“Com todo o meu amor e carinho”

No quintal da minha avó havia um vão de escada que já tinha sido uma capoeira. No primeiro ano de casado, o meu pai passou horas esquecidas acocorado naquele espaço minúsculo, a criar para a minha mãe, com perícia de relojoeiro, um guarda-jóias único. Era um baúzinho de madeira escura, finamente decorado com metais dourados e veludos vermelhos, com uma dedicatória de letras mecanorma no interior da tampa. O toque de mestre era um fecho dourado em forma de R., a primeira letra do seu nome.
Tanta dedicação, tanto amor, tanta martelada nos dedos e tudo se perdia no sarcasmo da dedicatória:
“Para a “chata” da minha mulher, com todo o meu amor e carinho”.

Quando era pequena eu adorava brincar com o baúzinho. Tirar para fora os colares e pô-los todos, uns por cima dos outros, era parte do fascínio, sim, mas o melhor era saber que o meu pai fizera aquilo para a minha mãe. “Com todo o amor e carinho”. E achava piada à palavra “chata”. Era carinhoso, pensava eu. O baú do tesouro.

Depois um dia fizeram-me dedicatórias – a mim. E poemas. E canções. E em nenhuma delas me chamaram chata. Mesmo sabendo eu que o sou. Nem sequer com aspas, para disfarçar. E pus-me a pensar no trabalho que o meu pai teve a decalcar todas aquelas letrinhas, uma a uma. Não havia botões de undo, na oficina/capoeira. Mais, as letras mecanorma eram caras. Uma dedicatória muito pensada.

E foi então que,  mais de três décadas depois do baúzinho, a confirmação: O tesouro era falso.

Parabéns pai e mãe. Pelo divórcio.

Ufa! (digo eu…)

 

 

8 comments
  1. Sad, aparentemente, terão sido os 30 anos para o tomar dessa decisão. Mesmo não conhecendo os contornos.
    As relações são lixadas.

    1. Tell me about it.

  2. aqui deste lado foi no aniversário dos 25. não há porque marcar negativamente tantas datas, não é? =)

    1. Mesmo. Só há uma coisa boa a retirar do prolongar desta saga – o acidente de percurso que foi a minha irmã mais nova – que coitada, nunca deve ter estado na mesma divisão com os dois progenitores juntos. Quero pensar que a compensei por isso.

      1. a malta mais nova lucra mais com isso (eu tenho 30). podem aproveitar os clichés de ter duas casas e dizer “ah, se não me deixas sair vou viver com o pai” ou “se fosse a mãe ela comprava-me os ténis que eu quero” e coisas do género.
        a mim só me calharam crises de meia idade…

        1. Isso e uma fobia inultrapassável ao casamento…

    1. Duplo obrigado (o segundo é pela visita)!

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