A garantia do Happy Ending

Hoje no comboio ofereceram-me um livro chamado “Diário da Minha Paixão Assolapada”. É o Dia Mundial do Livro, disse a rapariga ao passar-me para a mão o volume cor-de-rosa. Levantei os olhos do meu calhamaço policial, bem no meio de uma cena vudu, e aceitei a oferta, com ganas de espetar alfinetes em qualquer coisa. Não teria ela outro livro melhor? Tenho cara de ler livros de gaja? Nem sequer ía bem penteada… Reprimi o Baron Samedi que tinha baixado em mim e agradeci. Que azar! Até a literatura erótica do caso CGD teria sido mais interessante.

Assim, hoje, Dia Mundial do Livro, trago na mala um policial sangrento e um livro de gaja. O que num momento me pareceu bizarro, já que durante muito tempo estes dois géneros de literatura me foram estranhos, no outro pareceu-me apenas acertado e decadente: que retrato das minhas leituras actuais! Ora sigam-me…

Nenhum dos meus pais lia muito, mas eram sócios do Círculo de Leitores e, justiça lhes seja feita, forraram as paredes lá casa com obras de elevadíssimo gabarito. Vitor Hugo decorava lindamente a prateleira de cima ao lado de Diderot, Dostoievski e Flaubert. Havia um Stendhal desgarrado na prateleira de baixo em amena cavaqueira com a Lygia Fagundes Telles e, se não estou em erro, duas idênticas Christianne F. aos encontrões à Anne Frank. Jorge Amado, Hemingway e Steinbeck fechavam a decoração com elegância, mesmo ao lado das obras completas de Konsalik, um grande favorito da minha mãe nos anos 80.
Não havia policiais, mistérios ou romances cor-de-rosa (pelo menos como os concebemos hoje, com capas envernizadas e saquinhos de renda) e eu, quando fiz as minhas próprias escolhas, também não fui por aí.

Depois aconteceram três coisas: A minha mãe desatou a comprar livros no Jumbo, construíram uma biblioteca nas minhas traseiras e… entrámos em crise!
Nos últimos tempos só tenho lido livros emprestados destas duas entidades e de duas categorias: policial e cor-de-rosa. Livros que não compraria e que nunca leria, entraram de repente na minha vida. E não tenho vergonha de dizer que me divirto imenso com isto. Que diabo, todos temos direito a fases destas.
Estes livros têm todos duas coisas maravilhosas em comum, as histórias esquecem-se passada uma semana e todas têm o seu Happy Ending de direito (com mais ou menos mortos pelo caminho, no caso dos policiais). Não sei se não será isto a principal fonte do seu poder sobre os leitores.
É claro que os policiais são bastante mais empolgantes e complexos, mas passam-se belíssimos momentos com os gajos lindos com bons cabelos que seduzem as virgens da Nora Roberts em paisagens idílicas.
Todos tão iguais e previsíveis, lê-los é uma alegria, uma leveza… indispensável nos dias que correm.
Agora este “Diário da Minha Paixão Assolapada”…

(Detectaram o meu desespero nas entrelinhas ou quê?)

10 comments

  1. Wallis

    :D
    e não ser um harlequin ou lá ou que é…
    Diz que a cavalo dado não se olha os dentes, mas compreendo. Talvez possas dar a quem goste? Fazer uma espécie de sorteio ou assim? ;)

  2. Mak

    Ok, tinha uma piada literária em stand by, mas vou usar outra ainda mais triste que me ocorreu e que o meu tourette de comentários não deixa passar. Lá em casa não tínhamos Dostoievski por causa do Fiodor que os livros deitavam…

  3. D

    Lá em casa, tudo começou com o CL e o Sr. da barbinha de chibo, que todos os meses trocava um volume encadernado por meia dúzia de “lecas”. Se ao princípio estava proibida de mexer na decoração, depois de 77, li tudo. Andei carregada com calhamaços da II Grande Guerra e d’Os Miseráveis e a História da Filosofia Ocidental deu-me um jeitão. O Pai era BD-o-Maniáco, e o velho 3º andar em Belém com a melhor vista sobre o Tejo do mundo, parecia a Comiclandia… O Pai depois de ler TODOS os Tarzan que encontrou do Russ Manning, tornou-se devorador da obra do Rice Bourroughs… depois veio a onda dos livros proibidos pelo lápis da outra senhora, mas isso já é outra história =)

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