Na Babilónia

Um colega de trabalho, a que vamos chamar Igor, pertence a uma comunidade evangélica. Confessou-o logo na entrevista de emprego como quem diz que tem carta de pesados. Nós, ímpios, rimos muito, levianamente, mas acabámos por respeitá-lo, porque a coisa é séria, trabalhosa e sempre é melhor que andar a roubar automóveis ou ler blogs de moda.
Memoriza o Cântico dos Cânticos com reverência e não toca na playstation. Acredita cegamente nas escrituras e cortou com o facebook porque o distraía do estudo. Recito versículos de Mateus e ele diz-me logo de onde são, mas não conhece Judite nem Holofernes, nem aprecia as sombras negras de Caravaggio, ou os veludos barrocos dos baldaquinos. A censura protestante não permite distracções nem carnavais, mas, para mal dos pecados do rapaz, é obrigada a fechar os olhos à mesa do almoço. Chegamos assim a Alexandra, a prostituta da Babilónia, nem mais nem menos.
Não fiz por mal, acreditem, gosto muito do Igor, mas creio que iniciei uma campanha de corrupção da mente conservadora do rapaz, que não está perto de terminar. Acontecimentos fortuitos, coincidências, detalhes onde espreita o Diabo, tudo se alinha numa trama mística de perversidade. O Igor é inteligente e curioso e quando tem uma dúvida, pergunta. A mim. Logo a mim. Deus nos ajude aos dois:

“Alexandra, sobre que é esse livro que estás a ler?”
(mostro-lhe um parágrafo ao calhas do Teatro de Sabath. Um qualquer, credo.)

“Alexandra, este é que o teu pintor preferido?”
(o google exibe em full screen todas as senhoras escancaradas que Egon Schiele alguma vez pintou)

“Alexandra, deixa-me ver aí uma coisa ao teu computador…”
(e estou a fazer scroll, para cima e para baixo, na página deste menino…)

Juro que não é de propósito.

13 comments

  1. trollofthenorth

    Se até a Maria Madalena se arrependeu, ainda vais a tempo. Um acto de contrição e 3 Pais Nossos resolvem o assunto. Se bem que o teu colega já deve andar a pensar de cilício para cima. Não consegui perceber se os evangélicos acreditam na penitência. De qualquer forma mais vale tatuares já um 666 na testa.

  2. ml

    se tu imaginasses as vezes que já me apanharam na biblioteca a ler o blog do Menino (aka, quando ouço um ‘wtf? estás a ver pornografia??’)….
    x)

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