O Fred, o Fiat e a Flausina

Eu e o Fred conhecemo-nos dentro do Fiat do meu irmão, no tempo em que ele tinha dois dados cor-de-laranja pendurados no retrovisor e uma flausina de Camarate no lugar do pendura. O Fiat e o Fred abanaram-se em conjunto meses a fio, enquanto o meu irmão cantava “Keep Rolling, rolling, rolling…” e a Flausina rebolava, rebolava, rebolava. Raio de miúda dengosa. Parece-me que se chamava Marlene. Eu ía sentada no banco de trás, a desdenhar daquilo tudo menos da boleia. Não tinha carro, mas tinha a mania. E não achava que o Fred Durst fosse a dádiva de Deus aos revoltados adolescentes tardios.
Kurt Cobain só tinha havido um e lá porque o meu irmão não tinha idade para o apreciar devidamente na altura do seu reinado, não era um adultozeco de boné e calças pelo cu abaixo que o podia substituir.

Olhando para trás, o meu irmão era um puto parvo, os Limp Bizkit eram uma banda parva, mas o meu desdém era tão ou mais parvo que eles. Pondo as coisas em perspectiva, se temos todos de passar por uma fase de música parva quando somos putos parvos, é bem melhor ouvir Limp Bizkit do que Rhiannas e derivados, como fazem os putos de agora. Ou reggae, que parece que é o que mais ouvem, cambada de xoninhas sem atitude. O Fred Durst, caraças, até podia andar com o rego de fora, mas aquela música, apesar de cheia de “scratches” nojentos, tinha testosterona, tinha raiva, tinha qualquer coisa de excitante. Pelo menos foi o que achei ontem, quando dei por mim a navegar no You Tube, trauteando dois ou três refrões do “Significant Other” que ainda me lembro e me soaram bem.
E soube-me bem matar saudades do Fiat, do Fred, da Flausina e da Ferocidade, que tem de estar em toda a música, mesmo na parva.

Já agora: O Fiat um dia foi roubado e apareceu meses depois na Charneca da Caparica com dentadas no volante. A flausina deu com os pés no meu irmão e engravidou em seguida de um tipo que deu à sola assim que soube que ía ser pai. O Fred, esse, parece que ainda para aí anda, mas não sabe fazer twerking.

10 comments
  1. You’re back!

    Eu gostava da sonoridade desses gajos. Mas também nunca neguei as discutibilidade das minhas preferências.

    1. Eu também devia gostar, a algum nível subconsciente pelo menos, ou não teria decorado aquela porcaria toda. Não é normal. Ontem nem me lembrava que estes gajos existiam e hoje sei refrões inteiros. Acho que gostava mais de Korn dentro do leque de bandas do meu irmão. E Deftones. Ainda gosto de Deftones.

  2. Aposto que com este título podias escrever mais dez posts igualmente bons.

    Pensando nessa questão da música e das gerações, acho que Rhianna é bem melhor que Britney Spears, (ou, diria, Limp Bizkit). Já na parte da testosterona, não sei o que andarão eles a ouvir hoje, mas imagino que ouvirão qualquer coisa, talvez “Skrillex”? (uso aspas porque sim). Tento ter sempre tolerância e não ser o velho que acha que “a minha porcaria pelo menos era melhor que a vossa”, mas se isso do reggae for verdade… não sei bem o que pensar.

    1. Sou tolerante com tudo menos com reggae. Não percebo, juro que não, se calhar é coisa aqui da linha, mas todos os estagiários é isso que ouvem. Até no Inverno, pá. Até quando não fazem surf. Já a Rhianna só tem um problema, eu também canto os refrões dela. Andei meses a cantar aquela que tem o Eminem lá para o meio. Gosto muito. E também papo o Skrillex. Enfim, dizia mal do meu irmão porquê mesmo? ;)

  3. grandes malhas, o fred!

  4. A Minhamáivelha era fã. A Minhamáinóva já adquiriu outros gostos. Se eu vos contasse sobre o que gosto de ouvir, perguntar-me-iam seguramente se acendo o lume com duas pederneiras :)

  5. Olha que o melhor que o Significant Other ainda é o 3$ Bill Y’all. Mas sim, na altura, haviam coisas melhores.

  6. o problema é fraca qualidade do que se ouve mais e também das tribos que ouvem isso. O reggae de encher chouriço é mesmo aquilo que se mete no bar da praia a tocar a tarde toda e infelizmente há 500 clones de Bob Marley, o tom é sempre boa onda e cool vibes e paz no mundo e uma pessoa tem vontade de cortar os pulsos. Mas há outro lado… :D

    Echo Minott
    http://www.youtube.com/watch?v=XBt1X1dsrmg

    Lee Perry
    http://www.youtube.com/watch?v=Jy-mSSAnccQ

    Billy Boyo

  7. Insistimos na ausência prolongada!?
    É preciso levar o colega novo a passear?

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