A Emmeline, os porcos e a gramagem

Emmeline_Pankhurst

De todas as coisas fantásticas que apenas se podem fazer a partir dos dezoito anos, há duas que, para mim, ainda não perderam aquele cheiro a novo, a confirmação de idade adulta.

A primeira dessas coisas é conduzir um veículo automóvel. Sozinha. Uau, vejam que super-mulher. A segunda é fazer cruzinhas em boletins de voto. Por acaso também é coisa que faço a solo, com uma capa vermelha imaginária a adejar atrás de mim (Nota: este vermelho tem aqui conotação Marvel. Não pensem que lá pela margem sul andamos todos com o Marx debaixo do braço e o Che na t-shirt, a fazer planos para acampar no Avante).
Estas duas coisas fantásticas fazem-me sentir uma pessoa crescida porque, acho eu, nenhuma delas é feita com a frequência e o automatismo da rotina mas, se fujo da primeira como o diabo da cruz, estou sempre pronta a exercer o meu direito de fazer a segunda. Isto pode parecer estranho, já que percebo tanto de política como de motores. Interesso-me tanto por saber quem me vai representar na assembleia municipal como pelo valor das coimas a pesados por excesso de velocidade em estradas rurais. Então porque é que voto, podem perguntar-me. Muitos dos meus amigos, conhecidos e familiares não o fazem. Assumidamente. Está a chover, está-se melhor na praia, sei lá do número de eleitor, onde raio é que se vota na minha freguesia, não acredito no sistema, a minha mãe não me passou a ferro a t-shirt do Che, uma bomba na assembleia da República ainda era pouco, no tempo do Salazar é que andávamos todos direitinhos.
Até os percebo, a sério, mas não posso imitá-los e ficar de consciência sossegada. Eu, que não me ralo nada com nada, preocupo-me com isto. Acho a abstenção uma falta de respeito. Ele há coisas.
Eu tenho de votar porque enquanto estive no sofá a ver a última temporada do Dexter, alguém esteve a trabalhar para que eu o pudesse fazer. E estou a falar de toda a gente envolvida na coisa, desde o início. Da Emmeline Pankhurst aos desgraçados dos tipos que fizeram o design dos boletins de voto. Eu tenho de votar porque se gastaram 14 milhões de euros neste processo para que eu o pudesse fazer. E se há-de ir para os porcos…
Agora a propósito de gastos: não se podiam ter poupado uns bons milhares na gramagem do papel dos boletins de voto? Eu percebo que tenham de ser grandes, por causa dos velhotes, mas morria alguém se fossem um nadinha mais fininhos? Aquilo até custa a dobrar em quatro e eu gosto muito de os dobrar em quatro (faço render o meu tempo na cabine de voto, a saborear a minha idade adulta e completa aleatoriedade das cruzes que acabei de traçar).
Vá lá, amigos, papel de bíblia da próxima vez. Eu e os eucaliptos ficamos muito agradecidos e aposto que a Emmeline também, que o papel havia de ser caro no tempo dela.

12 comments

  1. D.S.

    É isso mesmo, é. Muita gente morreu para que nós nos pudessemos dar ao luxo de escolher quem nos governa. Não devíamos cuspir na cara dessa gente tão de consciência tranquila e tão contentemente como ainda fazemos sempre que não apetece ir meter a cruzinha no papel.

  2. O Sexo e a Idade

    É por essas e por outras que me obrigo a ir votar; quero cá bem eu saber quem ganha ou perde? Minto, quem perde já eu sei de antemão; somos nós todos, o povinho, sempre!
    Mas as sufragistas passaram tanto, e há tanta gente que ainda não pode fazê-lo, que por respeito a esse direito que me foi dado de bandeja, vou! A arrastar os pés, razinzando, contrariada, insatisfeita, nada crente no poder do meu voto (voto branco), mas vou!

  3. Raven

    Ora aí está o meu pensamento! Não é que perceba muito de politica mas acho que se ganhamos históricamente esse direito, não o devemos marginalizar. Que se vote em branco, mas que se vote. Que se mostre que existe consciencia social. Se bem que eu até, para jovem, não vou mal, sei bem o partido em qual voto sempre.

  4. D

    Na era da alta tecnologia ainda ter que gastar metade da Amazónia, para metade da produção ir para o lixo, é coisa que não compreendo. Then again, há aquela cena dos chips e Providence e assim, a provar que é imperioso matar o pulmão do mundo para não haver batotas. Eu fiquei-me pelo Dexter – acabou assim chove não molha…
    ( estava doente, mas armar aos cucos, grande anarquista, pah, é o que está a dar…)

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