Na gaveta do meio, debaixo da meias

“Há muito tempo que não escrevo aqui, talvez porque não haja nada digno de nota. O meu cabelo está a ter um ataque e enrola nas pontas, ora para dentro, ora para fora, conforme lhe dá na tola. Hoje vou ter E. Física e ao contrário dos outros dias, apetece-me jogar vólei. Estou a rezar para não chover. Espero que dê resultado visto que da outra vez rezei para chover e choveu mesmo. Estou contente! Já não gosto do Ricardo coisíssima nenhuma, apesar de ver todos os dias o sósia dele lá escola. Amanhã tenho o meu primeiro teste de português e espero que corra bem. Agora tenho de ir, vai começar o Alf.

Alexandra,

23 de Setembro de 1990

Houve um tempo em que eu não tinha diários. Houve também um tempo em que não sabia escrever. Não me lembro de nenhum desses tempos, se calhar por isso mesmo.
As pessoas dizem que tenho muito boa memória. Pois tenho. Escrevi-a eu mesma. Pedacinho a pedacinho, primeiro em folhas cor-de-rosa fechadas a cadeado, que cheiravam enjoativamente bem, depois em caderninhos de capa preta, frágeis e cheios de pinta, mais tarde em vulgares editores de texto. Primeiro em frases hesitantes cheias de banalidades, depois em profundíssimos ensaios sobre a condição humana e a da pele adolescente.

É assim que sei que houve um tempo em que eu rezava e achava que as minhas rezas afectavam a metereologia. É assim que me consigo recordar do Ricardo, loura paixão do Agosto dos meus doze anos, de quem já não gostava “coisíssima nenhuma” em Setembro e que não teria sobrevivido à passagem do tempo sem o objecto da foto aí de cima. A minha muito estimada amiga Gigi, guardada numa caixa com dezenas de irmãs e irmãos seus, que largam, sempre que os abro, resquícios de perfume e famílias inteiras de lepisma saccharina.

O que descubro, de tempos a tempos, quando abro a caixa: As coisas escritas importam mais que as outras. É por isso que nos apaixonamos por escritores. De livros, de canções, de blogs. É por isso que queremos também nós escrever coisas. Livros, canções, blogs…

E é porque as coisas escritas importam mais que as outras, que cada clique em “publicar” é acompanhado de um calafrio em tudo semelhante à sensação de sair do meu quarto e deixar o diário sozinho e desprotegido na gaveta do meio, debaixo das meias. Que medo. Mas tem de ser. Eu estou apaixonada por vocês. Estão apaixonados por mim?

28 comments

  1. W

    Há uma coisa a reter no teu texto de 1990. O Alf!!! Adoro :D

    É bom recordar. Com ou sem ajuda, as boas e más memórias (as más que, vistas a esta distância, nem eram tão más assim), o que importa é que nos lembremos do que outrora fomos e que isso nos faça, pelo menos, sorrir.

    Em resposta à tua pergunta:

    – se assim não fosse, eu, não voltaria ;)

  2. Rachelet

    A minha primeira incursão naquilo que se definiria como bloga – ou seja, a divulgação de publicações do meu diário – deu-se aí quando teria uns 10 ou 11 anos e decidi deitar fora o meu diário (cheiroso, com bonequinhos e chave, como o teu) para o baldio das traseiras do meu quintal. Na semana seguinte, passagens do meu quotidiano eram citadas pela canalha da rua. Perólas como «não sei se hei-de ir brincar com o Jordi ou com a Catarina. Gosto mais de brincar com a Catarina, mas o Jordi é um pão!» correram o matagal local. Não sei porquê, parece que não fiquei traumatizada, a julgar pelo estaminé que vou mantendo e com afirmações às vezes bem mais escabrosas.

    • Alexandra

      Iáics! Estou a aqui a arrepiar-me com aquilo que eu teria sofrido nessa tua situação. O meu pai roubou-me este da foto e subiu com ele para uma oliveira. Parecido.
      Se calhar é mesmo isso, o que não mata…

  3. VdeAlmeida

    Essa é uma pergunta de resposta melíflua ou não-resposta…
    Ao contrário, nunca me atrevi a deixar por escrito os meus pensamentos mais íntimos. Curiosamente, se tivesse alguma Gigi na minha vida, de certeza que não me tinha esquecido dela, apesar de não estar apontada em qualquer diário.
    Felizmente, nuncative nenhum Ricardo!

      • VdeAlmeida

        Se tivesse deixado os pensamentos íntimos por aí, de tão escabrosos, a esta hora estaria para aí atirado, só, sem-abrigo. Ou internado num hospício.
        (Um bocado de dramatismo fica sempre bem)
        Quanto ao Ricardo, não tiveste porventura porque o nome era outro, mas convém resguardar anonimatos. No meu caso, é mais uma questão de decoro, e de os meus gostos serem mais direccionados para as gigis :)

  4. leididi

    Sabes que lá no fundo somos uma e a mesma pessoa, não sabes? pronto que ficaste com a parte da graça e eu das asneiras, tu da escrita óptima e eu da tem dias, mas somos. Um dia destes tiro uma fotografia ao meu primeiro diário, que também tinha folhas às cores com cheiro, e mando-te. Mas o meu – aviso já – era muito mais piroso.

    • Alexandra

      Suspeitava, sim, já te leio há mais tempo que tu a mim, mas sabe bem ouvir-te dizer essas coisas. Mais uma: tu ficaste com os caracoles e eu com o cabelo de rato… Não se pode ter tudo.
      (isto de remexer nas caixas dos diários trouxe um bónus que depois te conto ;))

  5. Marta

    Eu estou. Passo cá sempre que posso e cada vez me apaixono mais. Também tenho um diário piroso com folhas coloridas, mas com meia duzia de páginas escritas, porque isto das palavras bonitas não é para mim. Só lê-las.
    Marta

  6. ml

    eu estou. e vou e volto e vou e volto todos os dias :)
    deixei de escrever diários há algum tempo, mas nunca deixei de escrever. depois tive um fotolog. depois blogs. entretanto, um amigo com quem trocava mails e mails.

    gosto de palavras.
    e o teu blog é bom nisso ;)

  7. panties on the rope

    incrivel, pensei ser a única que sente o calafrio ao clicar no públicar, como se alguem entrasse no quarto qd estava a escrever no diário…
    optimo blog :P

    (minha estreia nos comentários no mundo dos blogs, nao podia ter sido feito em mlhr blog =) congrats)

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