A lambugem dos dias

No meu facebook, tudo quanto é indivíduo do sexo feminino anda a fazer bolos para festas de putos. Algumas dessas pessoas, se não me falha a memória, eram as que viam sempre as suas bonequinhas de barro rebentar no forno da oficina de trabalhos manuais. Outras nem chegavam tão longe. Bracinhos e cabeças defeituosos despencavam logo de cima das bancadas de madeira cheias de baixos-relevos do tipo “Vanessa+Zé Carlos=Love”. Poc-poc-poc-barro-seco-estalado-falta-de-lambugem. Não se perdia nada, é preciso que se diga. Havia ali muita vontade de ir para o intervalo lambuzar o Zé Carlos e muito pouco jeitinho de mãos*. Para além disso, todos os nossos bolos de “lição 100” ficavam esturricados ou mal cozidos nas mãos daquelas almas. A malta comia-os, pois comia, mas era só porque tudo era preferível às funções trigonométricas e aos Lusíadas.
As Vanessas, chamemos-lhes assim, passam agora os dias a moldar Draculauras meio vesgas e Faíscas MQueens amolgados naquela pasta nojenta que toda a gente põe à beira do prato. Só falam de curds e pontos de estrada e de como construir torres vertiginosas de bolo esponja. Cake Design? Pois sim. E eu sou o Incrível Hulk.
Os meus amigos que não fazem bolos cozinham start-ups e crowdfundings. Vão cultivar oregãos, desidratar tomates, fabricar queijos artesanais, importar chapéus, criar linhas de tshirts que vão revolucionar a moda, inventar uma aplicação que apanhe as meias sujas do chão e acabe com a fome no mundo.
As start-ups são os novos blusões Duffy, os ténis Nike da moda, as botinhas Timberland. Usam-se, o vizinho tem, eu também quero. Culpo os meus pais por não me terem feito empreendedora. Que raio de mania de não me comprarem calças de marca.
Os três ou quatro desgraçados que restam na minha lista de amigos não empreendem nem moldam florzinhas, mas põem likes em gatinhos o dia todo. Ou partilham Ted Talks.
Acho que nunca me senti tão sózinha neste mundo e isso leva-me a uma questão pertinente: Ainda há lições 100?

*As minhas bonecas eram igualmente feias mas ainda estão de pé na cristaleira da minha mãe. E o Zé Carlos nunca quis nada comigo.

36 comments

  1. ml

    olha, eu nunca fiz dessas bonecas, mas tb nc tive nenhum zé carlos x)
    (no meu wall é tudo grávido ou a casar. pshhh não há paciênciaaaaaaaaaaa)

  2. a.i.

    estas tuas reminiscências são absolutamente fantásticas.
    Eu nunca gostei da lição 100 porque calhava sempre antes dos testes e eu era daquelas crominhas que tinha já estudado tudo e tinha muitas dúvidas para perguntar e ficava lixada :(

  3. Mak

    Bruce, (sinto que podemos dispensar aqui o Incrível do teu alter ego)

    Eu tenho Ted Talks em que os oradores são gatinhos – beat that.

    O problema é que a necessidade aguça o engenho, mas engenho não é o mesmo que destreza, sensibilidade ou bom senso. As pessoas seguem modas e tendências, não percebendo bem que às vezes aquilo não é a solução mais indicada.
    Já passámos um pouco a fase da bijutaria, em que das 500 mil mulheres que acharam que iam vingar no artesanato urbano cerca de 10%, se tanto, tiveram sucesso. O problema é que agora, entre compras de caridade e vergonha em dizer não, há artigos de bijutaria a viver em caves e caixotes pelo país inteiro.

    Os bolos já são uma evolução, comem-se as provas e os efeitos secundário tendem a desaparecer a longo prazo. Mas, ainda assim, para além do que mencionaste ainda há muita tendência para ser violentada à bruta por malta à procura de um sentido para a vida, muitas vezes de olhos fechados…

    • Alexandra

      A bijutaria, lembras bem. Tenho dois pregadores de uma prima minha que… enfim.

      Não sei se o sentido da vida se encontra de olhos abertos, mas vou tentar confirmar. (Ainda tenho lá para casa uma cassete VHS d’”O Pequeno Buda” e vou ver como fazia o Keanu Reeves quando queria meditar. Aquilo resulta porque passado uns anos ele até atingiu o Matrix.)

  4. Mirone

    Eu só gostava que os jornalistas que passam a vida a mostrar-nos esses super-empreendedores fizessem um follow-up dessas start-ups promissoras que eles criaram. Um ano depois, vá, dois no máximo (esperar que durem 5 anos se calhar já é maldade), mas gostava. Muito gostam os jornalistas de levar com a banha da cobra!

    • Alexandra

      É mais ou menos o que eu sinto com a falta de seguimento das histórias de crimes. Muita parra e pouca uva. Passado uns tempos, acabam as notícias e a malta nunca sabe se chegaram a apanhar os maus, se eles fugiram para um país exótico ou se mudaram de nome e de negócio e ainda lhes vamos encomendar o catering para uma festa infantil.

  5. D

    Os meus amigos/as não faziam workshops de coisa alguma, não partilham nada de jeito, e enviam todos os dias dezenas, mas DEZENAS mesmo de convites para jogar N tretas online que não interessam nem ao menino Jesus. Laikam todas as alarvidades que se escrevem, apoiam todas as causas humanitárias… Penso que devem estar super bem na vida, já que passam o dia nestes empreendimentos de grande valorização pessoal …

  6. André

    Mesmo sendo trágico o teu facebook consegue ser bem mais interessante que o meu. É um bombardeamento constante de inanidades o dia todo, e ninguém empreende, embora mandem os outros empreender. Já fechei duas vezes a conta, mas depois tenho sempre medo de perder algum esgotamento em tempo real. Ah, e as tuas caixas de comentários também são dos poucos locais nacional internéticos com pessoas normais. Portanto, não desistas. Como diz o melhor blogger de todos os tempos: vai correr tudo bem.

  7. a.i.

    outra questão: as tuas ex-colegas de escola claramente não estavam com atenção àquela lição (talvez estivessem já a pensar nos bolos que iam fazer para a centésima lição) em que a stôra falou da lei da oferta e da procura e do fenómeno da concorrência.
    Se elas estão no teu FB, o mais provável é estarem tb no FB umas das outras e não vêem que têm imensa concorrência.
    Mas talvez se possam juntar todas e fazer uma joint venture ou um cartel

  8. Pippa Coco

    Adiciona-me no Facebook. Vamos ser amigas. Prometo que não te maçarei com bolos. Nem fotos de gatos. Ou conversas do Ted. Como minha amiga só terás as minhas conversas e bolos da confeitaria (ou fruta, que agora é Verão). ;)

  9. a.i.

    vi alguns episódios do braking bad (primeira temporada) mas fez-me impressão aquele em que ele tava no deserto quase a morrer e depois fez uma bateria porque os meus pais têm uma autocaravana e fiquei muito triste porque o meu pai não é prf de quimica e por isso se ficasse perdido no deserto não ia conseguir sair dali e por causa disso agora ja nao me apetece ver essa série.

    Olha nos anjos há uma lavandaria-café (a imitar aquelas de NY dos filmes) que era boa para o cartel das tuas colegas

  10. leididi

    Tens de bloquear algumas pessoas, quer-me parecer. Ou então escolher aquela opção mariquinhas (é o que eu faço) de não querer ver os posts de determinadas pessoas. Assim já não te enervas.

  11. Menino De Sua Mãe

    Eu já perdi as ilusões quanto ao Facebook. Uso aquilo como taberna para discutir política com a conta do meu alter ego, mas de resto… e tenho uma lista especial de pessoas cujos posts não aparecem no meu feed. É que não tenho psiquiatra, mas se tivesse ele recomendar-me-ia isso.
    Antigamente tinha lá de tudo, toda a gente que conhecia. O meu alter ego tem muito pouca gente no Facebook que não conheça minimamente. Por isso é complicado desamigar algumas pessoas – somos amigos há muitos anos, eu não quero é ler o que eles publicam.
    Por isso um belo dia fiz uma razia a eito. Peguei no feed e todos os posts de gatinhos, anjinhos, chain-letters e quejando, todos os desgraçados que tinha postado nem que fosse uma coisa dessas foram corridos da minha timeline.
    Hoje tenho por lá uns grupos chamados “Posts Kittens”, “Posts Soccer”, “Posts Depressing Politics”, “Posts Corny Stuff”, “Posts Too Much Information”, que estão cheios de gente. Escusado será dizer que nenhum destes grupos aparece na minha timeline. E nunca me arrependi. :D

  12. Luna

    Estou feliz por não ser a única pessoa assumidamente anti-empreendedora. No outro dia em conversa com amigas sobre como conhecer pessoas novas nos dias que correm sugeriram-me um curso de empreendedorismo. Credo, vai de retro, revirei os olhos e abanei-me tanto como quando me tinham sugerido um de escrita criativa. Desistiram quando depois de 50 sugestões me perguntaram:
    – mas não há assim nada que queiras ir aprender?
    – hmmm, não.

  13. Rosa Cueca

    O mais triste é mesmo a minha incapacidade de gerar dinheiro à conta de bonecos feitos com meias de vidro, ou malas recicláveis, feitas de copos de plástico. Isto porque eu ainda tenho uma coisa que se chama “noção”: noção que ficaria uma merda.
    Um dia destes mando a noção dar uma volta e pego nos colares de missangas com mais de 20 anos que tenho para lá…se compram fios com 5 kg cheios de pedras falsas, também hão-de comprar-me as missangas.
    Keep believing.

  14. Bruxa Mimi

    Olha, nunca fiz bonecas de barro, mas fiz um guarda-jóias para a minha mãe que sobreviveu ao forno e ainda lá está, torto e desbotado (foi pintado também), mas inteiro – e a uso!
    P.S. – Gostava de saber fazer decoração de bolos dessas XPTO… Só sei fazer algumas coisas em Jumpingclay – que pode decorar o bolo (por não ser tóxica), mas não é para se comer!

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