A chuva e o folar

Antes íamos sempre para o Alentejo na Páscoa e nunca chovia. Estou em crer que este fenómeno é mais facilmente atribuível à questão da memória selectiva do que a uma hipotética idade de ouro da metereologia nacional. O certo é que quando nós chegávamos nunca mais chovia, mas tinha sempre chovido um dia antes. Lembro-me de haver vestígios. A minha avó queixava-se das dores nas pernas, as ervas molhavam-nos os fundos da calças e o Jolie tinha o pêlo ainda húmido.
Ainda bem que não chovia porque não havia nada para fazer em casa se não pudéssemos ir lá para fora. A televisão a preto e branco só tinha um canal e aí é que sim, chovia com fartura. O pior de tudo é que andava toda a gente ocupada a amassar, a pôr massa a levedar e a gritar gerúndios: “abalem daqui que me estão empatando”. Mesmo não estando a chover, nós só abalávamos depois de ver a massa num alguidar embrulhado em cobertores, posto debaixo da minha cama, que era a mais próxima da cozinha-de-fora.
A casa dos meus avós tinha duas cozinhas, uma para as refeições habituais e outra para as extravagâncias Pascais (e Natais). Cheirava sempre muito bem nas duas, mas na cozinha-de-fora cheirava mais a festa.
A mim, às vezes, deixavam-me enfiar os ovos cozidos na massa do folar. Eu roubava sempre uma bola de massa crua. Enfiava o dedo naquela pasta molengona e metia-a na boca. Sabia-me bem aquele saborcheiro a erva doce e farinha húmida. A coisa inacabada. Pegava na bicicleta e descia a colina a saboreá-la.
Azedas cresciam nas bermas e as poças de água no meio da estrada tinham sempre larvas de qualquer coisa. Ficávamos muito tempo a vê-las rabiar antes de as atropelarmos com as rodas velozes das bicicletas. Não devemos ter nunca acertado em alguma. Às vezes derrapávamos no terreno barrento e a água esparrinhava à nossa volta. Voltávamos para casa com as calças do fato de treino pintalgadas de laranja a tempo de ver o nosso pai acender o forno. Podíamos pôr gravetos lá dentro, se fossem compridos. Depois traziam os folares, tachos e tachos deles. Dois tachinhos pequeninos para cada um de nós.
As nossas caras ficavam tão quentes. Era mesmo bom. E nunca chovia.

5 comments

  1. Mac

    Tal e qual! Eu adorava os alguidares de barro que havia na cozinha de fora, às vezes cheios de azeitonas, onde enfiava os braços até aos cotovelos. E era tão bom também comer a massa dos nógados e quando já estavam a fazer o caramelo e tiravam bocados que sabiam a rebuçados.

    Mas eu acho que não chovia mesmo, havia sempre o piquenique de Domingo de Páscoa no campo e não podia chover ;)

  2. a.i.

    não,não, olha que chovia sim, às vezes. Eu na páscoa ia sempre para o algarve com meus pais (única altura do ano em que íamos – a provar que a tendência hipster é de família, íamos na autocaravana e nem pensar ir em agosto, credo) e lembro-me muito bem dos anos em que a páscoa calhava cedo, como este ano, e eu e a minha irmã andarmos tristonhas de bicicleta à roda da piscina porque não estava calor suficiente e as vezes chovia mesmo a semana toda, uma frustração.

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