O diabo usa ténis

Sou uma fraude. Já há tempos que preencho com mentiras todos os questionários sobre interesses e actividades preferidas para tempos livres. Clico aqui e ali com uma convicção frouxa e fora de prazo:

Clic, clicDesenhar. Mas tu desenhas alguma coisa nos dias que correm, ó rapariga? O teu último diário gráfico fechou-se com estrondo sobre um apressado “Rapto das Sabinas” a esferográfica preta, com data da viagem a Florença de há oito anos atrás.
Clic, clic
Música? Só a que ouves no trabalho e lá se vai metade do prazer com a qualidade youtube e um “phone” só. A Katy Perry nos provadores das lojas de roupa não conta como música.
Clic, clic
Natureza? Ora, deve ser aqui que entra o meu grão, coitado, a esta hora já todo espatifado pela intempérie. Não, a resposta certa seria caminhar, seguir trilhos, subir montanhas, respirar ar puro.
Clic, ClicLeitura? Pois bem. O único clic não fraudulento do rol. Eu ainda leio, muito. E são quase sempre as leituras que me abrem os olhos para toda a sorte de coisas. Coisas como as que fiz e já não faço. Quererá isto dizer que a pessoa que fui já não é? Gostava de clicar aqui em Desgosto, mas a verdade é que o pontinho preto cai antes em Apatia.

 

Desta vez foi um padre escocês que me acordou do torpor, um padre que não acredita em Deus, que corre maratonas e é tu-cá-tu-lá com o Diabo que usa ténis. Um dos meus.
O livro da semana, O Testamento de Gideon Mack, é a melhor coisinha que me passou pelas mãos depois da quantidade obscena de livros de Verão que andei a consumir na falta de melhor. Tem uma história que poderia ser descrita como deprimente, moralista e invernosa, mas que se revela um page turner dos mais virulentos. Já há uns tempos que não me identificava assim com um personagem e não deve ser só o sotaque escocês que lhe imagino (embora isso ajude sempre). Deixou-me cheia de vontade de lhe seguir as pisadas, encontros com o mafarrico incluídos, mas sobretudo as vivências de uma cidade costeira inventada, com os seus pubs, os seus bosques, os seus castiços habitantes.
A Escócia, também ela deprimente, moralista, invernosa (e supersticiosa!), é um dos meus países de eleição e a verdade é que assim que acabei de ler fiquei cheia de saudades. Imaginei-me logo a trepar munros, molhada até às cuecas, como já me aconteceu, geladinha mas tão contente. Foi um instantinho até começar a consultar sites de percursos, mapas florestais e promoções de botas. Soube-me bem.
Não vou a lado nenhum tão cedo, bem sei, mas a semana passada, pelo menos, estive em Ben Adler com o Gideon. E esse clic já ninguém me tira!

E como não fui só eu a gostar desta história, espreitem a crítica mais séria deste querido senhor.

 

 

 

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