(a todos os cinco!)

As manhãs de Sábado costumavam ter o especial condão de nos atingir os sentidos (a todos os cinco!) de uma forma que roçava a violência. A recordação dessa panóplia de sensações matinais é tão intensa e completa que, por irónico contraste, os restantes dias da nossa semana infantil permaneceram para sempre surdos, mudos, inodoros, insensíveis e insossos.

Eram manhãs que sabiam a leite do dia fervido, com uma capa espessa de nata amarela a boiar em cima (“Ó Vó tira-a toda!”). Aquele sabor gordo a remédio morno, que nos dava ganas de vomitar mal enfiávamos o nariz na caneca. Enchê-lo de açúcar não ajudava. Beber de um só trago era quase melhor que adiar a tortura.

Manhãs com o cheiro enjoativo da colónia Jonhson com que a mãe nos salpicava – dois dedos no pescoço, um toquezinho nos pulsos, uma festinha no cabelo – antes do odor infernal da manta de lã vermelha, aquecida pelo sol, que revestia os estofos muito usados do banco traseiro do Fiat 128.

Manhãs que soavam ao tilintar dos fios de ouro com medalinhas de anjos-da-guarda e das pulseiras de bebé, cheias de nózinhos, gravadas com as nossas datas de nascimento. E o chocalhar do guarda-jóias da minha mãe, remexido por dedos infantis que preferiam escolher colares de plástico do que enfiar pela cabeça as ofertas douradas dos padrinhos. A rádio renascença, roufenha e irritante, lá muito ao fundo.

Manhãs àsperas como meias de renda pelo tornozelo, como calções de fazenda em xadrês com peitilho para ele e saia a condizer para mim. Manhãs apertadas pelos maryjanes azuis escuros da estação anterior, de biqueira cortada pelo meu pai, para deixar espreitar os nossos dedos impacientes e demasiado crescidos

Manhãs em que os carros ultrapassados na recta da Marateca desfilavam em câmara lenta pelas janelas de trás, que não se podiam abrir, em que a vista das ruínas do castelo de Alcácer e das dunas da Comporta, mais os números marcados na casca dos sobreiros eram maravilhas de igual calibre.

E a rádio renascença, roufenha e irritante, lá muito ao fundo.

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Ilustração retirada de um dos meus livros preferidos, “Quando eu nasci”, daqui.

25 comments

  1. Prezado

    Reconhece-se logo… Este ano o meu alter ego teve aulas com uma das ilustradoras da Planeta Tangerina. Muito bom trabalho, mas é como diz a Clara, os miudos não são o target…

    • Alexandra

      Tu e o teu alter-ego são uns gajos que eu invejo bastante. Eu tinha lá coragem de ter aulas com essas meninas….
      E sim, os miúdos chegam à Fnac e pegam logo no Noddy, esse malandro. Mas bem guiados, chegam lá.

  2. VdeAlmeida

    Ah! lá está: também voltaste á infância e às recordações. Gostei muito. Um dia destes decido-me a também faço essa espécie de Regresso ao passado. O pior são os tais episódios escabrosos (mas também nunca considerei que um blog tivesse que ser obrigatoriamente confessional, eheh)

    • Alexandra

      Exacto, tanto quanto tu sabes eu posso adorar a nata do leite mas achar que é mais literário achá-la nojenta.
      Então e a Marília à beira do rio. Ficção? Não me digas… ;)

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