Não é fixação pelo Colin Farrel

Dizem que, quando nasceu, a rapariga parecia um bebé de seis meses. Tamanho, apetite, soninho descansado, essas coisas. Mas sobretudo tamanho. A mãe dela, que ainda solteira e sem perspectivas, se tinha abastecido generosamente de babygrows rosados gigantes numa “Mothercare” de Londres, deu graças aos céus pela sua tripla clarividência: Não era estéril, saíra-lhe uma rapariga e era uma rapariga grande. Os babygrows é que já estavam um bocadinho a passar de moda.

Era então uma vez essa rapariga grande que já vestia grandes babygrows vintage importados ainda o vintage importado não estava na moda. A rapariga grande cresceu e não desgostava de ser grande. O insuportável era que estivessem sempre lembrá-la disso. E estavam. Sempre. As pessoas não teriam nada mais original para lhe dizer?

Algumas frases que a rapariga cresceu a ouvir e que lhe davam vontade de praticar actos menos cristãos:
“Eh, calmeirona!”
“Contigo não ía eu aos figos!”
“Quando é que páras de crescer?”
“Como é que está o tempo aí em cima?”
“Olha a Torre Eiffel”
“Jogas basket, não é?”
“Quanto é que medes? Tu davas era para modelo”.

A pior de todas era a última. Deixava a rapariga roxinha de vergonha. Então não se via logo que ela era rapariga de alimento? E tão desengonçada e desguedelhada…

Então um dia, a rapariga que estava quase a começar a não gostar de ser grande, descobriu que era a única das suas amigas a conseguir ver os rapazes de Seattle a tocar em cima do palco. E foi a única que aguentou os moshs e encontrões sem sair (muito) do sítio – 2ª fila a contar do palco. Foi espectacular. Eddie I Love You, etc, etc… Toda uma existência justificada.

E então a rapariga deixou-se mesmo ser Grande. E cá estamos, eu e ela.

10 comments

  1. W

    Eheheh agora já percebo a questão dos “saltos altos” do outro post :)

    Por acaso também vivo e vivi sempre com os mesmos comentários que tu. Nos dias que correm ainda vou ouvindo “achas que aquele corpinho se trata com pouco alimento?”
    Tenho mais 10cm que tu e desde a escola primária que fui sempre o mais alto (e a grande distância do 2º mais alto). Rever as fotos da altura dá-me vontade de rir eheh
    Só no secundário é que encontrei um colega à minha altura, pelo que percebo perfeitamente o que descreves. Claro que sendo rapariga é capaz de ser mais complicado… but you lived through it and made it well enough :)

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