A rapariga que sonhava com archotes e uma pilha de tojo seco

Eu sou uma boa pessoa. Sou mesmo. Valores ditos cristãos e todo esse latim. Quer dizer, a parte do amor ao próximo e de dar a outra face, que queimar bruxas já são outros quinhentos. É o que acontece quando se tem pais negligentes como os meus. Mandavam-me para a cama à hora do Dallas, mas não acharam mal que visse “O Nome da Rosa” em tenra idade. Devem ter achado aquilo dos monges muito edificante. Pois eu fiquei tão transtornada que desenvolvi um fetiche por hábitos franciscanos e gosto muito que me rosnem Aristóteles ao ouvido no chão da cozinha. Por outro lado, sou totalmente incapaz de executar autos-de-fé. Até tenho vergonha. É esta a verdadeira desgraça, porque há alturas na vida em que dá mesmo jeito ser-se capaz de queimar bruxas. Ou chamuscá-las um tudo nada. Culpo o Eco e o Jean-Jacques por esta minha incapacidade. E um bocadinho o Sean Connery. É por causa deles que hei-de continuar a perder round atrás de round. Que noviça.

11 comments
  1. Eu cá acho o Sean muito apetecível… ok que eu não o queria, tem o triplo da minha idade, mas entendo o teu fetiche. ahahah

    1. Ainda bem que não o queres, S*, eu fico com ele, eheeh. O problema do Sean é que continua apetecível! Uma pessoa quase se sente pedófila ao contrário. (sei que há uma palavra para isto, mas assim é mais giro) ;)

  2. Já eu tenho algumas recordações mais traumáticas que justificam a minha desconfiança, vá, relativamente a irmandades religiosas. A primeira foi ter visto, à tenra idade de 4 anos, um filme porno que metia freiras, frades e muita safadeza. Em abono dos meus progenitores, eram os 80s e eles não deviam ter reparado que eu estava debaixo da cama a ver o mesmo vídeo que eles.

    Depois, temos o facto de com essa idade ter estado num colégio de freiras onde os princípios cristãos fariam corar o mais sumítico dos vilões de Dickens.

    1. Eu desconfio sempre de irmandades, sejam de que espécie forem, mas ao mesmo tempo atraem-me imenso. Acho que me safava num convento. Um dos pontos altos da minha existência foi quando estive no refeitório do Convento de Cristo em Tomar, durante a representação do Nome da Rosa, pelo grupo de teatro Fatias de cá. Aquele arrozinho de frango acompanhado por leituras de salmos…yammy!

      Os teus pais eram frescos, eram. Os meus tiveram a esperteza de colocar uma etiqueta “avariada” na cassete do Império dos Sentidos… Nunca a experimentei.

  3. Há uns dois dias comentava algo do género aqui em casa; como é que alguém no seu perfeito juízo e não me deixando assistir à Gabriela me deixava, e incentivava até, a ler coisas como “Os cavalos também se abatem”, “As vinhas da Ira”, “A montanha mágica” e o Diabo a quatro!
    Ai pai, pai…

    1. É verdade! Também me passaram as vinhas da Ira para a mão cedo de mais. Durante muito tempo andei a dizer que não queria ter filhos por causa disso.

      1. Idem…até hoje acho que ainda não consegui digerir bem as imagens mentais que criei…

  4. O Stieg devia ter pensado nesse título. É melhor que o outro. Por outro lado não faço ideia se existem tojos na Suécia.
    Mas acreditas mesmo em bruxas? :)

    1. Que las hai, las hai…

      Nada disso, o título ’tá manhoso, onde é que já se viu uma “pilha” de tojo? Um molho é que era… Mas tenho plena consciência que “pilha” foi um deslize freudiano. Hei, mas não esse que estás a pensar! Lembra-me “pira”, o que cabia muito bem no tema.

  5. Então e o que é que a sogra fez (ou ofereceu) desta vez?

    1. Ui, não posso especificar. Estava aqui o dia todo e quando chegásse a casa não tinha jantar. :)

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