Da desilusão

A minha tia-avó Maria Vitória, deslumbrada aldeã na cidade grande, entrou pela primeira vez no Terreiro do Paço e reclamou, desapontada: “Então este é que é o cavalo do D. José, todo bolorento?” Saí eu de Sousel para isto, era o que ela queria dizer. O meu tio-avô José Estevão, lisboeta honorário há mais tempo, analisou a pátina negra que cobria a obra de Machado de Castro e revirou os olhos. As coisas com que a irmã se preocupava.

De lá para cá, cavalo e cavaleiro já foram devidamente limpos e polidos, mas a história desta desilusão tornou-se famosa e corre pela família até hoje. Por causa dela, D. José é como se fosse também uma espécie de tio meu. Até herdei dele alguns dos seus traços de carácter: adoro brocados, tenho pavor de terramotos e ganho verdete com facilidade.

Acabou por ser o terramoto a levar-me desta vez à praça mais bonita da Europa, para continuarmos em pleno no tópico da desilusão. O novíssimo Lisbon Story Center estava a fazer um desconto comemorativo do fatídico Dia de Todos os Santos de 1755 e pedia muito que eu lhe desse uma vista de olhos. Não vou alongar-me aqui na crítica, basta dizer que houve coisas de que gostei muito e outras de que não gostei nada.
Em resumo: o circuito acompanhado por audioguia é irrepreensível e a dinâmica narrativa é curiosa, levezinha mas, acho eu, por vezes leviana. Nada ali é para ratos de biblioteca (me! me!) que querem os factos, as letrinhas miúdas das legendas, os nomes dos pintores dos quadros e a tipologia dos barcos. Grande parte do conteúdo, se eu não o soubesse já, não sairia de lá a sabê-lo. Eu sei que não é um museu, no sentido clássico da palavra, e passei um bom bocado a relembrar factos daquela forma, mas esperava mais interactividade, especialmente na sala do terramoto, o clímax da exposição.
O filme começa bem, bonitinho, boa luz, bom guarda-roupa, mas depois da catástrofe…. bem, é a catástrofe. Não era preciso pôr o chão a abanar nem atingir o público com traves de madeira, mas não se arranjava um 3D menos amador? O que era aquilo afinal? Não havia uma texturinha para se pôr nos pedregulhos? Falta ali muito verdete, é o que é, ou o seu equivalente em pedra. Qual experiência imersiva qual carapuça. Fiquei tão concentrada a pôr defeitos que nem soltei uma lagriminha com a visão dos corpos ensanguentados. E se eu gosto de me emocionar com coisas destas.

Atravessado o arco triunfal da Augusta, desilusão número dois: o MUDE. Nunca tinha calhado lá entrar e já sentia vergonha por essa falta. O que dizer? Desta vez não havia falta de musgos e texturas, o que até me pareceu muito engraçado, mas cadê a Moda e o Design, meus senhores? Era só aquilo, as cadeirinhas do Berardo e três vestidinhos de Barbie? Fiquei como a minha tia: “Então este é que é cavalo do D. José?”

Depois a exposição temporária do andar de cima fez-me ganhar o dia. Cenografia brasileira. Vale mais a pena que as cadeiras e os veludos do andar de baixo e até tem trabalhos dos Gémeos, de quem sou grande fã. E o ambiente colorido sul americano fez-me pensar que acabei por celebrar o Dia de Todos os Santos à moda tropical do Dia de Los Muertos.

 

13 comments

  1. O Sexo e a Idade

    Não conhecia a estória da sua tia-avó mas olhe que foi bem o que senti!
    Mas que grande desapontamento. Consegui mais emoção na Heineken Experience do que ali!
    O Mude já tinha desistido dele! Que vergonha o que ali tem estado!
    Pretende aquela coisa, sem sal, ser nossa montra!
    Como já faz tempo que lá não meto os cotos não conheço a exposição temporária, mas agora fiquei com vontade de ver.
    P.S- talvez leve os olhos vendados e só tire a venda no último piso!
    Obrigada por divulgar.

    • Alexandra

      O que vem a ser essa conversa da “sua tia-avó”, ó menina? Eu por acaso sou assim idosa para merecer um tratamento formal? Na margem sul somos alérgicos a “você”, ehehe. Bem, bem…

      Quanto aos olhos vendados, talvez não seja necessário e é perigoso! MAs vale dar uma corrida para as escadas e seguir a explosão de cor. Ofusca tudo o resto, nem é preciso vendas.

  2. Rachelet

    Isso do MUDE sei o que vem a ser, embora ainda não tenha lá posto os chispes – ficará para uma próxima visita à capital. Mas isso do Lisbon Story é que jamais ouvi falar. Que vem a ser?

  3. http://www./

    Caro Reformista,Mais uma achega para podermos avaliar melhor a ideia de condenação "in limine" do Partido A por ter rejeitado, de forma supostamente precipitada, uma diáfana plataforma de convergência cujo conteúdo niguém conhece: "PS e PSD subscrevem candidatura de Jaime Gama para a Presidência da AR".Não lhe parece este facto uma indicação – simples é certo, mas não obstante – de que não existe uma atitude preconceitual negativa?

Post a comment

You may use the following HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>