Criaturas na barriga

A Tivitória morava no mesmo patamar que a minha avó. Eram irmãs, mas davam-se muito bem. Eu batia-lhe à porta o dia todo, saltava o muro que lhes dividia os quintais e aparecia-lhe de surpresa na cozinha, onde me sentava a vê-la cortar rodelinhas muito certas de cenoura e losangos de feijão verde. A Tivitória ensinou-me a comer colheradas de açúcar amarelo para acabar com os soluços e a traçar uma cruz com saliva num pé dormente. Era a única que sabia a história dos meninos-com-a-estrelinha-na-testa.

A Tivitória tinha uma caneca verde, de louça das Caldas, com uma rã pequenina presa ao fundo. No Verão, nas minhas correrias, assomava ao muro e chamava-a para beber água pela caneca. Bebia tudo de uma assentada e ficava a doer-me o estômago. Mais, pedia. “Não bebas tanto, rapariga, que te crescem rãs na barriga”. Mas a rã ficava sempre no fundo da caneca, a humidade a brilhar-lhe como um sorriso.

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Encontrei estas “creature cups” maravilhosas da Yumi Yumi, de onde espreitam polvos, crocodilos, lagostas e lontras e lembrei-me logo da Tivitória. Da rã, lembro-me sempre que bebo umas boas goladas e a sinto a nadar cá dentro.

Rãzinha, querida, vais ter um irmãozinho de 8 pernas.

14 comments

  1. W

    Fizeste recordar os meus bisavós! Eles tinham uma caneca com a tal rã no fundo. Sempre que lá passava tinha de beber água.

    Great memories :D

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