O arrepio e a burra mirandesa

Quando as pessoas viam o cabelo do meu irmão perguntavam à minha mãe se ela tinha sido lambida por uma vaca quando estava grávida dele.

(Pausa para um anacrónico momento “wtf”- à época ainda o nosso povo não exprimia espanto neste poderoso lingo das américas, mas a meu ver é única resposta válida à teoria que se segue)

O infeliz tinha um arrepio no cabelo, uma coisa com vontade própria que lhe levantava metade da franja, e é certo e sabido que estes maneirismos capilares se devem a mães grávidas expostas a lambidelas de gado. Gado vacum, caprino, asinino, equidio, etc, qualquer bicho destes, desde que tenha língua e más intenções, pode dar cabo do penteado de uma pessoa para todo o sempre. Ou assim fizeram crer à minha mãe. Mas não, ela não tinha sido agraciada com lambidelas, apressava-se a esclarecer, não a fossem tomar por sabe-se lá o quê. Já o arrepio, ainda existe, e na escola scundária valeu ao meu irmão a alcunha, hoje extremamente datada, de antena parabólica.

E nós não acreditamos nisto, pois não? Vivemos no século XXI, somos pessoas da internet e do mundo. Não andamos para aí a acreditar em histórias da carochinha, certo?
Pois sim. Este Verão visitei Atenor, uma aldeia no Nordeste Transmontano, onde fica a  AEPGA, a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, que entre outras actividades, se dedica a proteger o Burro Mirandês. Já lá tinha ido há alguns anos e quis voltar para mostrar os burros mirandeses à minha filha. São uns animais muito bonitos e dóceis e podemos interagir com eles à vontade e até levá-los de passeio. Os voluntários da associação também são muito simpáticos e explicam-nos tudo o que quisermos saber sobre a região e raça.
Ora acontece que durante a visita ao cercado das mãe e dos bebés, uma burra grávida engraçou comigo, que por acaso também estava grávida. Enquanto a minha filha se entreteve com os burros bebés, todos bem maiores que ela, a burra mãe andou sempre colada a mim. A dada altura, lambeu-me o braço! Achei muito engraçado e não pensei mais no assunto. Três meses depois, a criança nº 2 vem ao mundo arrepiada. O remoinho desta vez não é na franja, como o do tio, é no cocuruto, quase na nuca, e não baixa nem por nada. Se calhar vou ter de adoptar um burro para ver se quebro o feitiço e o cabelo da criança vai ao sítio. Olha que esta.

E para não dizerem que estou a mentir, cá está esta vossa criada e a dita burra mirandesa, momentos antes da lambidela:

burra

Com o bónus de ficarem a conhecer as minhas duas crianças, uma linda e convenientemente tapada pela pala do boné, do lado de fora, e outra, igualmente linda, mas escondida, do lado de dentro.

12 comments

  1. a.i.

    oh oh oh ooooooh que fofura, adoro burros ! (quem não? animal mais fofo).
    e as três espécimes de seres humanos femininos não lhe ficam atrás Obrigada! é tão bom ver a imagem por trás das palavras, nem que seja assim de rés-vés :)

    Ah, dizer ainda que adorei os ditados populares sobre bebés das “tuas” avós . Eu quando estava grávida achava o máximo era dizerem que a azia era provocada pelo cabelo do bebé a crescer.
    Se não estivesse tão agoniada com a azia até me dava vontade de rir.
    E talvez a ideia do guia prático (já feito noutros lados, de certeza), possa ser ultrapassada por uma espécie de “cancioneiro geral” com essas lenga-lengas populares? Do meu lado posso acrescentar uma sobre um cuco que não queria comer as couves e um pau, um fogo, e um polícia e um boi que não queriam bater no cuco, queimar o pau, beber a água, prender o homem, etc etc (na devida ordem) :D

    Também acho o máximo quando dizem que as otites são provocadas pelos dentes a nascerem. E esta vem da boca de sôtores e engenheiros e nem vale a pena repetir mil vezes que os médicos dizem que não, que não nenhuma relação cientificamente estudada.

    • Alexandra

      Então e sou uma miúda jeitosa de rés-vés, ou quê? :) Normalmente não uso vestidinhos às flores, mas sou tão forreta que não compro roupa de grávida, cravo vestidos estilo império à minha mãe…

      Também tive muita azia e muito cabelo, por isso se calhar vou acreditar nesta também, heheh. O cuco é um amigalhaço cá de casa, muito íntimo até. Se queres saber, para testar texto em paginação, em vez de usar aquela lengalenga do lorem ipsum, eu tenho a história do cuco sempre a jeito para o copy paste. Os meus clientes acham que eu sou doida.

      • a.i.

        Eu acho imensa graça quando encontro esse parágrafo do lorem ipsum em sites oficiais de empresas!! vê-se mesmo que o designer enviou uma versão e que a empresa nem se deu ao trabalho de preencher os conteúdos todos :)

        E sim, és muitíssimo jeitosa. e perigosamente a partilhar muitas moléculas de adn: eu também quase não comprei roupa de grávida. A diferença (muito grande, na verdade) é que a roupa da minha mãe deixou de me servir por volta dos 15 anos… (na geração delas, não sei o que comiam, mas tinham umas cinturinhas de vespa que faxavôr)

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