“Must blend in” ou a vaidade segundo Alexandra

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Irmãzinha pequena nasceu quando Alexandra, a Grande tinha quinze anos. Irmãzinha pequena bolsava babygrows cor-de-rosa enquanto Alexandra, a Grande, cultivava borbotos em casacões de lã XXL, rugas em camisas aos quadrados e raízes oleosas em cabelos espigados. Diferenças à parte, ambas choraram no dia da morte do Kurt Cobain. Alexandra, porque era o fim de uma era, irmãzinha pequena, porque aos nove meses as birras de sono são uma coisa lixada. Uma certa estética grunge haveria de ficar enraizada para sempre na personalidade de Alexandra, a Grande. Irmãzinha pequena nunca viria a ser capaz de compreender tal falta de gosto.

“A tua pele é esquisita”, disse-me a minha irmã ontem à noite, a embetumar a dela ao espelho com 10 produtos diferentes. Hidratar, matificar, disfarçar, corrigir, iluminar, bronzear. O caraças. Vinte anos e não sai de casa sem passar por todo este ritual, mas a minha pele é que é esquisita.
“Esquisita como? É a pele de uma pessoa com mais quinze anos que tu”. Sem obrigações nem bases, quando muito um BB cream se não ficar mais cinco minutos na cama de manhã.
“Mas quando tinhas a minha idade tinhas uma pele igual à minha?”
“Não sei… Como é que é a tua pele? Não a vejo desde o Verão passado.”
“Ah, ah, mas eu adoro maquilhagem. Tenho de pôr base. Experimenta lá a minha.”

E eu, bem mandada, experimentei, mas saí de casa com medo que se notasse muito que a tinha posto. Mais o blush dela. E o rímel xpto. Ridículo.

Esta conversa toda não é só o resultado das diferenças genéticas e do generation gap entre mim e a minha irmã. Crescemos separadas em épocas e culturas diferentes. A geração feminina a que pertenço, em particular uma certa classe “artidésaine”, aplicou-se muito a cultivar uma atitude despreocupada em relação à aparência. Podemos estar “arranjadinhas”, mas não queremos cá exageros. Os  nossos esforços são muitas vezes notados e apontados, quando não ridicularizados. Estava a brincar quando atribuí a culpa a uma certa “herança” grunge. A malta já fazia gala em andar despenteada bem antes disso.

Eu, por exemplo, cresci a ver o meu pai perguntar à minha mãe com quem é que ela ía sair nesse dia, se ela estreasse roupa nova em dia de trabalho. Embirrava-lhe com as permanentes (e quem pode culpá-lo hoje em dia?), achava que ela tinha roupa a mais. Desenvolveu uma teoria estranha sobre batons vermelhos e pedidos de atenção e não me deixava a mim sair de casa com calças e camisolas mais justas sem me fazer passar um mau bocado. Mas não foi só ele. Ainda hoje, sempre que visto uma saia ou um vestido, normalíssimos, alguém me pergunta onde é a festa. No meu grupo de amigas, sou a única que parece possuir um baton… e é mesmo só um. Os outros estão fora de prazo, mas ainda não os deitei fora, que é para fazer número. Se por acaso esticar o cabelo perguntam-me o que foi que lhe fiz. Se usar brincos alguém comenta. Colares então, é o diabo. Grandes produções de maquilhagem? Só para assistir a casamentos. Não falemos sequer de saltos altos. Tenho amigas que só usam ténis. Se eu já sou maior que elas descalça, aparecer-lhes de saltos é pedir uma escoliose.  O facto de ser tímida só veio ajudar. Must blend in, must blend in.

Sinto que fui condicionada por terceiros a vida toda a manter-me discreta e modesta e resultou. Confesso que tenho medo que me achem vaidosa. E o pior, é que não corro esse perigo de maneira alguma! Devo estar mais próxima de uma mulher das cavernas do que da minha irmãzinha pequena. As miúdas da idade dela produzem-se todas por sistema, desde os 13 anos. E sabem fazê-lo. Ali tudo condiz com tudo, não há um passo em falso. Afinal, a qualquer momento podem ter de aparecer numa selfie ou assim. Eu nem que quisesse. E o pior é que nesta altura da minha vida ando a sentir falta de um certo… frou-frou. Digamos.

É por isso que este post é dedicado aos blogs de moda e beleza que espreito de vez em quando e que têm um papel muitíssimo pedagógico na minha vida de troglodita. Foi com eles que aprendi uma data de coisa utéis que não estava a espera de ainda vir a saber. A minha sobrancelha, que agora já são duas, agradece imenso.
Não estavam à espera deste desfecho, pois não? (É que nem morta vou pedir conselhos de cremes à irmãzinha pequena…)

(e como agora percebo muito disto avanço que a imagem de cima é de uma campanha de produto de uma marca que adoro, em termos gráficos e não só. Tivesse eu mais fundos para coisas de gaja e ficava-me logo pelos nomes dos produtos. Gamei-a aqui.)
28 comments
  1. “Não sei… Como é que é a tua pele? Não a vejo desde o Verão passado.”
    “A minha sobrancelha, que agora já são duas, agradece imenso.”
    :D :D :D
    obrigada pelas risadas que me proporcionaste neste dia horrível.

    1. Ora essa. Tudo para melhorar o nosso humor! Com este tempo não há maquilhagem que resista, a propósito!

      1. Ainda nem sequer tinha vindo ver que já havia comentários e já me estava a imaginar a transcrever o “Afinal, a qualquer momento podem ter de aparecer numa selfie ou assim” seguido de um AHAHA.
        Olha, eu gosto muito de ver o “um ano sem zara”, é brasileiro, o que significa que para nós não há risco nenhum, estás a ver, lá é verão no nosso inverno :D

        1. Boa, esse não conheço e as brasileiras são prós, já se sabe, apesar de eu não perceber para que precisam de betume com aquelas peles bronzeadas lindas que para lá têm. Vou espreitar, gracias!

  2. “…mas saí de casa com medo que se notasse muito que a tinha posto…” Acontece-me… Quase que sinto vergonha quando notam a make up em mim. :D
    Less is more! E aposto que tens uma pele mais saudável e jovem que a da tua irmã.

    1. mesmo, mesmo less… saudável talvez, mas os 20 aninhos já ninguém nos devolve.:)

  3. “Afinal, a qualquer momento podem ter de aparecer numa selfie ou assim.”
    AMEI!!! :D

    1. e eu gostei de conhecer o teu blog!

  4. Tenho a idade da tua irmã e também me sinto um bocado mal quando me produzo demasiado. Não digo que não use um lápis preto nos olhos, brincos e um ou outro anel diariamente, mas não passo muito disso. Raramente uso vestidos e saltos e regra geral ando arranjada mas normal…também não gosto que se note que me esforcei, não gosto dos típicos comentários “então hoje é dia de festa?” ou “com quem vais sair?”. No entanto, tenho amigas que são capazes de ir para a faculdade de vestido, saltos e três camadas de base. Tão importante como os condicionantes da geração é a personalidade da pessoa em si. Há quem seja mais timido, há quem tenha tendência para o exagero…eu sempre preferi não ter vinte cabeças a olhar na minha direcção quando entro e ainda não sei se é defeito ou só feitio.

    1. Bem dito, Ana. E eu menciono no meu texto que existem várias diferenças entre nós (de personalidade então, ui!). Acho que a minha irmã deve ser uma dessas tuas amigas… mas não é má pessoas, eheh. Ela gosta mesmo é de ser a estrela da companhia, a mim essas 20 cabeçasque falas assustam-me (vem-me cá bater, maninha, anda lá…).
      Obrigado pelo teu comentário!

  5. Alexandra eu também sou da geração grunge, também ando de casacos com borbotos, é raro andar de sapatos altos apesar do meu metro e meio, mas se há uma coisa que eu adoro é maquilhar a cara. Isto também faz um bocadinho parte de ser artista, e convenhamos que o contraste Borboto vs Batom vermelho acaba muitas vezes por ser mais interessante do que Batom vermelho e cetim. Não destaca nada! Mas isto é uma opinião muito pessoal =) (Gosto muito do teu blogue.)

    1. E eu adoro o teu!!! Se tu maquilhas a cara, eu vou passar a sentir-me menos palhaça quando o faço!! E borboto + baton é de facto uma coisa que eu compreendo. (esta conversa toda, mas quando me pinto até tenho jeitinho com os pincéis!) :P

  6. Ò minha grande grandalhona. Tu precisas é de uns amassos. Mas o que é isso de seres condicionada? A minha mãe é hippie e raramente usa sapatos. Penteia (raramente) os cabelos com os dedos e tira aos pelos do queixo com uma pinça. O meu pai é um camone loiro de olhos azuis reformado, que passa a vida no Facebook. E eu? Eu sou maravilhosa. Ela é loira, ela é unhas, ela é base, ela tem 1.76 e dá-lhe com os saltos da moda. Vês. Sabes quem é o meu maior admirador? Marido Designer Grunge, que usa borbotos e passa o dia a fazer “bonecos” e depois diz-me: estás tão gira. Cheiras bem…
    Faz como te sentes bem. Não ligues à espuma.

    1. É pá, Uva, amassos não… já pareço suficiente amassada, ou não percebeste pelo tom da conversa? ;)
      Adorei o teu comentário, aceito a crítica, mas somos pessoas diferentes, o condicionamento começa logo aí. E há um factor que não referi aqui que é a PREGUIÇA. Tenho tanta bisnaga disso em casa… deus meu!
      Depois… tenho mais 7 cm que tu, unhas só no verão, agora é roê-las à vontade, louro escuro naturalinho que o resto do mundo acha que é castanho mas espera só até lhe dar a luz, e também sou maravilhosa, o que é pensas?

  7. Eu fui criada por uma mãe super maria rapaz que maquilhar e saltos altos nunca fizeram parte do vocabulario. Hoje em dia sou descontraida e só maquilho porque no trabalho há chibatadas para quem tem olheiras. Mas compreendo…a geração de hoje ainda não sabem a regra de três simples e já estão prontas para trabalhar na sephora. É uma fase…a proxima vai ser relaxada outra vez…porque vão ser nossos filhos!

    1. A minha mãe é toda senhorinha e eu também fiquei com um bocado de alergua a isso. Achava que pintar e fazer caracóis a envelheciam e, honestamente, parece mais nova agora que nos anos 80. Mas olha que invejo as raparigas da Sephora. Aquilo é muito bem feitinho…

  8. Olha, eu cá sou na geração da tua irmã, mas nem por isso me produzo todo no dia-a-dia (se calhar frequentar uma faculdade com 87% de homens ajuda a isso, quer dizer para eles ver uma rapariga já é o escândalo, vê-la maquilhada então é o fim…). Por acaso tenho o produto da imagem e mais umas quantas coisas da Benefit, todas espectaculares.

    1. Tu percebes da coisa que eu bem sei, uma vez já comprei um verniz que vi no teu blog. :P
      Então e recomendas o produto da foto, é? Ando de olho nele, mas também sou forreta!

      1. Sim, o produto é bom mas só resulta se tiveres de facto poros muito abertos ou marcas no rosto. Agora saiu um que penso que seja melhor e mais fácil/prático de aplicar, o preço ronda o 27€ na Sephora. ;)

        http://www.benefitcosmetics.com/product/view/the-porefessional-agent-zero-shine?intid=navpromo_agentzeroshine

        1. Vou investigar, obrigada Margas!

  9. Opinião pessoal Alexandra, mas mulher quer-se vaidosa. Sempre. Não confundir com pedante, ok?? Vaidosa é bem. Aprecio bastante mulher que gosta de se cuidar (e isto não implica barrar a cara com 3mm de base, pintar-se como o Joker do Batman ou achar que se está acima do resto do mundo apenas e só porque vai vestida com um qualquer vestido de uma marca xpto). ;)

    1. Estou a tomar notas, Kapu, ligo sempre ao que dizes.

      1. Para fazer exatamente o contrário?? ;)

        1. não… eu ando a fazer um esforço!

          1. Eu quando disse “para fazer exatamente o contrário” não o fiz com um sentido pejorativo. Era mesmo para mostrar que, se assim o é, mostra que até é uma mulher com algum juízo. Mas não neste caso. Aqui acho que tenho razão. Mulher que se cuida e que gosta de si. Sempre! :P

  10. O exagero da juventude de hoje é isso, um exagero. Sem conhecer, diria “respect” ao estilo da autora.

    1. E eu vou-te deixar continuar a teres-me respeitinho, OK? É bonito… :P

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