Estuve en Torremolinos y me he acordado de ti

A primeira vez que saí do país foi para ir já aqui ao lado. Era assim que se fazia nos anos oitenta. A viagem de sonho da Mariana do “Chocolate à Chuva”. Não calhou ser Badajoz, como era da praxe, mas não passámos muito ao largo da mágica terra dos caramelos.
Os meus pais, o meu irmão e a minha avó e eu, todos sentadinhos nos lugares em frente à porta traseira do autocarro de excursão que partiu do Areeiro, era a madrugada ainda escura. Levávamos: um saco de farnel enfiado na prateleira por cima das nossas cabeças (sandes de queijo, que o fiambre azeda); A máquina Kodak carregada com um rolo de 36; Um almanaque do Tio Patinhas para irmos partilhando quando não nos dava o sono; Muito sono.
O destino final era Torremolinos, andaluza localidade tornada mais longínqua que o necessário pela repetição estridente do “Pó de Arroz” ao microfone, cortesia das colegas de trabalho da minha mãe. Depois havia sorteios, anedotas, crianças a correr pela coxia fora, cheiro a cascas de banana. E colinas a subir e a descer. Paragens para tomar ar. Não vomitar.
Nada foi especialmente bom nessa viagem. Desde a primeira paragem em solo internacional, que se queria solene e triunfante e afinal foi num parque de estacionamento cheio de papel higiénico borrado, à banhoca na piscina do Hotel Siroco, onde o meu pai tentou afogar-nos aos dois, passando pela miserável noite que passei a vomitar cloro, enquanto toda a gente ía às sevilhanas. De resto, a comida era má, a areia da praia era preta, enjoei no barco para Ceuta, a voz da guia era irritante, os meus pais zangaram-se quinze vezes e o meu irmão não se calava porque tinha uma camisola que dizia “2+2=5, I’m a genius” e achava mesmo que era.
Com tanto horror, admiro-me hoje que tenha sido depois desta experiência espanhola que eu tenha feito de viajar o meu grande objectivo de vida. Dá-se esta coisa engraçadíssima com as memórias das viagens – são só as boas que nos ficam. As más, somem-se. Eu comprei castanholas, pisei o continente africano, estive num hotel com elevador, bebi sumo ao pequeno almoço e ensinei o meu pai a nadar. Ou quase.
Quanto ao objectivo, nada de muito extravagante, claro, só duas ou três viagens por ano. Coisa realista. E por cada ano que não consigo cumpri-lo, lá morre mais uma má memória. E fico danada a rosnar o meu mantra:
Viajar é que é bom, viajar é que é bom, viajar é que é bom.

 

23 comments

  1. Vic

    É mesmo bom. Nem que se tenha que forçar um bocado, faz um bem do caraças pisar a manga e entrar no avião – apesar do medo dos possíveis terroristas companheiros de viagem – sentar e respirar fundo, ganhar um palmo de altura. É o que me acontece sempre. Se possível, duas ou três vezes por ano.
    Muito bom :)

  2. ml

    pisar a manga, diz o Vic…
    vê-se mesmo que não andas na ryanair – aí é esperar na escada à chuva que o pessoal entre no avião

    (ainda assim thank god pelos low cost, que já me permitiram ir a tanto sítio ;))

  3. Xuxi

    viajar é quase o que levaremos de melhor da nossa paragem por aqui neste planeta…viajare torna-nos sempre melhores e nunca partimos igual ao que chegámos
    já te disse que estou a tua espera aqui? (esse mealheiro vai indo?)

    • Alexandra

      eheheh… ainda não. Não tenho amigos “amigos” por aqui. Isto é suposto ser secreto e para a bandalheira. Eu lá confesso aos meus amigos “amigos” que já fui a Torremolinos! ;)

    • Keep Calm and Ad On

      Não sou amiga, mas sou fã, já é um começo!

      E as amizades tem de começar por algum lado.

      E pelos visto temos pelo menos uma coisa em comum (NYC), uns moram lá, outros planeiam ir, e outros voltar a visitar ;)

      Vá pensem lá melhor no assunto, ainda é uma longa viagem, companhia vem sempre a calhar :P

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