A Arte de Bem Recusar Toda a Sela*

saddle bag ilustração

Aviso à navegação: esta é uma história sobre uma mala que eu um dia quis. Estou tão assustada por estar a reconhecê-lo que vou fazer a coisa o mais rápida e indolor possível. Afinal, não me parece bem dar a este episódio mais importância que a que dou habitualmente ao artigo em questão. O pior é que só com estas quatro linhas já falhei nesse objectivo. Raios.

Do príncípio, então, e salve-se quem puder.

Uma mala é um contentor. Que lá caiba um livro, a carteira e o telemóvel, a boiarem a custo num mar de tralhas não identificadas e provavelmente fora de prazo, é tudo quando exijo da coisa. Não preciso que tenha uma marca, muito menos um nome próprio, e nem sequer faço questão que seja bonita. Só não ando com um daqueles sacos de pano jeitosos do Lidl porque, convenhamos, as alças magoam um bocado os ombros quando os livros que carrego têm capa dura e mais de trezentas páginas.

O facto de eu ser, mal comparando, esta espécie de Adolf Loos das malas, não evitou que um belo dia me tivesse passado da cabeça e desejado um desses objectos. (Aqui abro um parêntesis em minha defesa, pois há que dizer que descobri posteriormente tratar-se de um objecto icónico, algo que inclusivamente passou aos anais da história da moda [Loos executa um 360º na sepultura]!. E não foi coisa recente, valha-nos também isso.) O meu inconsciente tratou de empurrar a recordação do incidente tão para lá dos confins da memória que, se não tenho topado com uma imagem da coisa, totalmente por acaso, numa pesquisa do Google, tenho cá para mim que nunca mais iria pensar nisso.

Mas o mal está feito. Lá estava ela: uns meros 200 pixels quadrados forrados a um padrão familiar de monograma cor-de-rosa. E com o choque do reconhecimento veio a dor da lembrança:

Um dia, mais precisamente no Verão do ano 2004, eu quis mesmo possuir uma Saddle Bag. Sim, meus amigos, uma daquelas malas com nome. Uma mala Dior, ainda por cima, uma mala Dior by John Galliano. Uma coisa completamente fora do meu estilo: inspirada numa sela, esquisitóide de forma e com um penduricalho gigante e brilhante em forma de “D”, à laia de estribo. Uma daquelas malas “Olhem para MIM!”.

E sem quer sequer saber porquê, eu estava capaz de violar um ou dois mandamentos por ela. Ou não. Enchi-me de bom senso e usei para aí metade do que pagaria por uma Saddle Bag para fazer umas férias de mochila às costas em Itália. My kind of thing. Agora cá malas…

Mas eis que, mal salto do comboio, em Roma Termini, dou de caras com o destino sob a forma de um vendedor de artigos de contrafacção. Il signore estendeu-me um bracinho onde, enfiadas à laia de pulseiras XL, reluziam 4 imitações de saddle bag de diferentes padrões. Eram perfeitas e lindas (pelos menos para os meus padrões). Não contente com os meus suores frios, gritou-me: “trinta euro”, e mostrou-me de perto a qualidade dos fechos, a beleza da etiqueta e o acabamento do “D”. Eu suei mais um bocadinho, abanei a cabeça e corri para longe da tentação. E depois arrependi-me. Se nunca ía ter the real thing, porque não comprar aquela cópia tão jeitosa? Procurei o vendedor no dia seguinte, e no outro e no outro, mas como os carabinieri também faziam o mesmo, nunca mais lhe pus a vista em cima. Fiquei traumatizada.

Imitação ou não, foi o mais perto que estive de perder a cabeça por uma mala. Porque não gostava dela por ser Dior, ou John Galliano, ou estar na moda. Gostava dela como objecto. Um objecto de design. E o design, creio eu, nunca passa de moda.

John Galliano disse numa entrevista em 2007: “The story behind the Saddle bag creation is a great example of how haute couture ideas can enrich another lines of ready-to-wear. Nowadays, seven years after its creation, the Saddle Bag, is one of the most wanted bags”

E eu? Doze anos após o dia “D”, contento-me com o Lidl Bag ou permito-me albegar desejos inconfessados por um objecto que até já é quase respeitável com o seu estatuto semi-vintage? Não sei bem. Desculpem lá que vou ali até ao ebay descobrir.

*Agradecimentos a D. Duarte, o primeiro de seu nome, que não se importou de ver corrompido o seu brilhante título: “Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela”

2 comments
  1. sim, sim, sim, malas. faz um post sobre sapatos e a seguir tens aqui meio mundo a dizer que também são shoeaholics e nem pa comer ganham :p Adiante ao que importa: és tu que fazes estas ilustrações (gosto bem desta e da que está no header)?

    1. Sapatos não, pá!;) Aqui somos todas o oposto da Cinderela (eu e as minhas duas patorras) e odiamos sapatos. Mesmo isto das malas já é um esticanço que me permiti para gozar com uns amigos.
      A composição da bonecada é minha sim, com alguns “empréstimos” de google imagens aqui e ali. Ainda bem que gostas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.