Clicar no play

“Posso falar consigo?”
A mulher sentada ao meu lado no comboio tem um ar cansado mas mostra-me uma espécie de sorriso quando lhe digo que sim. Pode falar comigo. Proponho-me a escutá-la, desconfiada, porque estou protegida pela certeza que só falta uma paragem para me levantar e deixar qualquer desconforto para trás. (Também estou encurralada à janela, não é que possa fugir, mas conversas com estranhos não são para mim).

A mulher abre o Destak na página oito e pousa o dedo ao de leve na fotografia principal, uma cena dos confrontos em Kiev. O dedo dela desliza devagarinho sobre o rosto do homem da direita, como se o acariciasse. É um manifestante jovem, de capacete e casaco camuflado, o rosto crispado num grito. “Meu filho em Kiev”, diz, numa voz baixinha, com o sotaque a marcar a entoação. Começo a ver tudo preto, como se estivesse a ter uma quebra de tenção. “Que horror”, é o que me sai da boca para fora. Ela concorda, mas não sabe que estou ser egoísta. O horror é que só consigo pensar em como não sei o que lhe dizer, em como só tenho lido títulos de jornal e visto de raspão galerias de imagens impressionantes. Nada de cliques para aprofundar a história. Tudo à superfície, tudo levezinho, que isto já anda difícil mesmo sem pensar em confusões do outro lado da Europa.
Sei o que a mulher me está a dizer, mas na verdade não sei. Não tenho querido saber. E agora estou sentada ao lado da mãe de um manifestante ucraniano. Daqueles do telejornal. Kiev é em Caxias e eu estou na mira de um sniper. Estupidamente oiço a voz do Jude Law , lá longe, a segredar : ” I am a stone, I do not move”, mas isto não é a 2ª Guerra Mundial. Estamos em 2014. É ou não é um milénio novinho em folha, a era da informação, tecnologia e civilização?

A mulher só quer falar sobre o filho. Sobre a neta. Sobre a terra dela, virada do avesso. Eu oiço-a. Faço-lhe perguntas. Diz muitas coisas que não percebo por causa do sotaque, mas o essencial é claro. Ao ouvi-la, percebo porque não podemos ser todos pedras, porque é que temos de nos mexer. Isto não é um filme. A rapariga de olhos azuis que aparece no vídeo que anda a ser partilhado pelas redes sociais não está a representar. Mas é preciso que uma mãe fale comigo no comboio para eu clicar no play. É a sério.
É sério.

Foi só tempo entre duas paragens mas parece-me a mulher está a falar há horas. Desço do comboio mas o desconforto desce comigo. Não fica para trás. Raios, ainda aqui está. E se não sou uma pedra, partilho-o convosco. Mexam-se também. Cliquem no play.

14 comments
  1. Desta vez vou fazer o que tu fazes e não o que tu dizes para fazer.
    Não farei play.
    Estou cansada de guerras. Estou farta de pessoas enroladas em lençois brancos.
    E se de repente uma mãe (que sofre) se cruzar comigo no comboio, dar-lhe-ei um abraço, que de resto não lhe poderei dar mais nada.
    Um beijo grande, que eu (hoje) só quero chegar a casa.

    1. Somos duas Uva. Um beijo para ti.

  2. Que horror :'(
    Havíamos todos de passar por episódios assim, por conversas assim, para nos consciensalizarmos de que estes confrontos são reais e há quem sofra muito com eles. Quando os sentimentos de alguém se juntam às notícias, tudo é mais difícil de digerir…

  3. A avalanche de media dessensibilizou-nos. A realidade é demasiado parecida com os filmes, demasiado parecida com a ficção, e já não temos reacções instintivas aos estímulos visuais. É preciso clicar voluntariamente no play por dentro, mas cada vez estamos menos disponíveis para isso. A frase que é preciso repetir, dia após dia, todos os dias, é “first they came for the jews, but I said nothing, because I wasn’t a jew”…

    1. essa é a frase que importa repetir, pesando e pensando cada palavra (para que, de tão repetida, não perca o sentido).

  4. A um nível diferente do que essa mãe carrega no peito, para ti deve também ter sido um momento marcante, sim. Por mais que nos preocupemos com o que gira à nossa volta, é sempre mais fácil fechar a história quando se muda de canal. O toque dessa mãe impediu-te a ti de o fazer. E se calhar agora também a nós, que te lemos.

  5. A informação chega em catadupa e toma tudo de assalto, demasiada, sempre medonha e dramática, sempre… 24/7….permanentemente. Vai-te empedernindo o ser de tal forma que dentro de pouco tempo já nada te toca, nada te choca, nada te incomoda. Condicionaram-nos com electrochoques mediáticos sucessivos e tornaram-nos imunes e insensíveis á desgraça que grassa no mundo. Isso só por si já é uma tragédia.

  6. Ele há dias em vamos muito bem, metidos na nossa vida, e a realidade entra-nos pelos olhos, sem apelo nem agravo… E ainda bem.

  7. Excelente post, Alexandra.
    Disseste “que horror” por não saber o que dizer àquela mãe, mas fizeste o que ela precisava: ouviste-a.
    Quanto aos males do mundo, é verdade que nos passam tantas vezes ao lado, mas será que temos capacidade para abarcá-los todos e sofrer com todos?
    Beijo, Susana

  8. Engoli em seco. Também tenho estado adormecida.

  9. Só agora vi o post Alexandra; que horror…
    a sermos pedra que sejamos as que servem de arma arremessadas aos “maus”

  10. A única ucraniana com quem falei acerca disto lançou-me o ar mais “whocareslifegoeson” que eu já vi. Só quem quer é que se mete em confusão (ler com sotaque carregado), disse ela. Estava mais preocupado eu que ela.

    1. Eu percebo-a, também seria das que não se metia na confusão… :P

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