“Com todo o meu amor e carinho”

No quintal da minha avó havia um vão de escada que já tinha sido uma capoeira. No primeiro ano de casado, o meu pai passou horas esquecidas acocorado naquele espaço minúsculo, a criar para a minha mãe, com perícia de relojoeiro, um guarda-jóias único. Era um baúzinho de madeira escura, finamente decorado com metais dourados e veludos vermelhos, com uma dedicatória de letras mecanorma no interior da tampa. O toque de mestre era um fecho dourado em forma de R., a primeira letra do seu nome.
Tanta dedicação, tanto amor, tanta martelada nos dedos e tudo se perdia no sarcasmo da dedicatória:
“Para a “chata” da minha mulher, com todo o meu amor e carinho”.

Quando era pequena eu adorava brincar com o baúzinho. Tirar para fora os colares e pô-los todos, uns por cima dos outros, era parte do fascínio, sim, mas o melhor era saber que o meu pai fizera aquilo para a minha mãe. “Com todo o amor e carinho”. E achava piada à palavra “chata”. Era carinhoso, pensava eu. O baú do tesouro.

Depois um dia fizeram-me dedicatórias – a mim. E poemas. E canções. E em nenhuma delas me chamaram chata. Mesmo sabendo eu que o sou. Nem sequer com aspas, para disfarçar. E pus-me a pensar no trabalho que o meu pai teve a decalcar todas aquelas letrinhas, uma a uma. Não havia botões de undo, na oficina/capoeira. Mais, as letras mecanorma eram caras. Uma dedicatória muito pensada.

E foi então que,  mais de três décadas depois do baúzinho, a confirmação: O tesouro era falso.

Parabéns pai e mãe. Pelo divórcio.

Ufa! (digo eu…)

 

 

8 comments

    • Alexandra

      Mesmo. Só há uma coisa boa a retirar do prolongar desta saga – o acidente de percurso que foi a minha irmã mais nova – que coitada, nunca deve ter estado na mesma divisão com os dois progenitores juntos. Quero pensar que a compensei por isso.

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