Eu, a Bruxa Má do Oeste


Tinha quase catorze anos quando a minha mãe me ofereceu a última Barbie pelo Natal. Um pouco tarde, pelos padrões da altura, uma obscenidade sem nome, pelos de agora. Não havia facebook nem sms, o que é que querem? Pior que isso, se considerarmos que confeccionar-lhe vestidos a partir de collants velhas e moldar-lhe as melenas em pirâmides barrocas é ainda brincar, então brinquei com essa Barbie até perto dos quinze. Como diz um amigo, eu não saía muito de casa. A verdade é que não precisava: a minha vizinha de patamar brincava comigo, mesmo sendo um ano mais velha. Dias inteirinhos nas férias grandes a vestir, a despir, a calçar, a descalçar, a casar e a descasar. Da união entre o Ken Cintilante dela e a minha Barbie Hawai, nasceram até dois gordos Barriguitas gémeos, impossíveis de habitar alguma vez na cinturinha milimétrica da mãe. Dias felizes para aquelas Barbies, que tinham sempre desassete anos (mais que isso era inconcebível para nós), eram todas arquitectas ou designers de moda, e tinham imenso sucesso.

Eu e a minha vizinha partilhávamos o guarda-roupa e acessórios das bonecas, mas, por muito que eu pudesse dispor livremente do vestido prateado da Barbie Augustus dela, a verdade é que lho cobiçava. Isso é os sapatos encarnados que vinham com o smoking feminino que a tia lhe tinha dado no aniversário. Os poucos vestidos das minhas Barbies, tinham vindo todos com sapatos cor-de-rosa. No início dos anos 90 não havia pessoas com sapatos cor-de-rosa na rua. Aquilo, para mim, eram sapatos de boneca, sem tirar nem pôr. Sempre que podia, lá calçava os sapatinhos encarnados dela nas minhas bonecas.

Há uma magia especial que envolve os sapatos das Barbies. Não sei se é o tamanho minúsculo, o facto de lhes entrarem tão bem nos pézinhos arqueados, o sempre presente risco de se perderem na carpete, desaparecendo após a inclemente passagem do aspirador. E depois, são tão bonitos, tão elegantes, tão preciosos. Há ali qualquer coisa de místico, tenho a certeza. E em encarnado, torna-se uma coisa decididamente religiosa.
Foi esse êxtase místico que baixou sobre mim quando enfiei as patorras ontem nos meus primeiros sapatinhos de Barbie, milagrosamente encarnados. Tão diferentes de uns all star e no entanto, tão familiares. Caso para dizer:
“Toto, there’s no place like home!”

Agora a ver se não me fazem bolhas, que não tenho pele de plástico…

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Jen Mundy na primeira imagem.

19 comments
  1. O c#$%&#6ão do He-Man não tinha sapatos de enfiar, deve ser por isso que ando demasiadas vezes descalço…

    1. Não, o He-Man usava uma espécie de HUGG, ou lá que raio. Era um tipo com sentido estético apurado, se esquecermos o corte de cabelo.

  2. boa sorte!
    eu sou doida por sapatos, mas tudo me magoa :/

    1. Eu uso sapatos curtos/apertados/número abaixo desde que me conheço por isso a minha tolerância à dor é grande. Vamos ver. Estes pareciam promissores e não são altos. Depois conto.

  3. Eu passava dias e dias a mudar os adereços bélicos dos meus GI Joe. Em vez de sapatos e vestidos tinha a árdua tarefa de decidir entre uma Colt ou uma Magnum, entre uma Uzi ou uma MG42.
    Nunca hei-de perceber muito bem as diferenças entre tacões com ou sem, mas respeito. Mas sapatos vermelhos é outra coisa. Sim de onde venho diz-se vermelho e não encarnado. -_-

    1. Vermelho, encarnado, 100 magenta + 100 yellow… como quiseres. Saiu-me assim, mas não sou fundamentalista nesta coisa das palavras que se devem dizer assim e não assado. GI Joes não conheço, mas o meu irmão tinha um tropa muito pálido e atarracado que às vezes levava a minha Barbie ao cinema.

  4. A imagem Alexandra. A imagem. God damn it………

    1. A imagem?! Que tem a imagem?

  5. Nada nada…. foi só algo que me pareceu……;)

    1. ok… pensei que te estavas a queixar do tamanho dela, pode ser chato em Ipads e bichos desses – esqueci-me de reduzi-la.
      (É curioso, descobri o teu blog ontem. Seguiste-me quando me vim embora, foi?)

      1. Não senhora. Stalkerismo não é a minha onda… ;)

      2. Ahhhhh……..e não, o tamanho da imagem não tem problema algum. Os sapatos de salto alto e a pouca roupa é que me trás memórias do demónio…. ;)

        1. Antes isso, antes isso. :P

          1. Não sei se….diz que o Papa já não vai para novo e eu até gostaria de concorrer ao lugar quando ele se fosse. O papamobil fascina-me, que posso fazer?? Ok, ok, tenho alguns handicaps. Não acredito em entidades superiores, não acho boa ideia fazer acreditar a criancinhas que a redenção dos pecados deles passa por darem beijinhos da pilinha do Sr. Padre e não acho grande piada às hóstias colarem-se no céu da boca. Mas a esperança é a ultima a morrer, não é mesmo? ;)

          2. A mim por acaso fascinam-me os papas. Já vi dois, mas a única coisa que ganhei com isso foi chegar à fala (e à parte dos revistanços) com dois guardas suiços muito jeitosos. O fascinío manteve-se, apesar de tudo.
            E estava escrito: Virá o dia em que o teu blog aparecerá nas buscas por “beijinhos na pilinha do Sr Padre”. Eu é que não quis crer.

  6. Parece que me estou a ver a brincar com Barbies, tal e qual com os mesmos dilemas que tu. Vizinha com quem partilhava vestidos feitos de collants e tudo. Só já não aos 15 anos… :)

    1. Eu disse até perto dos 15… eheheh! Aos 15 comecei a brincar com outro tipo de boneca – uma irmã-chorona.:)

  7. Eu também já vi dois papas. Mas donde os vi não precisei ser revistado. ;)

    1. Ah pois, mas é que eu sou míope. :P

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