Fusão rima com Inquisição

(aos meus amigos preocupados com os meus silêncios longos súbitos, ausência de comentários e desespero em geral)

Antes era assim:
Alexandra escrevia (quase) sempre em horário laboral. Que grande lata a daquela gaja. Tanta gente desempregada no país, tanto estagiário pago em vales refeição e ela, no conforto da sua cadeira giratória, na segurança do seu rame-rame diário, a alimentar pela calada a fera: o blog dos seus olhinhos. O trabalho verdadeiramente criativo.
Prejudicava ela com isto os projectos milionários, vencedores de prémios, insuportavelmente prestigiantes do seu empregador? Tanto como o faziam os seus colegas em constantes sms, pausas para o cancro do pulmão ou likes nos sítios onde se dão likes.
A descoberta de Alexandra: observar a progressão da barrinha de saving de um ficheiro com 200 megas leva quase o mesmo tempo que rascunhar três frases, que serão vinte e depois quarenta nos saves seguintes. Tempo perdido transforma-se em tempo recuperado.
A vida era bela e o espaço vazio do lado esquerdo de Alexandra também. (O Belo-vazio é bem mais valioso que o seu superestimado primo o Belo-Horrível, sempre achou ela). Do lado direito só uma janela e as janelas, é bem sabido, não lêem textos alheios por cima do ombro.

Com o Verão veio a fusão (as empresas agora fundem-se tanto, é uma maçada).
Duas empresas fundiram-se e Alexandra fodeu-se, para pôr o caso na língua de Bocage.
Do seu lado esquerdo, o vazio, o antes respirável, plantou-se um novo colega. Antes fosse um frade Dominicano. Mal se digita uma frase, uma ideia para desenvolver mais tarde, um comentário num blog amigo, lá vêm o olhar inquisidor. Aquele espreitar manhoso, lúbrico de curiosidadezinha. O que estará ela a fazer tão satisfeita? Que imagem é essa? Mostra lá!
O dia fica tão cinzento sem aquele header amarelo.

Hipóteses a estudar:
– Um: Nova rotina de escrita significa menos séries à noite. Assim como assim o Dexter e o Breaking Bad já se foram. Nota: elaborar um calendário.
– Dois: Acaba-se com esta coisa do blog. Assim como assim sempre soubemos que isto da preguiça ía bater um dia. (Este rapaz chora três dias e nunca mais põe os pés na Margem Sul com o desgosto)
-Três: Muda-se de emprego? Assim como assim…
– Quatro: Alguém se lembra como é o Walter fez aquilo da Ricina? Tenho acesso à lancheira do meu colega e temos aqui uma cave mesmo boa para preparar poções mágicas.
– Cinco: Não sei. Mas não podia deixar ficar um número par, sou supersticiosa.

33 comments
  1. Eu cá oferecia-lhe uma peça de fruta (uma maçã vermelhinha) com laxante (que eu mesma injectaria na pecinha de fruta) e escrevia nos intervalos em que o moço fosse de visita ao WC!
    (o numero 2 das hipóteses acima está fora de questão sim?

    1. Excelente ideia essa de ganhar tempo à custa da tripa do rapaz! De facto não preciso de afastá-lo tão definitivamente. Só vejo um contra: a porta da casinha é mesmo atrás de mim… tenho algum receio dos efeitos sonoros. ME-DO! :)

  2. Eu estudava a hipótese um :)

    1. se te disser que ando a estudá-la há mais de um mês sem efeitos prácticos… eu sou uma estudante muito meticulosa.

  3. Quando souberes a cura avisa-me sff.
    Os portugueses são os melhores médicos/farmacêuticos uns dos outros.

    1. Havia de haver uma infusão para isto. Hipericão do Gerês, talvez? Nada dessas modernices de chás brancos e verdes e às bolas…

  4. 6 – Escreve enquanto vens no barco e transportes públicos afins.
    E como tem que ser ímpar:
    7 – Descobre um “podre” qualquer ao colega e usa a informação a teu favor. Conhecer é poder.
    Mas nunca, nunca, nunca acabar com o blog!! :)

    1. Infelizmente o barco é para ler… quando ao 7, que maquiavélica, Maria! :)

  5. Que fique claro que este rapaz passaria a vida na Margem-Sul, com uma fotografia do header amarelo nas mãos e a perguntar a toda a gente se por acaso sabiam quem era a Alexandra que escrevia coisas Grandes. No triângulo dos centros comerciais (miratejo, laranja, rouxinol) alguém há-de saber quem tu és. Quando tivesse que trabalhar ou regressar à margem onde agora durmo, o meu “people” ficaria com o trabalho de investigação. São um bocado mais duros mas muito, muito eficientes.

    Com isto, fica claro que não queres desaparecer do mapa. Será chato que a tua família saiba que o banho de sangue que fez girar o moinho de maré, foi causado pela busca desenfreada da sua Alexandra. Acredita em mim.

    Assim restam-nos as outras opções. Todas válidas.
    No entanto, apostaria na ricina. Não me lembro bem mas sei que era com algo derivado de feijões… Para não corrermos riscos, colemos alguns feijões na ponta de uma soqueira e outros na ponta de um bastão. Chamemos a estas instalações artísticas, ricina.

    O resto fica a cargo de uns artistas que eu conheço e que adoram passar recados convincentes. Só tens que me dizer onde se deu a fusão e a que horas sai “a rapaziada”.

    Depois, é escrever descansada.
    Estamos conversados!?

    1. Estou sem fala, pá. Estamos mais que conversados. Até tenho a garganta seca. Estou a atrever-me a responder-te do trabalho e tudo, com o tipo a olhar para mim de lado, só para não te deixar em suspenso. Pode ser que ele consiga ler e acabe aterrorizado. Uma pessoa quando tem homies tem tudo. E, claro, para quê ver mais séries? A imagem do Moinho de Maré banhado e sangue vai sustentar a minha fome de ficção violenta na próxima década. Estou comovida.

      Ah, e a instalação artística aniquilou-me. Respect absoluto, Factos. Quando quiseres escrever um argumento para uma curta, ou assim, diz qualquer coisa.

      Agora, um aviso: poucos passeios para o lado do Rouxinol. Anda por lá o meu pai, que é maior que eu e tem uma perigosissíma cadela com 100 anos.

      1. Fico feliz por teres percebido o meu recado. Digo estas coisas mas, na verdade, prefiro sempre quando tudo se resolve antes da carnificina. É óptimo quando o cheiro do medo, aquele que nos invade as narinas uns segundos antes do massacre, chega para resolver a questão.

        Agora temos que passar ao capítulo do “Rapazinho Curioso”.
        Mantenho tudo o que disse mas já não vou pedir a nenhum homie para tratar disso. Agora quero que seja a Leididi a fazer a espera.

        Imagino o ar dele quando vir tão delicada senhora, de soqueira e bastão com feijões, gritar: “Ó estúpido! Sim tu! Anda cá caralho… tou a falar contigo!”.

        Priceless.

        1. O pior é que consigo mesmo vê-la…

  6. Então e por o computador lado esquerdo da secretária, mesmo no canto, virando-o para ti? Compras também ma almofadinha de rato ergonómica e dizes que estás a tentar corrigir a tua postura. Depois liras-te da almofadinha, que isso é horrível.

  7. E fazeres-lhe o mesmo de 10 em 10 minutos? e olhares para ele com repudio de todas as vezes que ele vier da WC.
    Depois há sempre aquela do “não te cheira um cheiro esquisito?” de todas as vezes que ele olhar para ti.

  8. Nem penses em acabar com o blog. Arranja umas palas para o computador que eu que há e diz que é do filtro pq sofres da vista e faz os posts à vontade. E se ele olhar olhas para ele nos olhos com ar interrogativo “tás a olhar para onde,caralho?” até ele perceber.

    1. Benzam-te todos os santinhos, mulher, tu achas que eu sou tão mais badass do que na verdade sou… Lá porque escrevi foda-se não quer dizer que consiga dizer caralho em voz alta! Foi para colmatar essa grande falha de carácter que arranjei um homem do Porto!

  9. Passa a escrever os textos no Excel nas horas de expediente.
    Depois à noite é fazer copy/paste para o blog.

    Acredita, se alguém te vir a mexer no Excel foge a sete pés e nem quer saber o que estás ali a fazer.

    1. AHAHA, no meu caso vinham ver era se me tinha passado da cabeça! Ainda se fosse no Photoshop!
      Mas olha que costumo escrever no e-mail… eu mando muitas mensagens a clientes… muitas!

      1. Olha que dá para publicar directamente por email (ou pelo menos antigamente dava,já não uso isso há que tempos). Vê nos settings. :D

  10. Ok, já falei com Jurandir e Raimundo, dois prestadores de serviços na área de exterminação e peço-te apenas que vás de galochas na próxima quarta feira, mas atenção – o piso é capaz de estar escorregadio.

    Caso te pareça uma solução demasiado simplista, entre o uso do Word e do corpo de email para congeminar textos, aplicando apenas copy-paste para o Blogger (coisa que se faz em dois minutos) e o agendamento de posts, creio que está garantida a subsistência de doses de prosa para a malta.
    Não me obrigues a dar trabalho a dobrar a Jurandir e Raimundo…

  11. Mude de Perfume

    1. não uso nenhum… se calhar é o meu cheiro selvagem, ehehe.

  12. Vejo que o rapazinho continua por aí.
    Larguemos os cães…

  13. Fusão? Em Lisboa? Hmm… Grande empresa?

  14. deves ser maior do que ele. serve-te disso :P

    1. ahaha, garantidamente. Mas toda a gente sabe que não faço mal a uma mosca…

  15. Escreves uns textos altamente pornográficos, hard core de fazer corar um carroceiro, dizes que é para online dating e utilizas o mesmo como capa/fachada para a verdadeira escrita. Mas olha que tem que ser coisa de por os cabelos em pé( e não só), para o piqueno ter ganas de frequentar os WCs mais do que uma dúzia de vezes por dia, e babar-se por todos os lados com o conhecimento do teu “alter-ego”… Só paras quando o tipo tiver as palmas em ferida e tiver que meter baixa.

    1. Jesus Maria José! ahahaha!

  16. Táctica 1:
    Silêncio e cara séria. 15 segundos de olhar sério e focado dão cabo da paciência de qualquer um.
    Táctica 2:
    Cmd+T. Abre uma tab nova em 1/5 de segundo. O cabrão vai cansar-se de ver-te sempre na página default do browser ( eu escolhia a pagina da empresa )-
    Táctica 3:
    Cria posts em emails. O titulo é o subject, o body é o texto.

    Ass. Gajo que passou anos nisso

    1. :) Posts em e-mails é a minha táctica! Infelizmente não resolve o corta-inspiração que é sentir-me observada.

  17. O teu colega deve ser seguidor do teu blogue… e ainda não ganhou coragem para se apresentar como fã! Ainda nem acredita que a Alexandra, a Grande está mesmo ali ao lado! :-)

    1. Livra, Bruxa Mimi, estou a bater na madeira!!! :P

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