Arco-Íris

“Quando chove e faz sol, estão as bruxas a comer pão mole”, dizia a minha avó, desconfiada, quando lhe aparecia um arco-íris pela frente. Eu via-as logo na minha cabeça, as danadas. Vestidas de preto e sentadas em mochos, a sorverem, desdentadas, sopinhas de pão e leite com café. Como a minha avó.
Ela era uma avó que dizia muitas coisas e tinha sempre opiniões e é assim que devem ser as avós. (Que o meu eu adolescente não me oiça!). Lembro-me a toda a hora das coisas que ela me disse. A minha vida inteira. Tantas coisas, algumas sérias, outras tolas. Tenho a voz dela arquivada, frases inteiras numa espécie de podcast mental não solicitado, a emitir o dia todo, a propósito de tudo e de nada. Não a consigo desligar e, muitas vezes, nem decifrar. Fico contente porque agora a minha avó já não diz grande coisa e assim não me esqueço da segurança impressionante com que costumava lançar sentenças. Outras vezes apetece-me dizer-lhe, cala-te só um bocadinho, vá lá. Mas arrependo-me logo. Porque um dia ela cala-se mesmo, e fica só esta voz de arco-íris, feitiçaria de bruxa esfomeada, que a troco de pão mole, tece de luz uma maravilha fugaz.

Esta manhã vi um arco-íris do tamanho de Lisboa, ‘vó. Lembrei-me logo de ti. Grande, grande. Um pé em Belém e outro já perto da casa onde morámos as duas. Vou contar-te tudo no domingo, e vais-te rir das bruxas, como quando te contei que escrevi a história da Tivitória e seu cavalo bolorento, no meu blog. Já nem perguntas o que é um blog. E depois ficas só a olhar para mim e o que não dizes é quase mais eloquente que tudo o que alguma vez disseste.

 

21 comments

  1. a.i.

    A minha avó ainda diz muitas coisas, tem 91 anos mas de cabeça parece-me estar tal e qual como quando eu era pequena. Também adoro as expressões que ela usa e as “sentenças”. Gosto muito quando ela diz “desacossoada”.
    É muito bom ter recordações do que a avó dizia, e essa do podcast é uma maneira excelente de recordar!

        • a.i.

          a palavra correcta é descorsoada.
          “descorsoado” encontramos por exemplo no D. Quixote:
          “Cobre-te, cobre-te, animal descorsoado, e não te saia pela boca o medo que tens pelo menos na minha presença”.

          Provavelmente o sentido em que a minha avó usa o “desacossoada” já é diferente deste antigo.

          • Alexandra

            Que lindo! É sempre bom aprender palavras novas. A minha outra avó dizia que quando andava de carro ficava “mariada” e durante anos eu achei que ela estava a inventar aquilo… mas não, existe “almariada”, com esse mesmo significado de tontura.

  2. Chicolaiev

    Pois a minha avó dizia: “Sol e chuva, casamento da viúva”…

    Eu preferia acreditar na versão que existe um pote de ouro no local onde o arco-iris pousa na terra…

    Chicolaiev
    omeupassaporte.blogspot.pt

    • Alexandra

      Não conhecia essa e adorei! Muito obrigado pela partilha da sabedoria da tua avó.
      E, já agora, este arco-íris pareceu-me que pousava no rio. Diluía-se de uma forma muito bonita e não chegava a tocar na água. Vai na volta e há para ali um pote de ouro submerso para os lados do Padrão dos Descobrimentos.

  3. Diana Silva

    Embora passe aqui sempre que tenho algum tempo creio que nunca te deixei aqui nenhum comentário, Alexandra. No entanto, não pude resistir e este texto tão enternecedor, tão puro, tão…não melodramático como tu dizes, mas saudosista, perhaps?
    Cresci com os meus bisavós, conheço bem essas expressões tão engraçadas que grande parte da minha geração desconhece e não me podia ter identificado mais com o “podcast não solicitado” que tu tão bem descreveste.
    Obrigada por este texto.
    Mesmo.

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