Category: Monólogos da Naftalina

Walking Dead Inter Rail

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Neste último episódio da 4ª temporada do Walking Dead apercebi-me que uma das razões que me fazem gostar tanto* daquela história é a sensação que tenho de estar a reviver o meu inter-rail. Vejamos: aquela gente anda sempre sobre carris, quase só come enlatados, tem conversas monossilábicas, mas que são de certeza muito profundas, e nunca, nunca toma banho.
Se não vos parecer suficiente, lembro-vos que os efeitos de um mês sem amaciador no meu cabelo foram tais, que, à chegada a Santa Apólónia, se tivesse comigo uma espada de samurai em vez de uma mochila empaturrada de t-shirts sujas, teria sido confundida com a Michone.
E os zombies, perguntam vocês? Que é deles? Pois bem, o que é pensam que se chama a grupo de criaturas mal-cheirosas, com três horas de sono por noite, ténis rotos e muita fominha?

*E gosto muito, até à insanidade, mesmo esta temporada que toda a gente odiou e insistiu em dizer que valia mais a pena ver o True Detective. Please. Como se pudessemos comparar uma coisa com a outra. Ou como se não pudessemos fazer perfeitamente as duas coisas.

Os antepassados desertores e as Latkes

Quando eu era miúda, o meu pai provocava-me dizendo que tínhamos algures na nossa linhagem um antepassado mouro. Inventava uma história rocambolesca sobre um pobre maometano de turbante branco, fugido de um exército desbaratado por algum dos nossos Afonsos ou Sanchos, na reconquista. Na minha cabeça, a cena acontecia à vista das muralhas de Serpa (?), com uma moura encantada a assistir de balcão. A pobre desfazia-se em lágrimas ao ver que, na planície cá em baixo, uma roliça camponesa alentejana recolhia o infiel e lhe dava enxerga, mesa, roupa lavada e… descendência. A história até era bonita e eu podia muito bem ter crescido a acreditar nela, não me contasse o meu pai outra exactamente igual sobre um refugiado celta (ou visigodo, nunca se apurou ao certo…). Esse desgraçado nórdico, acossado pelos romanos, ter-se-ía deixado ficar pela Lusitânia à guarda de outra camponesa roliça, até sair responsável pelos olhos azuis da minha avó.
Destes meus dois antepassados desertores, o mouro era o que tinha genes mais fortes, está bom de ver. De lábios cheios e olhos escuros, a pequena moura que eu era não lhe perdoava a desfeita. Nem ao meu pai, por insistir nestas historietas. Eu só queria ser portuguesa, sem mais. Não percebia que saber nadar numa imensa caldeirada genética era o requisito obrigatório para o cumprimento desse desejo.
Para piorar tudo, o meu pai apresentou-me ainda a um terceiro antepassado. Este não era desertor, valha-nos isso, mas era converso. O que é isso? Um cristão-novo, um judeu obrigado a rezar a todos os santinhos para não ir parar à fogueira. Contra a inquisição não havia alentejana roliça que valesse, parece. Nem sequer as minhas antepassadas, tão habituadas que estavam a salvar reprodutores em perigo.
Dizia-me então o meu pai que a prova da existência deste antepassado estava nos meus sobrenomes. Todos três constam da lista dos sobrenomes adoptados pelos cristãos novos aquando da conversão forçada. Foi das primeiras coisas que fui verificar assim que se inventou a internet porque, sabe-se lá as razões, simpatizei com este meu antepassado, o marrano.  Não me importei que estivessem na lista os apelidos de quase toda a gente que conheço. Se é para ser judia, serei mais judia que os outros todos! Fiquei tão curiosa que até lhe perdoei o formato e dimensão do meu nariz. E passei a interessar-me muito pela história e cultura judaica. Não serei uma estudiosa da cabala como a Madonna, ainda não distingo uma sefirah de outra, mas vou aprendendo umas coisinha aqui e ali. Livros, filmes e a minha última mania: comida!!

É aqui que relacionamos esta história com o meu post anterior. Às vezes “provo” comida nos livros e esta sabe-me tão bem que tenho de a cozinhar para prová-la mesmo. O Daniel Mendelsohn, que é um senhor que admiro muitíssimo, alarga-se em descrições gastronómicas no seu fabuloso livro “The Lost” (“Desaparecidos”, em português – preparem-se para chorar muito). Apeteceu-me provar todos aqueles pratos típicos da cultura judaica do leste europeu, mas mal li sobre as latkes, tive de meter logo as mãos na massa. E cá estão elas, esta espécie de panquecas de batata que aprendi a fazer aqui. Um prato económico e delicioso, até para mim que não aprecio fritos (a minha versão tem um pequeno twist – juntei curgetes, cenouras e sementes de sésamo).
Lindas, estaladiças, deliciosas! Para a próxima já ficarão mais redondinhas…

latkes
Porque tenho a certeza que se há coisa que os meus antepassados sabiam fazer bem para além de abandonar exércitos e ideologias, era comer. E eu herdei isso deles!

Avó Querida

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Os desenhos são meus, de quanto tinha 6, 7 e 8 anos. Tinha uma letra linda e parece que gostava de corações. A história está aqui, no “Mãe Querida”, o portal da Limetree – um projecto nacional que eu adoro!
E depois, há neste mundo ursas convincentes…

 

 

Não há coincidências…

… mas eu creio nelas.

Disse-me o facebook que a Fnac do Chiado, a minha Fnac de sempre, faz hoje 14 aninhos (o que torna estúpida esta conversa do “sempre”, mas deixemos ficar que é bonito).
Ora isto lembrou-me, logo agora que anda tudo encarniçado contra a Guiducha, que a primeira vez que desci as escadas dos armazéns do Chiado e entrei na loja para ver as vistas, só de lá saí duas horas depois, com opinião formada e informada sobre o “Não Há Coincidências”. Foi o primeiro e último livro da senhora que li e dele só me lembro que havia para lá uma personagem qualquer que não gostava (ou gostava, lembro-me lá eu das pancas daquela gente…) de sapatinhos de berloques.
Só li a referida obra por dois motivos: queria saber porque é que o país todo tanto falava daquilo e queria sabê-lo sem gastar tusto. A Fnac tinha aqueles sofás tão jeitosos a condizer com a política “lê à vontade que não pagas mais por isso” e ainda juntavam música ambiente à equação. Naquele dia era Bach, uma interpretação de Yo Yo Ma. Não me admira nada que não tenha retido nada do que li. Já a estes dois senhores, volto muitas, muitas vezes.

O Fred, o Fiat e a Flausina

Eu e o Fred conhecemo-nos dentro do Fiat do meu irmão, no tempo em que ele tinha dois dados cor-de-laranja pendurados no retrovisor e uma flausina de Camarate no lugar do pendura. O Fiat e o Fred abanaram-se em conjunto meses a fio, enquanto o meu irmão cantava “Keep Rolling, rolling, rolling…” e a Flausina rebolava, rebolava, rebolava. Raio de miúda dengosa. Parece-me que se chamava Marlene. Eu ía sentada no banco de trás, a desdenhar daquilo tudo menos da boleia. Não tinha carro, mas tinha a mania. E não achava que o Fred Durst fosse a dádiva de Deus aos revoltados adolescentes tardios.
Kurt Cobain só tinha havido um e lá porque o meu irmão não tinha idade para o apreciar devidamente na altura do seu reinado, não era um adultozeco de boné e calças pelo cu abaixo que o podia substituir.

Olhando para trás, o meu irmão era um puto parvo, os Limp Bizkit eram uma banda parva, mas o meu desdém era tão ou mais parvo que eles. Pondo as coisas em perspectiva, se temos todos de passar por uma fase de música parva quando somos putos parvos, é bem melhor ouvir Limp Bizkit do que Rhiannas e derivados, como fazem os putos de agora. Ou reggae, que parece que é o que mais ouvem, cambada de xoninhas sem atitude. O Fred Durst, caraças, até podia andar com o rego de fora, mas aquela música, apesar de cheia de “scratches” nojentos, tinha testosterona, tinha raiva, tinha qualquer coisa de excitante. Pelo menos foi o que achei ontem, quando dei por mim a navegar no You Tube, trauteando dois ou três refrões do “Significant Other” que ainda me lembro e me soaram bem.
E soube-me bem matar saudades do Fiat, do Fred, da Flausina e da Ferocidade, que tem de estar em toda a música, mesmo na parva.

Já agora: O Fiat um dia foi roubado e apareceu meses depois na Charneca da Caparica com dentadas no volante. A flausina deu com os pés no meu irmão e engravidou em seguida de um tipo que deu à sola assim que soube que ía ser pai. O Fred, esse, parece que ainda para aí anda, mas não sabe fazer twerking.

Jô Caneças vs Fernando Ribeiro

A Bad Girl reparou, e muito bem, que uma destas manhãs a palavra “lúxuria” foi mal interpretada na SIC. Aliás, mal interpretada é um eufemismo, a pobre da palavra foi enxovalhada, espezinhada, arrastada pela lama. Não é coisa que se faça a uma palavra que me é tão querida, por isso protesto!

Acham então os meninos das “Manhãs da Júlia” que “luxúria” vem, como grafia e pronúncia o indicam, de “luxo” e que, portanto, é legítimo meter para ali ao barulho, sem parental adviser nem nada que nos avise para nos agarrarmos bem, a luxuosa-luxuriante Jô Caneças. E as suas malas, claro.
Ao ler esta pouca-vergonha, o meu estômago deu duas voltas e os tentáculos da salada de polvo que comi há bocado enroscaram-se-me logo pelo esófago acima. Para tentar acalmar a minha perturbada digestão, deixei-me escorregar em flashback, até ao dia em gravei numa cassetezinha a voz do Fernando Ribeiro, dos Moonspell, a dizer, num programa de rádio, que de todos os textos a concurso, tinha gostado mais daquele de Alexandra, a Grande, ainda não conhecida por esse nome, sobre o tema da Lúxuria. Precisamente.
E como se abordava em semelhante opúsculo, esse que me deu um camarote grátis no concerto de lançamento do mal-amado álbum Sin/Pecado, o meu pecado capital preferido? Falava eu de lojas na Avenida da Liberdade nessa obra? De resorts nas Maldivas? De anéis Tiffany? Nem por isso.
A prostituta da Babilónia, essa estava lá, junto com referências a rituais mesopotâmicos e saborosos frutos proibidos da tradição judaico-cristã.
Música para os ouvidos do Fernandinho, achei eu e parece que que ele a ouviu.

Não estranho que na SIC não se saiba o que quer dizer lúxuria porque já me aconteceu antes deparar com este pequeno problema. A caminho do Coliseu, no dia do Sin/Pecado, o lindo metaleiro louro a quem resolvi oferecer um dos meus bilhetes grátis, perguntou-me o que era exactamente isso da luxúria. Após explicação detalhada da minha parte, resumiu a coisa nestes termos: “É comer bué gajas, não é?”
Um luxo, digo eu.

Arco-Íris

“Quando chove e faz sol, estão as bruxas a comer pão mole”, dizia a minha avó, desconfiada, quando lhe aparecia um arco-íris pela frente. Eu via-as logo na minha cabeça, as danadas. Vestidas de preto e sentadas em mochos, a sorverem, desdentadas, sopinhas de pão e leite com café. Como a minha avó.
Ela era uma avó que dizia muitas coisas e tinha sempre opiniões e é assim que devem ser as avós. (Que o meu eu adolescente não me oiça!). Lembro-me a toda a hora das coisas que ela me disse. A minha vida inteira. Tantas coisas, algumas sérias, outras tolas. Tenho a voz dela arquivada, frases inteiras numa espécie de podcast mental não solicitado, a emitir o dia todo, a propósito de tudo e de nada. Não a consigo desligar e, muitas vezes, nem decifrar. Fico contente porque agora a minha avó já não diz grande coisa e assim não me esqueço da segurança impressionante com que costumava lançar sentenças. Outras vezes apetece-me dizer-lhe, cala-te só um bocadinho, vá lá. Mas arrependo-me logo. Porque um dia ela cala-se mesmo, e fica só esta voz de arco-íris, feitiçaria de bruxa esfomeada, que a troco de pão mole, tece de luz uma maravilha fugaz.

Esta manhã vi um arco-íris do tamanho de Lisboa, ‘vó. Lembrei-me logo de ti. Grande, grande. Um pé em Belém e outro já perto da casa onde morámos as duas. Vou contar-te tudo no domingo, e vais-te rir das bruxas, como quando te contei que escrevi a história da Tivitória e seu cavalo bolorento, no meu blog. Já nem perguntas o que é um blog. E depois ficas só a olhar para mim e o que não dizes é quase mais eloquente que tudo o que alguma vez disseste.

 

Misha, o culpado

Gosto dos Jogos Olímpicos desde sempre. Vejo tudo o que posso, menos as modalidades em que não está a acontecer grande coisa, como tirinhos e afins. Sei que é um gosto que tem mais a ver com o peso da história e a simbologia da competição saudável entre nações, do que com desporto. Também suspeito que a culpa é em grande parte dos atletas em roupas diminutas e, claro, do ursinho Misha. Se o caso dos primeiros carece de explicação, este último faz-se acompanhar de uma historiazinha em tons de sépia e musiquinha de filme antigo:
Quando eu tinha 2 anos e picos a minha mãe ofereceu-me um broche (riam-se, riam-se mas em 1980 as pessoas usavam broches), com a forma da mascote dos J.O. de Moscovo, apenas fofo q.b, com alguma da dureza e do mistério do leste da Europa. Preguei-o com orgulho no casaco de fazenda castanho, que na altura ninguém vestia as crianças de cor-de-rosa hello kitty, e usei-o nesse Invernos e nos seguintes. Ainda o tenho lá para casa, prateado e sorridente, de nariz empinado e cinturão de argolas olímpicas. Um pedacinho da história do mundo, um pedação da minha história.

Frio de rachar no recreio e ursinho Misha, saltar poças de águas com o meu irmão e ursinho Misha, pisar tapetes de folhas e ursinho Misha, Natal e ursinho Misha, mimos de mãe e ursinho Misha…
Não cresci fã de acessórios, mas fiquei a gostar muito de ursos de todas as espécies. E de jogos Olímpicos.

Lembro-me disto agora porque ontem reparei nas esquisitas mascotes Olímpicas de Londres a contorcerem-se de forma mais esquisita para cima de um atleta. Dei-me conta que ainda não tinha dado por semelhantes criaturas. Não sou conservadora, acho muito bem que se façam experiências com conceitos, formas e cores, não precisamos de ter sempre mascotes animais, mas… o que vem a ser aquilo? Ciclopes mutantes? Ah… parece que são gotas de aço derretido!

 

Depois de uma cerimónia de abertura discutível (eu cá gostei), de um muito discutido logotipo (habituei-me a ele), temos as discutíveis mascotes (sorry, mas não entram). Tudo bem, gosto de uma boa discussão. Mas Wenlock and Mandeville não ficarão na memória das crianças de hoje nem chegarão a ser estrelas dos seus posts lamechas daqui a 32 anos.

TEAM MISHA!

Querido stôr

Californication – a série, deu um bocado de luta. Não gostei logo, logo, das aventuras do personagem principal, o mítico escritor Hank Moody que, como o nome da obra indica, fornica à fartazana na Califórnia. (Já Californication – a canção, foi amor à primeira audição. Basta dizer que os meninos vermelhos, quentes e apimentados, arranjaram maneira de juntar e fazer rimar unicórnios primogénitos com pornografia (levezinha), o que me parece genial em todas as frentes.)

O principal problema de Californication – a série, foi que me fez sentir uma vítima desde a primeira cena. Eu também ía na conversinha do Hank, um mulherengo inconsequente e irresistível, com toda a piada que o Duchovny quase conseguia dar ao agente Mulder. Desagradou-me instantaneamente, agarrou-me logo a seguir. Foi fácil perceber porquê. A somar à atitude de bad boy, há duas coisas essenciais que o tornam perfeito aos meus olhos: um sentido de humor delicioso e a aura mística que todos os escritores-homens têm. (Já agora fiquem a saber, bloggers masculinos que por aí andam, que quando vos leio, estou a imaginar-vos a todos como potenciais Hank Moodys e adorar-vos estupidamente, como se não tivesse coisas melhores para fazer.)

Foi só ao fim de 5 temporadas da série que me apercebi que havia ali mais qualquer coisa. O Hank é adorável e familiar. Muito familiar. É que eu conheço-o, já fui aluna dele. O meu Hank Moody era arquitecto e não escritor, e, tirando as parte das aventuras amorosas, que obviamente nunca partilhou com a turma, era um decalque perfeito deste infant terrible. Do corte de cabelo aos ray ban, das piadas cáusticas à atitude displicente. Usava T-shirts pretas, botas alentejanas ensebadas, barba de três dias, casaco de cabedal. Era giro, era rebelde, era um de nós, mas com mais pinta. Se me tivesse apaixonado por um professor teria sido por este. Quase me arrependo.

Foram quatro anos de lições. História de arte, geometria, viagens, acampamentos, leituras, histórias. Para ele eu era a boazinha da turma (ainda que secretamente preferisse ser a boazona), para mim ele era um mentor, uma espécie de Yoda, mas com bom aspecto. Saramago, o Abade de Suger, Che Guevara, Cipião, Rembrandt, Kerouac, Soeiro Pereira Gomes, tantos nomes que me apresentou e que ficaram comigo. Quanto a mim, escrevi-lhe um poema épico de despedida, uma crónica dos nossos anos com ele. Chorou.

A última vez que o vi, num jantar de grupo, já depois da faculdade, achei-o velho e magro e fui eu que chorei discretamente. Devia ter ficado para sempre com 30 anos, o maldito. Ainda trazia as botas e os óculos e quis mostrar-me uma banda nova, que lhe tinha devolvido a esperança no rock, dizia. E se eu tenho a certeza de alguma coisa é de que o Hank Moody também gosta de The Strokes.

Blues de sexta


Primavera quente. Sexta-feira no pátio. Troca de cassetes com o Paulo que desenhava bem, o Marco a rir, os Brunos, o Zé de cabelos compridos que não conheci, o plim-plim dos matrecos, o nariz queimado do sol, matar tempo até à aula de história, sumo de laranja de máquina. Mad Season. Foi mesmo. E ainda é (um dos meus álbuns preferidos).

Posso-te conhecer?

Eu tinha horror desta frase. Acho que agora já não se usa. Deve ter desaparecido pela mesma altura que os slows do Bryan Adams e as petazetas.
Acontecia muito na escola, claro, os miúdos do 11º. Matulões em matilha, armados de mochilas montecampo e ténis nike, espinhas e hormonas estampadas no sorriso, em road block na porta do pavilhão do meio. A miúda alta do 7º tinha um kispo com coelhinhos e ainda brincava com Barbies, mas não importava. Posso-te conhecer? Está bem. Grudentos como lambugem, roçavam-me as barbas incipientes de um lado e do outro. Chuac, chuac. E eram muitos, qual gang bang. A minha cara corada a passar em ziguezague a milímetros do nariz deles. Sou o Bruno, sou o Luís, sou o João. Sou a Alexandra. Para quê? Cumprimentos apressados nos corredores durante o resto do ano. Eu conheço aquele. Ele conhece-me. Ai sim?
A primeira vez que aconteceu foi numa festa da aldeia, à noitinha. No balancé com o meu irmão, para trás e para frente, os meus pais na conversa com primos e primas. A minha camisola da She-ra, o meu rabo de cavalo gingão e um espertalhão de 20 anos, capacete de mota debaixo do braço, símbolo dos Iron Maiden algures. Eu tinha 11 anos, corpo de 15, a altura que se sabe. Posso-te conhecer? Eu não sabia, nunca soube, o que era aquilo. Qual a finalidade? Pânico, horror, suores frios. Baloicei em silêncio, atordoada, e depois cuspi-lhe um NÃO! Parecia fúria, mas não era. O meu irmão rebentou em gargalhadas. Os meus pais fizeram coro. Os primos cacarejaram igualmente. Eu fiquei com um trauma. E estava tão contente por tê-lo ultrapassado e até já conseguir conversar normalmente com pessoas que acabam de se apresentar.
Até que vieram os pedidos de amizade do facebook.
Eu conheço aquele. Ele conhece-me. Ai sim?

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A ilustração é do Ben Mounsey e é um frame deste vídeo.

Estuve en Torremolinos y me he acordado de ti

A primeira vez que saí do país foi para ir já aqui ao lado. Era assim que se fazia nos anos oitenta. A viagem de sonho da Mariana do “Chocolate à Chuva”. Não calhou ser Badajoz, como era da praxe, mas não passámos muito ao largo da mágica terra dos caramelos.
Os meus pais, o meu irmão e a minha avó e eu, todos sentadinhos nos lugares em frente à porta traseira do autocarro de excursão que partiu do Areeiro, era a madrugada ainda escura. Levávamos: um saco de farnel enfiado na prateleira por cima das nossas cabeças (sandes de queijo, que o fiambre azeda); A máquina Kodak carregada com um rolo de 36; Um almanaque do Tio Patinhas para irmos partilhando quando não nos dava o sono; Muito sono.
O destino final era Torremolinos, andaluza localidade tornada mais longínqua que o necessário pela repetição estridente do “Pó de Arroz” ao microfone, cortesia das colegas de trabalho da minha mãe. Depois havia sorteios, anedotas, crianças a correr pela coxia fora, cheiro a cascas de banana. E colinas a subir e a descer. Paragens para tomar ar. Não vomitar.
Nada foi especialmente bom nessa viagem. Desde a primeira paragem em solo internacional, que se queria solene e triunfante e afinal foi num parque de estacionamento cheio de papel higiénico borrado, à banhoca na piscina do Hotel Siroco, onde o meu pai tentou afogar-nos aos dois, passando pela miserável noite que passei a vomitar cloro, enquanto toda a gente ía às sevilhanas. De resto, a comida era má, a areia da praia era preta, enjoei no barco para Ceuta, a voz da guia era irritante, os meus pais zangaram-se quinze vezes e o meu irmão não se calava porque tinha uma camisola que dizia “2+2=5, I’m a genius” e achava mesmo que era.
Com tanto horror, admiro-me hoje que tenha sido depois desta experiência espanhola que eu tenha feito de viajar o meu grande objectivo de vida. Dá-se esta coisa engraçadíssima com as memórias das viagens – são só as boas que nos ficam. As más, somem-se. Eu comprei castanholas, pisei o continente africano, estive num hotel com elevador, bebi sumo ao pequeno almoço e ensinei o meu pai a nadar. Ou quase.
Quanto ao objectivo, nada de muito extravagante, claro, só duas ou três viagens por ano. Coisa realista. E por cada ano que não consigo cumpri-lo, lá morre mais uma má memória. E fico danada a rosnar o meu mantra:
Viajar é que é bom, viajar é que é bom, viajar é que é bom.