Longevas e tresloucadas

 

Sabes quem são? As mulheres da família Alexandrovitch. Nadas e criadas nas planuras das estepes sul-alentejanas, são rijas como chão de Agosto e loucas como a lebre de Março. Os homens, na sua pressa em esticar pernis, bater botas e caçoletas, não pertencem, evidentemente, à primeira classe, nem dão tempo à mioleira para amolecer e candidatar-se à segunda. Uma pena.

A loucura, sabes quem é? É uma criatura maldita que nunca olhamos nos olhos, com medo que nos crave os dentes e nos infecte. À distância, na ficção, adoramos a bichinha. Prestamos-lhe homenagem de duas maneiras: ora a rir, ora a chorar. (Era aqui que passávamos o slide com as máscaras do teatro grego, que os gregos sabiam tudo.) Não há como um bom maluquinho para enriquecer uma narrativa, melhorar o pathos, acelerar a catarse, essas coisas. Adoramos a loucura-cómica que não toma banho, ri o tempo todo, arrepela os cabelos e dá em vagabunda ou palhaça. Gostamos mais ainda da loucura-trágica, muito muda ou muito histérica, que acaba afogada, enforcada ou coisa pior. Até com a loucura-fingida somos tolerantes. Coitada, é deixá-la andar.

É da loucura-real que não gostamos nada. Sabes quem é? Chega aqui às estepes pelos oitenta e picos. Se fores mulher e da família. A loucura-poética transformada em vulgar senilidade. Como se Shakespeare fosse convidado para as “Tardes da Júlia”. Não sabemos o que fazer, especialmente quando a criatura que se senta à mesa connosco é mãe de mãe, duas vezes mãe, e nos demonstra o significado real de palavras como demência e alzheimer, enquanto cospe a sopa toda.

Na boa tradição das mulheres da família Alexandrovitch, também darei um dia belo material narrativo. E muito que fazer às máquinas de lavar roupa. Não peço mais que isto. Dêem-me papinhas à boca, não me importo; ponham-me fraldas, quero cá saber; mas, por favor, não estejam sempre a perguntar-me: Sabes quem eu sou?

Não vou querer saber. E não vou querer saber que não sei quem são. Não quero que lhe/me perguntem: Sabes quem eu sou? Não sabe o meu nome? Paciência, eu sei o dela. Sabes quem eu sou? Não respondas. Eu também, quando lá chegar, não digo nada. Ou então digo: Ninguém! Mas tenho de ensaiar. É a resposta mais difícil do teatro português.

“Romeiro, Romeiro, quem és tu?

E não era nada disto que eu ía escrever hoje.

 

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Um artistas das estepes, genial e não sei se louco, mas certamente a caminho disso:  Ivan Bilibin

 

 

 

13 comments
  1. Now, that’s a great post.
    Puseste em palavras o que eu muitas vezes pensei já. E a areia da ampulheta, implacável, cada vez mais me lembra que o meu tempo chegará. Melhor ou pior, mas os genes são uma coisa lixada, e os meus não são lá grande coisa em vários aspectos (ainda amanhã vou saber algo de uma parte deles, e hoje estou mesmo num daqueles dias)

    E agora, a frase vulgar e dispicienda, Gostei muito:)

    1. Obrigado, Vic. Foi o post mais difícil que escrevi, ando há dias a apagar parágrafos inteiros, a arrepender-me e a hesitar. Não estou muito satisfeita com ele, mas como nada disto é coisa que satisfaça alguém, deixei-o sair assim mesmo.
      E vais ver que os teus genes se vão portar bem. Estou a torcer por eles (não a torcê-los a eles, que isso deve ser doloroso – ;))

  2. Magnífico post, espero que daqui a muitooooooos anos quando continuares com este blog possas dizer que não herdaste os genes da doença.

    1. Se lá chegar, já não será mau. E gostava de ainda ser capaz escrever nessa altura.

  3. É só o meu maior receio, por isso nunca falarei disso num post meu. Gabo-te a coragem. Os genes da minha família são maus. Por cá, morre-se quando ainda são apenas mais ou menos velhos, whatever that means.

    Mas alzheimer deve ser duplamente mau. Força, Tovarich!! :)

    1. Será que vodka ao pequeno almoço resulta?

  4. Será das estepes do sul? :)

    1. Não creio, que isto é tudo malta que migrou muito cedo para a taiga estremenha.

  5. Leio blogs há anos e anos, é raríssimo mas raríssimo comentar, mas deixa-me dizer, Alexandra… Desde que leio o teu apetece-me comentar todos os dias. Tu e o trollofthenorth têm sido uma lufada de ar fresco na blogosfera (e porque é q estou a falar dos dois no teu post? Não sei, como ambos ambos têm o mesmo efeito em mim [vontade de comentar, leia-se] penso sempre em vocês como um par, desculpem o abuso!!!).
    Excelente post, believe it.

    1. Olha, eu era “tu” antes de Janeiro. Depois fartei-me de não poder comentar em todo o lado e fiz-me aos blogs, para ter uma identidade blogosférica. E agora não tempo para comentar em todo o lado, nem de ler, às vezes. Volta quando quiseres, gostei muito do teu comentário e não vejo nada contra emparelhares-me com o rapaz – blogosfericamente falando, claro.;) Também lhe acho muita piada.

  6. Assustadoramente real e muito, muito bom!

    1. :)
      Obrigada, Paula, antes não fosse.

  7. Que post maravilhoso…
    Conheço esse bicho à espreita…

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