A primeira vez

Ontem li para aí em qualquer lado uma pergunta que me pôs os nervos a fremir: “Há quanto tempo não fazes qualquer coisa pela primeira vez?” Isto soou-me logo muito àquela censura paternalista, mas ao contrário, dos anúncios Sumol com a música gira. Já não és uma grande maluca, pois não? Já não andas de bicicleta à chuva nem bebes sumos gaseificados. Sua cota-velhota-bota-de-elástico.
Assumi logo aquela expressão pensativa que dizem que me fica bem (mas que é mais conhecida por olhos-de-carneiro-mal-morto), e pus-me a pensar com os meus botões, que sempre é mais reconfortante que pensar sozinha. Reparei que o de cima estava quase a cair e precisava de ser cosido, sob pena de me deixar com um decote mais generoso que o habitual, mas como já cosi botões várias vezes, tratar disso não contava como experiência inovadora. Continuei então a pensar, agora em risco de perturbar o decoro do meu local de trabalho, e fui-me lembrando que nos últimos meses até fiz muitíssimas coisas pela primeira vez: escrevi para ser lida, montei um slide encosta abaixo, cozinhei o borrego com tâmaras da Nigella e comprei uns sapatos vermelhos.
Ora, olhando para esta lista com olhos de ver, nada nela me pareceu ter o glamour necessário a quem vive perigosamente. Então decidi arriscar a sério e comprei um pacote de feijão manteiga ao natural em vez da lata do costume. Demolhei-o com carinho durante doze horas e depois cozi-o na panela de pressão. Caramba. Que sensação avassaladora. E pensar que aqueles nicos de leguminosa duplicaram mesmo de tamanho? Espantoso. E esta noite, nova primeira vez: vou jantá-los guisadinhos com ovos escalfados e bacon. Quem é que é chata e previsível, quem é?

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E como há uma primeira vez para tudo, nem vos vou dizer de quem é o desenhinho ali em cima. Mas espero bem que saibam.

20 comments
  1. O que já me ri com esta descrição de aventura digna de Indiana Jones!!!… tens de acalmar o ritmo…a tua vida anda impropria para cardiacos… :P

    1. Já bebi um copinho de leite para ver se isto passa. :P

  2. Penso que falo pela maioria quando digo que o teres começado a escrever para ser lida, foi GRANDE passo. A malta agradece.
    Já do borrego com tâmaras da Nigella…Adorava experimentar. A Nigella também. -_-

    1. :)
      Eu cozinhava-te o borrego como agradecimento pela gentileza, mas algo me diz que já te vai saber bem veres o vídeo do processo no youtube, executado pelas mãos da mestra.

  3. Poism… e é assim .Conversas de primeira com sabor a feijões.

    1. Há poucas coisas mais saudáveis! :)

  4. Diria que o desenho é do Warhol mas não quero estar enganado e ser alvo da chacota do público em particular e tua em geral :P

    Eu no fim-de-semana que passou fiz uma coisa pela primeira vez e serviu para andar cheio de dores durante 3 dias.

    Há-de ir parar ao blog mas ainda estou a dever as aventuras romanas…

    1. Ora, tu ías lá falhar numa destas? Fico ansiosa por ler isso tudo. Confesso que ainda não tinha visto que já tinhas escrito sobre Roma. Vou já ler!

  5. Ah!
    Feijões… blergh!

    Noite do peido em casa da Alexandra ^_^

    1. Eu adoro e não me faz assim mal…

  6. Acho que o facto de teres começado a escrever para seres lida foi uma 1ª vez que agradou a muita gente,Alex.
    Agora quanto ao feijão…será boa ideia? Já estou a imaginar um arraial minhoto num escritório de Lisboa…

    1. Olha outro… o feijãozinho faz muito bem, Vic, tem muita fibra. E não me causa assim transtornos por aí além!
      Gosto de arraiais minhotos mas associo-os mais a milho do que a feijão. É uma cena muito Pupilas do Senhor Reitor, o que é que se há-de fazer?

  7. :))
    Alexandra, podes não viver no fio da navalha, mas sabes vivê-la na ponta do garfo, o que é igualmente saboroso.

    1. ah, ah, bem dito e bem verdade!

  8. O texto ia bem mas depois, na parte do decote, perdi-me.

  9. Tu montaste um encosta abaixo, Alexandra. Não precisavas de comer feijao de Fukushima. ;)

    1. O declive não era muito e essa coisa do “para baixo todos os santos ajudam” não dá grande adrenalina.

  10. nunca me aventurei nessa cena radical de demolhar o feijão…mas um dia também experimento que também eu gostaria de ser uma grande mauca! :)

    1. Ficou um bocado espapaçado mas acho que vou sobreviver. :)

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