O cérebro da Duquesa fez Beep, Beep.

Foi desta. Pum-pum, explosão, desmaio, cheiro a esturro, passarinhos a bailar, o desenho animado completo. O coiote já levou tantas que agora apetecia-lhe deixar-se estar caído, fingir-se de morto, mas o malvado do Beep, Beep já está atrás de uma rocha a desenrolar mais um rastilho.

Quando se começou a falar de crise, muito baixinho, sorrateiramente, nada disto que para aqui vai, eu acabava de receber o meu primeiro ordenado de estagiária. Mais, fazia uns freelances por fora e ainda vivia com os meus pais. Crise? Onde? Eu, que nunca tinha tido sequer mesada, era agora a Senhora Duquesa de Carcanhol. Já não precisava de almoçar as sopas grátis da faculdade nem juntava todas as não-idas ao cinema num frasquinho, para ter dinheiro para acampar no Verão. Ainda assim, a única compra extravagante que fiz com esse primeiro ordenado foram uns óculos de sol Armani que, com a minha sorte, passaram de moda na estação seguinte e estão guardados numa gaveta até que algum editorial da Vogue lhes dê ordem de soltura.
Depois, um belo dia, o meu ordenado de estagiária juntou os trapinhos com outro ordenado semelhante e, durante uns tempos, foram os dois muito felizes. Parecia mesmo que O PLANO ía concretizar-se. Nada de mais na verdade: passeatas, uma ou outra refeição fora, cinema nos dias de desconto, idas aos saldos, uma viagem grande por ano, reprodução da espécie passado um tempo considerado seguro… essas coisas.

O tanas.

Ontem estava a pôr em ordem as minhas contas no site do banco quando de repente fui a zeros. Fiz refresh e ficou na mesma. Revi as operações, contei pelos dedos, e nada.  Ok, ok, don’t panic, o que aconteceu aqui? Comprei um pijama, fui a um jantar de aniversário, passei um fim de semana na Serra da Estrela (mas levei sandes para o almoço e dormi numa espelunca com paredes de papel!) A gasolina, as novas portagens da A24. Cortei o cabelo numa promoção. Médico, xarope e paracetamol. Um taxi. Que mais, que mais? Pouco mais. E agora? Faltam 25 dias para acabar o mês, Senhora Duquesa, e já estás a pôr a mão na frasquinho da poupança.
Beep, Beep, não te incomodes a aceder o fósforo. Este coiote entrou em combustão espontânea.

9 comments

  1. W

    Revejo-me em cada letrinha da tua história. Só não juntei ainda o meu escasso ordenado com um parecido porque não há grandes hipóteses de se conseguir viver com o que recebo. Por agora é ficar quieto e sossegado e esperar que até ao Verão as coisas melhorem para pode finalmente batera a asa para fora do ninho.

    Equacionas a vida lá fora? Ou a teimosia ganha e ainda acreditas que o país merece o que temos para dar?

    • Alexandra

      Teimosa, medricas, apaixonada pelo atlântico, you name it. Acho que para mim já é tarde para tentar uma dessas. Mas tu vai em frente, o meu irmão diz maravilhas da mudança…

  2. a.i.

    admiro-te a coragem para escrever sobre isso – e tão eloquentemente

    eu há cerca de dois anos que ando a tirar de conta-poupança, para as despesas extra para as quais o ordenado não chega, como férias, mobílias para casa.. e foi dinheiro que juntei também quando comecei a trabalhar (estagiária também) e vivia em casa de pais. Incrível como se consegue dizimar uma conta com 4 zeros em tão pouco tempo. E isto para mim é um claro sinal de que nosso país está mesmo mal – se meu salário não chega para tudo o que preciso.

  3. Anna Blue

    Bem-vinda ao circo. Eu já estou de tal maneira “pro” em malabarismos financeiros, andar na corda bamba das prestações e ser tomada por palhaça em processos de insolvência que estou seriamente a considerar uma carreira no circo. Curriculum não me falta.
    Espero que os próximos meses te corram melhor.

Post a comment

You may use the following HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>