Elas não alisavam o cabelo

O pedaço amarelo e espigado caíu ao chão, sem um som, e lá ficou, triste trigo maduro em versão capilar, até que foi varrido para um canto. Está bom assim? Claro que não. 10 cm a menos já conta como mais uma cabeça do bicho conquistada. SOU TÃO CORAJOSA. 2013, o ano dos objectivos.
Os cortes de cabelo deprimem-me, já tinha dito? Não raras veres, de forma tão séria que me dá para a produção criativa. Tive um professor que dizia para nunca nos metermos no álcool, que nunca faríamos nada na vida, já nas drogas, vá, ainda podia ser que pintássemos uns quadros. Comigo são mais as idas ao cabeleireiro. Longe de serem um vício, estimulam-me a veia intelectual que é uma beleza. Enquanto tiver cabelo para cortar, tenho ocupação garantida. Uma vez levei umas tesouradas assimétricas tão valentes que escrevi um conto sobre uma miúda que fugia de casa num autocarro da Renex, de outra fiz madeixas ruivas e acabei a ilustrar a aguarela um soneto de Camões, aquele da Bárbara escrava.
Desta minha visita anual ao cabeleireiro do bairro, contudo, ficaram-me só duas descobertas muito prosaicas. Uma: o meu cabelo agora abana quando viro a cabeça. Duas: anda toda a gente a besuntar-se com um químico que cheira mal, faz chorar os olhos das cabeleireiras e, supostamente, mantém o cabelo liso por três meses.
Contaram-me isto quando, durante a tosquia de que fui alvo, inquiri o que estavam a fazer às minhas vizinhas da esquerda e da direita. Alisamento não sei quê? Ahhhh… e para que serve? Para ter o cabelo sempre penteadinho, direitinho, lambidinho. Ahhh… e fazem isso de livre vontade?
Já se fizeram muitas atrocidades aos cabelos femininos ao longo da história, mas nenhuma tão pouco imaginativa e aborrecida como estes alisamentos temporários que se fazem agora. Caramba, até passar a ferro carapinhas nos sixties me parece mais divertido. O cabelo podia ficar todo queimado, que ficava, mas na lavagem seguinte estava outra vez despenteado. E ninguém estava assim tão sóbrio para se ralar com o cheiro a esturro.
Eu acho que não há nada como uma melena despenteada e, se fosse homem, era só assim que as apreciava. A impreditibilidade de um caracol é ou não o supra-sumo da sensualidade feminina? Rebelde, selvagem, capaz de tudo. Afinal, era também assim que preferiam os ilustres homens* que pintaram as senhoras dos quadros abaixo (não sei se recorrendo a drogas, teremos de confirmar isso com meu professor…).

* E senhora que se auto-retratou, no caso da querida Frida.
20 comments
  1. Nem mais! Eu sou a favor da criatividade capilar ou não mudasse eu de corte cada vez que vou tratar da juba (no meu caso o problema é volume). A senhora do cabeleireiro (também de bairro mas com umas mãos de artista) assim que me vê chegar, em vez da literatura de coscuvilhice indica-me as novas revistas de cortes de cabelo. Desconfio que a minha juba sirva para ela praticar cortes pouco habituais, mas se há coisa que volta sempre a crescer é o cabelo. O que me chateia mesmo é a monotonia de usar sempre o mesmo corte. Alisamento? Nem pensar! Boring…

    1. Eu só fui criativa umas 3 vezes, esta é uma delas… E dói! :)

  2. O meu cabelo com alisamento e seco ao natural é igual ao das senhoras dos quadros. Acredita, tu não querias acordar ao meu lado quando não fazia alisamento. O meu cabelo é tão grosso que pica!

    1. Nem quero ouvir falar dessas coisas… o meu é tão fininho, tão fininho…
      E realmente não sei mesmo se queria acordar ao teu lado, com ou sem alisamento. Que confianças são essas? ;P

  3. “Tive um professor que dizia para nunca nos metermos no álcool, que nunca faríamos nada na vida, já nas drogas, vá, ainda podia ser que pintássemos uns quadros.”
    Esse professor nunca ouviu Jorge Palma, então…

    1. Ahaha, Já foi há uns anos, mas já havia Jorge Palma, não sou assim tão velha. O senhor devia andar distraído.

  4. Devo confessar que o look lambido pela vaca nao me agrada nem um bocadinho. Eu ate gosto de esticar a minha grande trunfa, mas de forma classica, com escova e secador! e feito por mim, para ficar liso mas ainda ter algum volume, porque se venho da cabeleireira vou logo lavar a cabeça seguir. Es como eu, tens uma ida anual ao cabeleireiro… somos poucas. Em tempos ate pensei que era a unica mulher que preferia ir ao dentista que ao cabeleireiro :) Mas gosto de domar o bicho em casa, com as minhas habeis maozinhas :P

    desculpa a falta de acentos, virus :S

    1. Eu não tenho jeito nenhum, nem tento. E faz doer os braços! Hás-de ir lá casa dar-me umas dicas.

  5. Não percebo as mulheres. As que têm cabelo encaracolado querem tê-lo liso, as que têm liso querem encaracolado, as ruivas não querem ser ruivas e as morenas não querem ser morenas, já as loiras não sabem o que querem (piada clichê, fácil, mas tinha de ser feita).
    Eu, como apreciador da raça, gosto muito mais de uma mulher com o cabelo encaracolado, frisado/curly, rebelde, do que uma com o cabelo caído desde o alto da cabeça ate onde bem lhe apeteça.

    1. É por isso que eu gosto de ti! E, claro, nunca estamos contente, o que é querias?

  6. Nunca tinha olhado para os meus caracóis deste modo, mas a partir de amanhã olharei com mais prazer o espelho. :-P

    1. É para isso que aqui estamos! ;)

  7. Odeio cabeleireiros, vou lá no máximo 1 vez por ano e nem sequer uso secador, nem no Inverno. A minha mãe passou a minha infância a dizer-me para eu me pentear, devo ter recalcado a coisa, não sei, por isso é que agora ando sempre despenteada.

    1. Join the club. Mas o teu é bem mais giro que o meu. Aliás, tu viste… Só que agora cortei bués. Alguém tinha de lavar a nossa honra, já que tu te esquivaste ao corte de outono…

      1. Estou em negação capilar, não corto, não pinto, não aliso, não quero saber. Lavo, penteio quando e está molhado e pronto. Quero ver até onde é que vai chegar. Às vezes na cama já se enrola ao pescoço e sufoca-me um bocadinho quando me viro (isto não soou nada bem).

        1. Eu estou só um bocadinho mais maricas, ponho-lhe uma viscosidade qualquer para as pontas não secarem…

  8. Adoro a parte do Klimt e do Egon Schielle.

    1. O Egon é o meu homem! O Klim já me passou um bocado.

  9. Pois o meu é “alisado” de origem e de vez em quando não me importaria de trocar essa monotonia por umas ondas rebeldes.
    Quanto a cabeleireiros, de 2 em 2 mese estou lá caída.

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