O gerador de expressões incompreensíveis

Coincidências desta vidinha, cheguei a esta provecta fase do meu percurso profissional sem nunca ter deitado a unha a um relatório de contas. Não estava nada ralada com isso, pelo contrário. Qualquer designer vos dirá que, para mal dos seus pecados, este trabalho em particular é o pão nosso de cada dia. E que pão este, amigos, rijo, sem sal, aquilo nem empurrado a tinto escorrega bem.

Coincidências desta vidinha, apareceram-me logo dois de seguida este mês que hoje termina: um relatório de contas nacional e estatal, outro precisamente o oposto. Haja trabalho, é o que eu digo, e mãos à obra. (Não vos interessa nada saber que o segundo tenha sido trabalho pro-bono a favor de criancinhas em África, mas eu conto na mesma).

Enquanto me debatia com os gráficos do primeiro durante o dia, no trabalho, o segundo moía-me o juízo em casa, à noite. Que belo mês! Podia ter perdido a cabeça, mas o que fiz foi reparar numa coisa espantosa:
O relatório de contas nacional, redigido em português de Portugal, era quase totalmente incompreensível para mim, portuguesa de escolaridade superior, pagadora de impostos e a quem o texto deveria de facto prestar contas.
O relatório de contas estrangeiro, escrito em inglês, sobre um assunto que não me é de todo familiar, lia-se que nem a cartilha maternal. Nem o facto de ser de noite e estar já cansada me impediu de compreender sempre o texto na íntegra. Mais, de ser capaz de o reproduzir a amigos que se interessaram pelo tema.

Como fazer o mesmo com o relatório português e as suas portarias, admissibilidades, homologações, requalificações, organismos, memorandos, deliberações, especificidades, bonificações, programas operacionais, SPT, POC, CMM, DGJ e XPT….?
Paginei aquilo tudo, remexi no lodo daquele texto e digo-vos, fiquei na mesma. Parece que têm para lá um gerador de expressões incompreensíveis:
“Olha agora junta aí constrangimento com penalização e um ou dois dispositivos a ver a que é soa”.
Claro que depois disto toda a gente se sente estúpida e ninguém quer mais saber de contas nenhumas. Até podemos estar a falar de dinheiro do monopólio que para nós é igual.

Isto fez-me pensar na demanda de uma senhora chamada Sandra Fisher Martins e desta TED TALK a que ouvi há algum tempo.
Vale a pena clicarem para ver, se tiverem tempo e curiosidade sobre este tema do direito à compreensão.

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Adenda: O tal gerador sobre o qual especulei, existe mesmo! A Anna Blue já o conhecia e mostrou-mo aqui em abaixo nos comentários. Ora vejam lá:

http://www.calixto.com.br/textos/embromation.pdf).

14 comments

  1. Infinitiva

    Durante uns tempos o Diário da República teve os decretos-leis precedidos de um “resumo em Português Claro”, feitos por esta empresa. Quando chegou o Passos Coelho acabou com isso porque “a lei já deve ser clara”, o que é uma justificação que faz muito sentido… Pena é que as leis continuem a não ser claras!

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