Noé e os Arconautas

Ignorei a sirene de alarme, todos aquelas luzes vermelhas e mãos que me puxavam para trás. Saltei por cima daqueles que ameaçavam ir a rastejar até Fátima se eu fosse para a frente com isto, espezinhei os que acendiam velas para me dissuadir e fui, mesmo assim, ver o Noé ao cinema. Ao cinema “a sério”, com 15 minutos de treilas, pipocas a ranger e telemóveis a piar.
O que dizer em minha defesa? Nada de complicado. Sou uma grande fã do Aronofsky? Ainda mais de épicos? A Arca de Noé é a minha história bíblica favorita? Tenho em mim um pequenina rata-de-sacristia fanática pelo Antigo Testamento? Certamente que não foi por vontade de ver o Russel Crowe de saias mais uma vez, nem a Hermione mais despenteada que o costume. Não vale a pena, não tenho qualquer desculpa, por isso o que se segue não chega a ser um lamento. Mereci-o totalmente. Ainda assim, não me podem impedir de perguntar: que raio foi aquilo?
Aronofsky, homem, passaste-te dessa grande cabeçofsky, não foi? E Russel Crowe, rapaz, que conversa é essa de pedires ao Papa para ir ver o filme? Acháveis quiçá que o senhor Francisco iria apreciar a vossa transformação do livro de Enoch num episódio dos Transformers? Se bem me lembro, a Igreja nem reconhece esse episódio dos anjos caídos, é má publicidade, estás a ver, não é suposto a malta desobedecer assim ao senhor Jeová por dá cá aquela palha. Mas se tivesse havido realmente anjos caídos, gigantes ainda por cima – o que muito me apraz, haviam todos de se parecer com o Pete Steele, não era com aquele mistura esquizofrénica entre o Golem e o Megatron. E para quê, MEU DEUS? Só precisavam de uma arca, dois bichos de cada espécie, litradas de água, um raminho de oliveira e um arco-íris. Anjos pedregosos não, obrigado. E aquele Anthony Hopkins feito parvo atrás das bagas? Não, não, não…
Em resumo, a arca, essa, estava bem gira, dessa parte gostei muito, a Jennifer Connelly dá uma hebraica lamechas perfeita, Deus Jeová Todo Poderoso é mauzinho, como sempre, o Noé ainda é pior (ainda choraminguei porque não gosto que se ameacem criancinhas), mas o vosso grande épico de 2014 só me fez lembrar um filme de 1963: Jason and the Argonauts. Esse sim, grande filme. Os vossos golems desvairados mexiam-se de forma mais deselegante que estes esqueletos guerreiros que andavam aqui atrás do Jasão.

Agora vou ali fazer uma penitenciazinha, que é para ver se me passa este desgosto.

 

8 comments

    • Alexandra

      Tinhas??? Não li… é o que dá andar sempre atrasada nas minhas leituras. O problema é que teria ido na mesma. Sou uma sucker por grandes produções. Amén para ti!

  1. a.i.

    agora não tenho tempo de ler tudo, mas só para dizer que na torre do tombo está uma exposição com mapas (atlas) lindos de sonho, de detalhes de ilustração, que és capaz de gostar. E que prova que a idade média e o renascimento não eram “atrasados” mas que tinham “sabedoria, ciência e arte”.

  2. D

    Pois não fui ver, mas as filhas foram e nem comentaram muito, o que é sempre mau sinal.
    Li as criticas, mas como são quase sempre desfavoráveis, aguardo sempre pelas críticas de pessoas que gostam de cinema bom e não são pagas para avaliar, pelo contrário, são as que pagam para ver.
    Ainda não encontrei quem gostasse mesmo. O melhor que ouvi dizer foi “Vê-se…”

  3. Susana Rodrigues

    Muito obrigada, Alexandra! Já me fizeste poupar uns trocos. :-) Também não era filme que me puxasse muito, não, é uma verdade. Mas às vezes outras vozes me arrastam para o cinema, mesmo com as pipocas a estalar e os telemóveis a tinir. Argh!
    Beijo, gostei muito do post. :-)

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