Cristos indiferentes

O tópico ao almoço, debatido sobre uma revista da especialidade, foi a falta de originalidade das fotos das bandas. Grupos de gente em pose que não é pose, uns para lá, outros para cá, descontraídos, absortos, tão cool. Nada de sorrisos, alguns com aquela cara de quem comeu e não gostou, outros de farripas nos olhos, queixo a apontar ao peito e em todos aquela atitude, puríssima nonchalance – que é uma palavra linda que eu aprendi ao ler Jane Austen e sempre quis usar, nem que fosse assim à bruta. (O que é que é que mocinhas com vestidos império em tons pastel e ideais a condizer terão a ver com jeitosos de couro preto, é coisa que não calha agora aprofundar.)

Isolemos o front man do seu séquito e a conversa é toda outra. Aqui não precisamos de originalidade, há dois milénios que o conhecemos e sabemos que o queremos.

Ele imerge quase sempre de um chiaroescuro estudado, de um céu tempestuoso ou de um bosque profundo. A cabeça, solene, os ombros, nobres, os cabelos, invejáveis. Ele é a estrela, a luz do mundo. Spotlight. Corremos mãos imaginárias pelas melenas que imaginamos de seda. O olhar inexpressivo é intencional e magnético. Ele não sente nada, está só ali. Mas se sentisse, sofria. Passa a ser a nossa missão na Terra acarinhá-lo, fazê-lo sentir alguma coisa ou mesmo tudo, se nos deixar. É Cristo Pantocrator e podemos bem ser ateus até ao fanatismo que esta é uma evangelização a que nos faltam forças para escapar.

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Como se pensado por mim, tudo sobre o percursor desta raça de iluminados, aqui. E já agora, o boneco original, o mais antigo pantocrator que se conhece.

A escolha dos Cristos lá de cima não está perfeita, peço desculpa por isso, mas perdi parte da pesquisa e a minha vida não é ver fotos de gajos guedelhudos – daí o Mustaine, coitado, de quem nunca gostei muito. E se alguma vez pensei que por esta altura já não acharia piada a isto. Bem…

18 comments

  1. du

    olha lá (concordo com o que dizes, antes de mais, e já postei sobre esse assunto há 1 ano ou 2), acho que bem pior é aquela malta do indie pseudo-intelectual que faz sempre ar de doente.

    estes caramelos, parte deles pelo menos (vamos excluir o power metal – os gajos que apertam os “ditos” para cantar com voz fininha, em tronco nu e alugam motas – e putas – para os vídeos porque conduzem o SUV da mulher queque) têm mesmo uma vida meio sombria e vivem as coisas assim.

    os “doentes” do indie têm é a puta da mania, na maioria :\
    “ah e tal, eu sou tão diferente, tão freak” – e recentemente – “fui um geek na escola”…

    that’s bullshit. máscaras.

  2. VdeAlmeida

    Aqui há 2 anos poderia fazer parte do painel (pelo menos no que diz respeito ao comprimento de cabelo). Do resto nao aprecio. Gosto do meu banhinho todos os dias. E o Du tem razão: aqueles tipos a fazerem-se frágeis são bem piores :)

  3. Rachelet

    O Cristo é estrábico. Vá lá que pelo menos não lhes deu para imitar isso. Ah, e a partir de agora, nas minhas fotos «ah, põe-te aí em frente ao monumento para não dizer que só tiras fotos às casas e depois ninguém te vê» vou passar a fazer aquela coisa com os dedos, tipo sinal do escuteiro-mirim. Os dedinhos em sinal de paz muito cuchi-cuchi só funcionam bem com as nipónicas mesmo.

  4. trollofthenorth

    Peter Steele,Eddie Vedder,Chris Cornell, Mikael Akerfeldt, trollofthenorth, Kurt Cobain…Tudo gadelhas ou ex gadelhas com carisma.
    Tirando os defuntos, Paz às suas almas.
    Era a minha piada preferida para gozar quem me queria gozar por ter cabelo comprido. De referir que eu vivia rodeado de cristãos, a maior parte deles praticantes.

    Um Cristo gadelhas ajudou-me a vencer imensas discussões sobre o assunto.

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