Não me envergonha por aí além… #10


… contar pelos dedos. Tocar discretamente com as unhas, um, dois, três, no tampo da mesa, na perna ou em qualquer amável superfície que se disponha a ajudar-me a esconder esta falta de jeito para os números. E isto é dizer a coisa de forma levezinha.
A minha história com a matemática é longa e tem sintomas de doença crónica, daquelas medonhas e bem viscerais que resistem a todo o xarope. O meu ódio pelo bicho papão não conhece limites mas, em abono da verdade, foi ele que começou a guerra. Levei reguadas por não meter na cabeça a tabuada do 7, fui humilhada com recadinhos para casa por não atinar com dois algarismos no divisor e ouvi, vezes sem conta, lamúrias de professores de matemática do secundário, frustrados por me estragarem a média com aqueles 10 mal amanhados. Isto para não falar sequer das insónias em véspera de teste e das diarreias na manhã dos ditos. Eu disse-vos, não é uma história bonita, esta. Um calcanhar de Aquiles em pézinho 42 é um senhor calcanhar, convenha-se.
Quando percebi que ía ter matemática até ao 12º ano chorei de terror. Tive explicações numa cave com um velhote que cheirava a vinho, estudo em grupo em casa do carolas da turma, bonificações de última hora do Ministério e finalmente, um belo dia o monstro ficou para trás. Urra!
Fiz um pequeno ritual de celebração em casa de uma amiga. Pusemos a tocar o novíssimo Wolfheart e despejámos a três uma garrafa de Eristoff – pela primeira e última vez, diga-se – enquanto queimávamos páginas e páginas de cadernos de matemática.
Depois disto, houve quem nunca mais pudesse ver vodka à frente na vida, a mim aconteceu-me o mesmo com os números. Não os decoro, não os assimilo, não os compreendo. Sou um caso desesperado para inventar e fixar passwords alfa-numéricas, números de telefone, datas ou preços. Faço esforços hérculeos para saber quando gastei nisto ou naquilo. Foi assim que dei comigo forreta. Só valores que se contem pelos dedos. É tão mais prático.
An Erotic Alchemy ainda me sabe hoje a shot e libertação, já as palavras logaritmo, função e derivada encafuei-as para sempre num lugar escuro e primevo onde ecoam baixinho, como nomes de demónios mesopotâmicos. (E se atreverem a pôr a cabeça de fora, recito-lhes as palavras mágicas: “Nunca mais vou ter teste de matemática! Nunca mais…”)

Estive a estremecer de nojo todo o tempo que demorou a fazer o boneco aí de cima, mas no fim até ficou fixe e menos matemático do que eu esperava, que é para não me conspurcar aqui o sítio.

19 comments

  1. a.i.

    o meu gajo é perito nisso dos númbaros e de vez em quando tenta explicar-me umas coisas complicadas e eu finjo que percebo (tenho um talento especial para fazer as perguntas certas nos momentos certos, como se estivesse a acompanhar ferpeitamente o raciocínio). Só levei reguada uma vez na minha vida e foi por não conseguir fazer no quadro a malfadada conta de dividir com mais que um algarismo por cima do tracinho; mas na matemática até ao 9.º ano, sempre quatros e cincos. Nunca fiquei assim com asco (deve ter sido de não ter tido matemática no secundário) e confesso que tenho um certo orgulho em ser a fiel receptora das prelecções dele sobre parábolas não sei quê.

    (Alexandra, não sei se já tinha dito isto, mas deves ser a gaja mais fixe que existe à face da terra. Não me contive. Quando eu me tornar lésbica dás-me o teu telefone?)

    • Alexandra

      Não ter tido matemática no secundário explica muita coisa… Até ao 9º era desagradável mas não odioso.

      (Não digas essas coisas que não tenho tido tempo de te ler a fundo para poder retribuir a gentileza – ou perceber se não terás um parafuso a menos – para fazeres este tipo de elogios ;))

  2. a.i.

    Podes já arrepiar caminho. Parafuso a menos definitivamente ;). Desconfio até que é plural. Os parafusos soltam-se tanto como os daquela ponte do eiffel no porto quando passam (ou passavam) os comboios. Uns dias mais, outros menos, conforme o número de carruagens a passar.

    • Alexandra

      Então és cá das minhas, deixa-te ficar por aqui que vamos conversando.
      (a.i. para mim quer dizer Adobe Illustrator, e é assim que penso em ti, só para veres que os parafusos também caem para estes lados…)

  3. trollofthenorth

    Não preciso de invocar Marduk sempre que preciso de decorar números e passwords alfanuméricas. Tenho alguma facilidade com isso e contas de cabeça.
    Mas exibo com orgulho a minha melhor nota a matemática do oitavo ano: 36%.
    Por isso a tua dor e asco, é também um bocadinho minha. -_-

    • Vic

      eheheh, o meu Sebastião passou com média de 18,5 para o 12º. Se alguma vez precisares dos serviços dele, é só dizeres.
      (só tem 16 anos, mas por coincidência também calça 42 :) )

    • Alexandra

      Posso sinceramente dizer que te invejo. Vislumbrei um bocado desse sentido no estudo da Geometria, aquela que se desenha e não se calcula, e achei aquilo maravilhoso. Como quando no “Matrix” o código se torna forma. Já em matemática, sou um cepo.

  4. Mam'Zelle M.

    Bem, tens a certeza que o teu asco a matemática não apareceu, efectivamente, a partir do momento em que tiveste explicações numa cave com um velho que cheirava a vinho (já agora era a cave, o velhote, ou os dois que cheiravam a vinhaça?). Olha que eu até gostava bastante dela, da matemática. Mas se tivesse explicações numa cave e com o resto do cenário que não vale a pena voltar a repetir, também não ia gostar, é certo! ;p

    • Alexandra

      Era o velhote que cheirava a vinho, acho… também podia ser um colega meu mais desesperado (eram explicações em grupo). E, não, já antes embirrava com a coisa, não foi do cenário. ;)

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