Encontros fugazes

Há outras pessoas no mesmo comboio que eu. Na mesma carruagem até. Não gosto que se sentem ao meu lado, mas mesmo com metade da carruagem vazia, às vezes é mais forte que elas e lá vêm obrigar-me a descruzar a perna e a sentar-me direita.
Alguns já os conheço. O Ralph (pronunciar “Reife”), deixa-me curiosa com o seu cachecol de xadrês e um ar tão distinto como o paciente inglês. Os olhos muito verdes, o cabelo a rarear. Incomum idade e status para o meu comboio. A Lara Croft admiro, com a sua trança comprida, comprida, sempre a pingar do duche matinal. Nem um pingo de maquilhagem na pele fresquinha, nenhum traço do acordar. Lê o jornal. Escondo-me do Zé, o maluquinho de serviço, com as suas piadas sem piada, e um agradecimento efusivo a cada moeda que lhe passam envergonhadamente para as mãos encardidas. Irene, Joaquim, Francisco, Maria.

Não gosto que se sentem ao meu lado, mas gosto que estejam ali. Se vou no comboio seguinte, parece que me enganei no percurso e que o rio não é o mesmo e as estações têm outros nomes. Fico contente quando os volto a ver após uns dias de desencontros e confirmo, num rápido relance, que sabem jogar este jogo tão bem como eu: Alexandra, grande e séria. Senta-se de lado, livro sempre aberto, cabeça nas nuvens. Às vezes fecha os olhos, mas nunca dorme.

(Mestre em representações destes encontros fugazes é a Sophie Blackhall, a quem pedi emprestada estas duas imagens.)

 

10 comments
  1. É muito bom (e ao mesmo tempo estranho) quando começas a conhecer as pessoas que vão contigo para o traballho. No meu comboio há um tipo que costuma contar anedotas antes de pedir dinheiro. A mim calha-me sempre esta: “Menina, menina, chispe é com X ou CH?”. Eu ponho aquele ar de deslarga-me e ouço a resposta adivinhada: “Na minha terra é com feijão branco”….
    Já eu, devo ser a tipa dos phones azuis que nunca se senta.

  2. Shit… vais no mesmo comboio que eu. Esse é o meu Zé. A mim calha-me uma qualquer da “mulher do pato ou da pata” que não me lembro como acaba. Phones azuis. Got it.

  3. Se calhar até já têm alcunha uma para a outra e não fazem ideia. :)

  4. Mau, mas tu apanhas o comboio onde?

    1. Naquele sítio lindo que eu achava que se chamava “Caixudré” quando era pequena.Também achava que o vizinho desse era o “Terreidopaço”.

  5. Bom, bom, bom, eu também. De certeza que já nos cruzámos algures.

    1. Ui! Too much info! Ainda só tivemos 3 ou 4 “dates”… :P

  6. Porra de cidade que é um ovo, damn.

  7. Eu sei que as rotinas são cómodas – principalmente para preguiçosos militantes como eu – mas por vezes variar pode ser interessante. Já viste o que era conheceres outros Reifes ou Laras Croft ligeiramente diferentes? Ou deparares, por exemplo como uma Joana d’Arc? Era fixe, não era?
    Já agora, até às mulheres ficam bem os brogues, especialmente os longwings

    Vic
    (aruainclinada.blogspot.com)

    1. Bem vindo, Vic. Adorava viajar de comboio com a Joana d’Arc. Sabes qual é a linha dela? ;P
      Obrigado pela dica dos longwings, o google acabou de me informar que tive uns vermelhos quando era teenager. Ainda os terei?? Hummm…
      Gosto da tua rua, by the way, bela vista.

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