Catarse global em tons de vermelho

Éramos poucos na fila para os autógrafos por isso havia tempo e à vontade para dois dedos de conversa com o autor. Era simpático, o grande senhor George. Riu-se quando lhe elogiei a Brienne grandalhona e escreveu algo diferente em cada um dos (ainda só) quatro volumes que lhe coloquei à frente. No quarto, a seguir ao meu nome, colocou uma frase de algibeira, que ía repetindo de tantas em tantas dedicatórias: “keep your sword sharp”.
Foi essa menos inspirada tirada que me veio à ideia quando, meses depois, deitei finalmente a unha ao quinto volume da saga e, com profundo horror, “assisti” ao famoso Red Wedding: “mantém a espada afiada, nunca sabes quando vais ter de chacinar uma família inteira”.
Gosto de pensar que aquela dedicatória constituía uma espécie de aviso e levei-a a sério. Afinal, uma espada afiada já tinha atravessado o caminho (e o pescoço) do pobre do Ned Stark.
Foi sem surpresa, mas com uma espécie de nervoso miudinho, que assisti de novo ao horror, desta vez em forma de série. Segui de perto, nas redes sociais, as engraçadas reacções dos fãs nos EUA, tão interessada no fenómeno sociológico como em boas gargalhadas. Eu própria, no entanto, estava à espera de ficar mais ou menos indiferente, quando aconteceu o impensável…
A famosa cena, no livro, tinha-me emocionado mais pela gravidade dos acontecimentos e pelo inesperado do que pela perda de personagens fulcrais. Nos livros, aquele ramo da família Stark não me agrada muito, é preciso dizê-lo. Acho o Robb um bocado para o xoninhas e a mãe dele uma megera (como é que pode ser tão má para o meu querido Jon?). Na série, curiosamente, gostei muito de ambos. Como não gostar? O Robb é lindo e a Catelyn está muito bem interpretada. As adaptações têm destas coisas.
Foi assim que dei comigo a suster a respiração mal soaram os acordes das “Chuvas de Castamere” e a sofrer verdadeiramente enquanto toda a cena se desenrolava à minha frente, perfeita e bastante fiel, com toda a crueldade de que me lembrava. O Robb, pá! Que nó na garganta.
Posso dizer que, cinco anos depois, comecei finalmente a fazer o luto aos Stark. É um luto colectivo, este, e sabe bem. Já não se fazia uma catarse global tão saborosa desde que acabou o Lost! (não vamos contar com as movimentações que uma outra chacina vermelha provocou recentemente nas redes sociais, senão ainda me acusam de chamar Frey ao FCP, e com dragões à mistura toda a gente sabe que eles são aparentados é com os Targaryen.
Enfim, mal posso esperar pelo que aí vem (sabendo ou não o que é)!

13 comments

  1. D

    Nós , os outros que começaram pela série e se entusiasmaram com os livros e que ainda não tínhamos chegado “aí” , ficámos de queixo caído. Foi tudo passado a caroço, pelo menos um quarto dos personagens principais… Agora tenho um dilema: se continuo a ler, irei perder o interesse a prôxima temporada da série ??

  2. André

    Foi interessante ver a cena mesmo depois de me ter sido “spoiled” (página oficial da HBO, I’m looking at you), foi um tipo diferente de tensão, gostei. Mas tinha preferido que fosse surpresa. Esta suspensão da previsibilidade do GoT é incrível, ninguém está seguro. Só conheço outra série que fazia isso igualmente bem, que era o The Wire (embora de forma mais subtil).

    Ah, e já passámos todos a borrifar em spoiler alerts, a sério? agora jogamos com estas regras, é isso? Just sayin… -_-

    • Alexandra

      Sorry! Escrevi tudo num tablet, a minha estreia, mas senti-me tão desconfortável que até me esqueci desses detalhes como Spoilers Alerts e assim…
      Nunca vi o te Wire, agora deixaste-me curiosa.

      • André

        Nunca vi nada como o The Wire em televisão. É o mais próximo que vi de um formato audiovisual aproximar-se ao tipo de estrutura e ambição narrativa que só se encontra num livro. O GoT também faz isso bem, mas ainda é cedo para comparações, e o The Wire tem uma pretensão de realismo que o GoT dispensa. O único conselho que dou é: se algum dia decidires ver, vê pelo menos os três primeiros episódios (com legendas) e só depois decide se queres continuar ou não. E agora fiquei em modo fanboy intenso. Shit’s gonna get real

  3. Rosa Cueca

    A Catelyn irritava-me, pelo que já veio tarde – pobre Jon Snow.
    O Robb, bem, quem acreditava que ele ia ser o verdadeiro King of the North? Sempre me pareceu muito frágil aquela liderança repentina e muito happy endish para ser verdadeira.
    Desde que não me matem o Tyrion, o Jon Snow e a Daenerys está tudo bem.

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