uso de um voucher da revista feliz para duas horas num motel. Mas não, vamos antes fingir que afinal percebo do assunto e largar assim género confissão que, mesmo às apalpadelas, me tenho safado bem neste campo e hoje estamos de parabéns. Eu e o tipo com o melhor rabo do mundo. Parabéns a nós!
Encontrámo-nos pela primeira vez neste belo dia de Maio, há uma data de anos, e ainda aqui estamos. Quantos anos? Uma catrefada deles. Sem exagero, nem sequer naquilo do rabo. (A semana passada, ao contemplarmos o magnífico e nú Fassbender no “Shame”, diz ele: “Porque é que os homens têm todos rabos “assim”, achatados?” Como é que lhe posso dizer que o rabo dele dá cinco a zero ao do outro?)

E como é que conseguisto isso, ó Alexandra? Tanto ano e tanta carne onde enterrar as unhas? Muito fácil. Eis o segredo, em primeira mão, só para vocês, que a seguir também vou pô-lo num livro: (se julgam que vou falar da importância do diálogo constante, do respeitinho que é bonito, de que nunca se deve dormir sem fazer as pazes,  de como são úteis as cuecas tanga e as extensões de pestanas que batem à Bambi, das noitadas que lhe permitimos com os amigos, de como convém alinhar no swing uma vez por outra, de oferecer flores, bla, bla, bla… podem parar por aqui, este segredo não é para o vosso bico).

Agora atenção, isto é absolutamente secreto e infalível, não vão para aí contar ao resto da malta. É um conselho inestimável este que vos dou: Logo ao início da relação, com a coisa ainda fresca, na fase das juras de amor e canções melosas, eu escrevi, com a chave do cadeado da minha mochila, “Alexandra + Homem-da-Alexandra” na parede da casa da Julieta, em Verona. E a seguir passei-lhe a mão pela mama direita.

Depois cheguei a casa e escondi todos os venenos e os punhais que por lá andavam. É que nunca fiando.

 

Estuve en Torremolinos y me he acordado de ti

A primeira vez que saí do país foi para ir já aqui ao lado. Era assim que se fazia nos anos oitenta. A viagem de sonho da Mariana do “Chocolate à Chuva”. Não calhou ser Badajoz, como era da praxe, mas não passámos muito ao largo da mágica terra dos caramelos.
Os meus pais, o meu irmão e a minha avó e eu, todos sentadinhos nos lugares em frente à porta traseira do autocarro de excursão que partiu do Areeiro, era a madrugada ainda escura. Levávamos: um saco de farnel enfiado na prateleira por cima das nossas cabeças (sandes de queijo, que o fiambre azeda); A máquina Kodak carregada com um rolo de 36; Um almanaque do Tio Patinhas para irmos partilhando quando não nos dava o sono; Muito sono.
O destino final era Torremolinos, andaluza localidade tornada mais longínqua que o necessário pela repetição estridente do “Pó de Arroz” ao microfone, cortesia das colegas de trabalho da minha mãe. Depois havia sorteios, anedotas, crianças a correr pela coxia fora, cheiro a cascas de banana. E colinas a subir e a descer. Paragens para tomar ar. Não vomitar.
Nada foi especialmente bom nessa viagem. Desde a primeira paragem em solo internacional, que se queria solene e triunfante e afinal foi num parque de estacionamento cheio de papel higiénico borrado, à banhoca na piscina do Hotel Siroco, onde o meu pai tentou afogar-nos aos dois, passando pela miserável noite que passei a vomitar cloro, enquanto toda a gente ía às sevilhanas. De resto, a comida era má, a areia da praia era preta, enjoei no barco para Ceuta, a voz da guia era irritante, os meus pais zangaram-se quinze vezes e o meu irmão não se calava porque tinha uma camisola que dizia “2+2=5, I’m a genius” e achava mesmo que era.
Com tanto horror, admiro-me hoje que tenha sido depois desta experiência espanhola que eu tenha feito de viajar o meu grande objectivo de vida. Dá-se esta coisa engraçadíssima com as memórias das viagens – são só as boas que nos ficam. As más, somem-se. Eu comprei castanholas, pisei o continente africano, estive num hotel com elevador, bebi sumo ao pequeno almoço e ensinei o meu pai a nadar. Ou quase.
Quanto ao objectivo, nada de muito extravagante, claro, só duas ou três viagens por ano. Coisa realista. E por cada ano que não consigo cumpri-lo, lá morre mais uma má memória. E fico danada a rosnar o meu mantra:
Viajar é que é bom, viajar é que é bom, viajar é que é bom.

 

Force Quit

Inaugura-se aqui uma rubricazinha nova, original como já nem se fazem, que me dá trabalho zero e satisfação a tender para o mesmo. É coisa para ser enigmática, vistosa, educativa e colorida (quanto a esta última, teremos dias e dias), por isso vale a pena experimentá-la.

Aqui se pretendem reproduzir, em quadrados de bom tamanho e apresentação cuidada, quatro espreitadelas ao monitor de Alexandra, a Grande. Maravilhosos print screens avulso de tudo quanto está para aqui aberto no meu mac, em tempo real, para a posteridade. Comprometo-me a jamais fazer batotas como pensar demasiado nos enquadramentos, photoshopar coisas, e censurar imagens menos dignificantes. Quatro momentos Force Quit na melhor das hipóteses. Enjoy.

A primeira vez

Ontem li para aí em qualquer lado uma pergunta que me pôs os nervos a fremir: “Há quanto tempo não fazes qualquer coisa pela primeira vez?” Isto soou-me logo muito àquela censura paternalista, mas ao contrário, dos anúncios Sumol com a música gira. Já não és uma grande maluca, pois não? Já não andas de bicicleta à chuva nem bebes sumos gaseificados. Sua cota-velhota-bota-de-elástico.
Assumi logo aquela expressão pensativa que dizem que me fica bem (mas que é mais conhecida por olhos-de-carneiro-mal-morto), e pus-me a pensar com os meus botões, que sempre é mais reconfortante que pensar sozinha. Reparei que o de cima estava quase a cair e precisava de ser cosido, sob pena de me deixar com um decote mais generoso que o habitual, mas como já cosi botões várias vezes, tratar disso não contava como experiência inovadora. Continuei então a pensar, agora em risco de perturbar o decoro do meu local de trabalho, e fui-me lembrando que nos últimos meses até fiz muitíssimas coisas pela primeira vez: escrevi para ser lida, montei um slide encosta abaixo, cozinhei o borrego com tâmaras da Nigella e comprei uns sapatos vermelhos.
Ora, olhando para esta lista com olhos de ver, nada nela me pareceu ter o glamour necessário a quem vive perigosamente. Então decidi arriscar a sério e comprei um pacote de feijão manteiga ao natural em vez da lata do costume. Demolhei-o com carinho durante doze horas e depois cozi-o na panela de pressão. Caramba. Que sensação avassaladora. E pensar que aqueles nicos de leguminosa duplicaram mesmo de tamanho? Espantoso. E esta noite, nova primeira vez: vou jantá-los guisadinhos com ovos escalfados e bacon. Quem é que é chata e previsível, quem é?

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E como há uma primeira vez para tudo, nem vos vou dizer de quem é o desenhinho ali em cima. Mas espero bem que saibam.

MB-MTS-TST-TT-SMS-RAP

Manhã de quarta-feira com sabor a segunda: MB fora de serviço, MTS empancado, TST com sistema em baixo, TT a falhar nos trocos e a chuva em pingos gelados, não sei se doces. Depois a correria, o SMS, o cabelo molhado, o desculpe o atraso. E então o RAP na Comercial. Tão Grande. E não digo isto por ter menos dez centímetros que ele. É que é preciso muito para se me esborratar o rímel todo à gargalhada.
O rímel não, que cabeça a minha, a máscara.

Não me envergonha por aí além… #5

…ter levado exactamente sete meses menos sete dias até chegar ao fundo do cesto da roupa para passar a ferro.
Soquete às riscas que julgava desirmanado para a eternidade, que bom rever-te. Calças verdes do rasgão no rabo, não vos tinha já deitado fora? E que quantidades absurda de álcool terei eu consumido no Verão passado para te adquirir, ó vestido branco-imaculado de alças crochet? T-shirt preta de cavas americanas, sua malandra, podia jurar que ainda cheiras a fins de tarde à beira-mar. Ou é protector solar? Toalha de praia, querida amiga, será impressão minha ou ainda estás rija de sal?
Que ansiosa que estou por voltar a emporcalhar-vos a todos outra vez.

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O autor do barbudo confuso é o Teemu Matinlauri.