Ainda no tópico da vergonha

Foi preciso chegarem-me os trinta e picos para me encher de vontadezinhas fúteis que nunca tive e passava bem sem vir a ter. Podia-me dar para escrever uma romance sério ou plantar uma bananeira, mas não, deu-me antes para mandar arranjar as sobrancelhas com um cordelinho. E para comprar uma mini-saia às riscas que só vou usar uma vez. E para começar finalmente a cortar as pontas de dois em dois meses. Isto tudo, senhores, é uma fonte de preocupações que nunca mais acaba.

Não sei fazer conversinha de gaja, sou peixe fora de água num cabeleireiro, avanço a medo num shopping, encho-me de terrores perante uma manicure e sou a rainha da insegurança numa perfumaria. Não é por isso de admirar que estes meus novos caprichos me andem a tirar anos de vida. De que serve andar a tratar das rugas, se o stress de o fazer me acrescenta cabelos brancos?

E todo este sturm and drang, porquê?  Está bom de ver. Porque toda uma colecção de programas de makeover na televisão me levou a acreditar que melhorar o visual é canja. Basta estalar os dedos e uma espertalhona qualquer, simpatiquíssima, diz-nos como devemos usar o cabelo, que nuances realçam a nossa pele previamente esfoliada e que roupinha melhor assenta nas nossas curvas meio-estafadas. Até nos descobre uma cintura onde na verdade nada há (ou há de mais).

A realidade, essa é bem outra. Todas as pessoas ligadas à estética olham para mim de lado, suspeito até que nem me apreciam, ou então tenho muito azar e apanho com os tansos todos.

Assumo, sou uma naba nestas coisas: PRECISO DE AJUDA. Mais, preciso que me levem ao colo, que me apapariquem, que me convençam, que me desafiem. Preciso, preciso e isto é uma birra. Mas ninguém me liga nenhuma. E eu sei que estas coisas existem, vejo-as a acontecerem na cadeira ao lado da minha, mas os vinte e cinco minutos de discussão tola sobre o tom de cabelo da actriz X na novela Y, que vai certamente favorecer a cabeleira luxuriante da minha vizinha, contrasta de forma gritante com os dois segundos que leva a cabeleireira a dizer-me que tenho o cabelo muito fino.

Socorro, a sério. Eu sei que tenho o cabelo muito fino. Afinal, o cabelo é meu, nasci com ele, vivo com ele, durmo e acordo com ele todos os dias. É como lembrarem-me logo à entrada que sou grande. E quando baixam a cadeira quase até ao chão. E quando ajustam o lavatório e se queixam que lhes dói os braços no brushing. Olhem para mim a olhar-vos de cima: acham que nunca reparei que sou grande?

Senhoras cabeleireiras, o meu cabelo é fino e eu sou grande, ok? Nada disto faz com tenha de coser campainhas às minhas roupas, por isso não ajam como se eu tivesse peçonha. Sorriam, uma vez basta, e cortem-me o raio do cabelo caladinhas. Já que não me querem fazer mais nada.

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A menina da bola de cabelo ali em cima é do Claudio Cina

28 comments

  1. Izzie

    Não sei fazer conversa de cabeleireiro, entro muda e saio calada. Pelo-me de cagunfa de pedicure, e não aprecio que me andem a escortanhar as peles das mãos. O que posso, faço em casa. Não tenho categoria para aconselhar, portanto (e, para finalizar, cabelo fino, também. so what? é o meu, deal with it.)

  2. Rachelet

    Quando descobrires a solução para ser uma senhora sem ter chiliques, conta. Tenho um problema semelhante de analfabetismo estético feminino. (Só que a mim dizem que tenho o cabelo muito forte. Nunca estão contentes, as profissionais do corte piloso.)

    • Alexandra

      Acho que não há solução. Não podemos ser senhoras e pronto, vamos enfrentá-lo com estoicismo e verniz lascado.

      Cabelo muito forte? E tens coragem de me vir dizer isso para aqui? (Eu já o vi, sua malandra, é giro que sei lá. Nem dormi bem nessa noite) -_-

  3. Rainha St

    A pior coisa que me podem fazer é ir para o cabeleireiro e começarem blá blá, não tenho pachorra, as conversas vão sempre acabar à lambisgóia da vizinha ou à novela, então faço-me de antipática, mas agora descobri um cabeleireiro que não se passa nada disso, entramos mudos e saímos calados.

  4. Anna Blue

    Pelos vistos esta fobia aos cabeleireiros é mais comum do que se pensa e ser gaja não é sinónimo de cardápio de futilidades. Eu sou mais uma que se confessa avessa a manicures. A única vez que arranjei as unhas com uma profissional foi quando me casei, já lá vão uns anos valentes. Sobrancelhas arranjo-as eu em casa e quanto a cabeleireiros vou à mesma de sempre. Corta bem e apenas faz conversa acerca de cinema. O único senão é que, ao contrário de ti, tenho uma juba no lugar de cabelo, e requer um corte regular, o que me faz frequentar o cabeleireiro mais vezes do que aquelas que gostaria. Enfim, gaja sofre e nunca está satisfeita com o que lhe sai na rifa.

  5. VdeAlmeida

    Eu se fosse a ti, das duas uma: ou mandava uns palavrões: Deixe-se de considerações parvas e arranje-me a porra do cabelo, f&€@-&e.
    Ou então escrevia uma carta mimosa à Pipoca Mais Doce a pedir aconselhamento :)

  6. W

    Também já me deu para esse lado e fui deixar quase 80€ a um cabeleireiro. Serviu de cura… agora entro mudo e saio calado para não correr riscos.

  7. Blue

    Não há nada como mandá-las calar, ou no mínimo ironizar com o directíssimo: “A sério? Nunca tinha reparado” (que era alta, ou que tinha cabelo liso ou o que quer que seja…).
    Eu por acaso tenho uma boa relação com o minino que me trata da trunfa, posso sempre aconselhar.

    • Alexandra

      Será que ele gosta de cabelos finos? Podes aconselhar, sim, daqui a dois meses lá terei de ir outra vez às pontas. Manda-me para o mail.
      (bem sei que ainda não te respondi ao outro)

  8. freeculturelisbon

    A mim ninguem me fala porque eu leio as revistas todas durante o tempo de espera e enquanto estao a cortar o cabelo (o que refilam pq fico com a cabeça inclinada) . Mas a verdade é que resulta , entro em silencio e saio em silencio.

    ps: a imagem é o maximo

  9. F

    Aconselhamento grátis (mas lamento, não sou a Pipoca):
    Vai cortar o cabelo à Facto, na Rua do Norte, com o Antony ou com a Andreia (+-50€) e arranjar as sobrancelhas na Élia Lé, Av. da Liberdade.
    Quanto às mãos garanto-te que com um bocadinho de prática consegues arranjá-las tu mesma, em casa (mas sem a parte de cortar cutículas que isso é mesmo para profissional). Aproveitas para relaxar um bocadinho enquanto tratas disso e sai muito mais barato.

    Boa sorte e obrigada pelo Blog :)

    • Alexandra

      Obrigado F, tudo muitíssimo útil, anotei. Temos é um problema com a Facto, já lá fui uma vez, levada por uma amiga porque tinha medo de ir sozinha, por tudo o que se diz acima e ainda pavor de não ter estilo para a coisa. Gostei da conversa, ninguém disse mal do meu cabelo, mas pensaram… ó se pensaram. Tanto que resolveram cortar-mo todo. Levei semanas a recuperar do susto, mas depois de crescer um bocado gostei muito do movimento dele. Nunca mais voltei, ehehe.

      Para as mãos por acaso tenho jeitinho – roo unhas que é uma beleza. Também pinto bem a mão esquerda.
      Volta sempre!

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