Misha, o culpado

Gosto dos Jogos Olímpicos desde sempre. Vejo tudo o que posso, menos as modalidades em que não está a acontecer grande coisa, como tirinhos e afins. Sei que é um gosto que tem mais a ver com o peso da história e a simbologia da competição saudável entre nações, do que com desporto. Também suspeito que a culpa é em grande parte dos atletas em roupas diminutas e, claro, do ursinho Misha. Se o caso dos primeiros carece de explicação, este último faz-se acompanhar de uma historiazinha em tons de sépia e musiquinha de filme antigo:
Quando eu tinha 2 anos e picos a minha mãe ofereceu-me um broche (riam-se, riam-se mas em 1980 as pessoas usavam broches), com a forma da mascote dos J.O. de Moscovo, apenas fofo q.b, com alguma da dureza e do mistério do leste da Europa. Preguei-o com orgulho no casaco de fazenda castanho, que na altura ninguém vestia as crianças de cor-de-rosa hello kitty, e usei-o nesse Invernos e nos seguintes. Ainda o tenho lá para casa, prateado e sorridente, de nariz empinado e cinturão de argolas olímpicas. Um pedacinho da história do mundo, um pedação da minha história.

Frio de rachar no recreio e ursinho Misha, saltar poças de águas com o meu irmão e ursinho Misha, pisar tapetes de folhas e ursinho Misha, Natal e ursinho Misha, mimos de mãe e ursinho Misha…
Não cresci fã de acessórios, mas fiquei a gostar muito de ursos de todas as espécies. E de jogos Olímpicos.

Lembro-me disto agora porque ontem reparei nas esquisitas mascotes Olímpicas de Londres a contorcerem-se de forma mais esquisita para cima de um atleta. Dei-me conta que ainda não tinha dado por semelhantes criaturas. Não sou conservadora, acho muito bem que se façam experiências com conceitos, formas e cores, não precisamos de ter sempre mascotes animais, mas… o que vem a ser aquilo? Ciclopes mutantes? Ah… parece que são gotas de aço derretido!

 

Depois de uma cerimónia de abertura discutível (eu cá gostei), de um muito discutido logotipo (habituei-me a ele), temos as discutíveis mascotes (sorry, mas não entram). Tudo bem, gosto de uma boa discussão. Mas Wenlock and Mandeville não ficarão na memória das crianças de hoje nem chegarão a ser estrelas dos seus posts lamechas daqui a 32 anos.

TEAM MISHA!

20 comments
  1. Eu tinha uma caneca do Misha! Era a minha caneca preferida, não sei o que lhe aconteceu :(((

    1. :)
      Raios, bem me parecia que me estava a soar mal o nome do bicho!
      Estou a confundi-lo com o outro do desenho animado. Vou já mudar! Obrigado… ;)

  2. Eu não tive um Micha porque nasci em 1980 mas tive um Naranjito e gostava muito dele.

    quanto à imagem dos gojos olímpicos só me faz confusão aquele tipo de letra. Não dá a bota com a perdigota. Porque raio é que a base do “L” não tem a mesma inclinação que a base do “2”?

    1. O meu irmão tinha um Naranjito! Tomávamos banho com ele até que apodreceu (já para aí na nossa adolescência)…

      Tens toda a razão nisso da fonte, nem tinha reparado! Confesso que começou por me fazer impressão a ideia da palavra ter sido ali enfiada um bocado a martelo. Se calhar a deformação do 2 é isso mesmo… uma martelada mais forte!

  3. Eu gosto do logo destes jogos olímpicos. Foi criado em 2007 pela wolf ollins e parece-me que tem ali montes de traços de revival dos 90s que era algo futurista na altura e entretanto passou um bocadinho, mas mesmo assim não se aguentou mal. As mascotes são tenebrosas. E se queres ver um logo horripilante, é googlar o logo dos olímpicos do brasil. Até já houve polémica por ser um plágio de uma merda chamada Telluride Foundation num estado dos eua, mas eu acho que a semelhança entre os dois é um bocado como as pessoas que usam comic sans no e-mail do outlook ou no powerpoint por iniciativa própria depois de fazer o browse pelos tipos de letra todos e não porque viram alguém fazer.

    1. Não se aguentou nada mal mesmo. O toque futurista retro até está na moda, se formos a ver. Os gajos souberam, não sei como, que em 2012 nós íamos todos ser hipsters, nostálgicos, ou doidos. Gosto, gosto. E ao menos não é aquela coisa básico do ícone + logo + filete + argolas, categoria na qual se insere esse do Rio (não é comic sans!) e, digo isto com vergonha, a minha proposta, na faculdade, para uns hipotéticos Jogos Olímpicos de Lisboa. Para trabalho amador, escapava, para uma coisa em 2016…ui!
      Os matemáticos falam todos assim bem sobre logos? ;)

      1. Eu gosto muito do Tolan mas não insultes os matemáticos, ele é c-o-n-s-u-l-t-o-r schhhh… É ele que fica com o dinheiro todo depois de nós designers fazermos as coisas bonitas.
        Logotipos feitos por designers: aproximadamente 50 dólares.
        Logotipos feitos por brand consultancy agencies: milhões de dólares.
        http://stocklogos.com/topic/famous-logo-designs-and-how-much-did-they-cost
        Eu sei, eu sei, o que custa milhões de dólares não é o logotipo, é a apresentação em powerpoint. Gotcha!

        1. Qualquer pessoa que saiba mexer no power point merece milhões! Ah, ah, ah…

          1. Mais um dígito no ordenado pelo menos. Se sabes trabalhar em Photoshop, Illustrator e InDesign ganhas XXX euros. Se sabes trabalhar em Powerpoint, ganhas XXXX euros :D

  4. aliás, acho que o logo do Rio 2016 é em comic sans.

  5. Acho que toda a gente gosta dos JO, Alexandra.
    Menos o Morrisey. O Mika também não deve gostar. Bem, se formos ver, há muitos gays a quem todos os desportos, metem um bocado de impressão.
    O Misha, recorda-me os boicotes – uma estupidez – e a cerimónia de abertura. Acho que foi a 1ª das grandes cerimónias dos tempos mais recentes.

    1. Da cerimónia já não posso falar, não me lembro, além que deve ter sido a preto e branco. Todos os gaus que conheço gostam de desporto… andas a falar com os gays errados!

  6. por acaso trabalho em branding :) e já conheci o senhor Wally Ollins, fundador da Wolf Ollins. São João, isto do branding tem muito que se lhe diga [modo consultor=ON] e infelizmente muitas empresas encaram o logo como um “boneco” que tem de ser giro e depois dá nisto de Portugal não ter uma única marca internacional reconhecida enquanto que espanha tem dezenas… Nem sequer conseguimos aproveitar marcas naturais excelentes como o vinho do porto. Já nem falo nas questões de arquitectura de marca ou de ter em conta as aplicações que ela tem ou vai ter no futuro. Criar ou re-criar uma marca é uma oportunidade para focar toda a empresa num objectivo estratégico, não apenas os clientes mas também os próprios colaboradores. É um catalizador e a base de tudo, define o posicionamento, os valores, o tom de comunicação, o foco da gestão. A coerência só se consegue com esse elemento agregador. O boneco ser giro é totalmente secundário na maior parte dos negócios. IKEA, Zara ou Google são marcas perfeitamente banais do ponto de vista estético. Mas mesmo nessa componente de ser giro, os empresários são normalmente conservadores demais. [modo consultor=OFF]

    1. Tens toda a razão, ainda se pensa nas marcas como um autocolante e não de forma integrada, só não sei se é por vistas curtas se é por falta de budget, mas pelos exemplos que tenho tido ultimamente quem se justifica com o budget é porque tem vistas curtas. Criar um logotipo feio ou bonito dá-me exactamente o mesmo trabalho, a visibilidade que depois eles têm e o modo como a marca se desdobra, vive e comunica é que é decisiva. Prefiro trabalhar para consultoras, especialmente se tiverem um nome estrangeiro porque sei que elas vão vender o meu trabalho muito mais facilmente aos clientes. A autoridade e segurança que transmitem tornam o cliente muito mais confiante no trabalho do que se fosse eu a apresentá-lo; consequentemente tenho menos alterações e menos chatices e por enquanto as consultoras ainda pagam a tempo e horas (não deve durar muito mais). E no fundo até é cómico ser só eu a saber que aquele projecto que eles venderam por um balúrdio fui eu que o fiz numa manhã, enquanto lia o 9gag.

      1. Ufa! Achei que estavam os dois a falar chinês até chegar à parte em que a São João diz que fez o trabalho numa manhã. Isso já consigo compreender – speed branding é a minha especialidade (é uma pena que sejam dois conceitos antagónicos, mas isso não interessa nada). A parte dos balúrdios e dos consultores, nem tanto, infelizmente. Não temos cá modernices dessas. O que explica finalmente porque é que ninguém sabe bem mexer no powerpoint por estes lados.

        1. Eu ganho sempre o mesmo, quer o projecto seja para uma consultora ou para um cliente habitual. A diferença é mesmo que as consultoras ainda pagam ao meu patrão a tempo e a horas e os clientes nem sempre. Quem fica com o grosso do lucro nunca é quem produz, é que distribui. Logotipos em meia hora é a minha especialidade mas também gosto de fazer packaging alimentar antes do almoço, tenho mais ideias quando estou com fome.

    2. Infelizmente é isso, trabalhamos literalmente para o boneco.
      E olha, isso do vinho chateia-me muito. E nem falo no do Porto, que acaba por ter um peso reconhecido de tradição e história. Qualquer tintol alentejano bate aos pontos certas zurrapas australianas e californianas que me têm obrigado a meter no bucho no estrangeiro. Fico a ferver, e não é da acidez daquilo. É porque a culpa não é deles, é nossa. Parece que ainda andamos todos a pisar uvas no tanque do quintal da avó.

  7. Primeiro, a piada estúpida que não consegui encaixar em lado nenhum mas, ainda assim, vai para a frente – Há mascotes/logótipos ligados ao desporto que são autênticos Michas na escada.

    Em segundo, a conversa mais ou menos coerente:
    A identidade, a meu ver, serve “apenas” para suportar ou dar corpo à força da marca. Se a tua marca não valer uma beata, de pouco te serve uma identidade fabulosa, quanto muito disfarça a coisa à primeira vista. No entanto, uma marca que seja de facto um valor acrescentado beneficia e muito de uma identidade própria desenvolvida com conta peso e medida, porque todas as suas aplicações contribuem para delimitar o território da marca.
    E quando se fala em identidade, a coisa vai muito para além do logótipo, que obviamente é a face dominante do que as pessoas se apercebem como imagem da marca, mas não é apenas aquilo com que convives.

    Por exemplo, o IKEA tem de facto um logótipo básico mas a linguagem gráfica dos gajos vai muito para além disso. Tu consegues olhar para uma página de um catálogo deles e perceber logo de quem é. As lojas estão cheias de informação visual que alinha com a personalidade da marca e até o c!#!”$ do boneco do manual de instruções é característico. Mas pronto, isto é apenas um exemplo.

    Constrói uma marca sem atenção à força gráfica (algo que é completamente diferente de um rebranding, em que o património da marca já existe e tu queres é rejuvenescer ou ligar a marca a determinados atributos) e já estás a dar um tiro no pé.

    Eventos desportivos e afins são coisas muito bonitas para encher o olho mas a verdade é que poucos perduram no tempo. A malta aqui lembra-se do urso, do naranjito, da malagueta do México, muito possivelmente também porque são eventos ligados ao nosso período de infância. Eu lembro-me de mais alguns mundiais da bola e afins, mas vai lá ver quem era a mascote de Atlanta96 ou Sidney2000.

    Mas, vou ficar por aqui, porque nisto de marcas e afins, é bom não cair na espiral da argumentação infinita.

    1. Mak, tinha escrito uma resposta tão linda, tão profunda, que o meu browser acho por bem ficar com ela. Não vou tentar recuperá-la porque acho que deve ser pecado discutir branding em vésperas de férias.
      Assim, resta-me dizer que adoro piadas estúpidas e que essa calhou muito bem ali desencaixada.

  8. Então o Urso Misha deslumbrou gerações e eu, nos meus 07 anos, passei a ser fanático por olimpíadas desde o choro de despedida de Moscou 1980.
    E agora, o mascote do Rio leva o meu nome, e o motivo é o mesmo, a homenagem à Vinicius de Morais.

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