O meu nome é Alexandra e já fui benfiquista

Todo o bom blogger, como todo o bom chefe de família, deve ser do Benfica. Ou assim me tem constado. É por isso que, como aqui fiz, volto a meter o bedelho num assunto que não domino, não me interessa e que até desprezo um bocadinho. Senhoras e senhores, a minha História do Benfica, numa edição não revista nem verificada (começada ao minuto 27 do BENFICA – NACIONAL deste sábado, na tentativa de matar o tempo até aos 90.):

Em minha casa os jogos do Benfica sempre foram seguidos com devoção e espalhafato. Tenho a certeza que em algum ponto da minha existência devo ter concluído que “filho da puta” era gíria futebolística para “árbitro”. Ou “treinador”, ou “ponta de lança com má pontaria”, ou “guarda-redes desastrado”. Para a minha mãe e para minha avó, diabas vermelhas em potência, na falta de golos, muito pouco se podia perdoar às 22 almas que se degladiavam por elas no relvado. Polegares para baixo, sempre. Que no tempo do Eusébio é que era bom. E do Torres. E do Águas.

Também eu entrei no jogo delas e arranjei um Águas de estimação. O meu Ruizinho. Não me deixava ficar mal, o rapaz. Capitão de equipa, marcava quase todas as semanas e tinha pinta de bom rapazinho (estávamos a anos luz do estereótipo do futebolista fashion manhoso a armar aos cucos).  A minha mãe aprovava e tudo: tinha ido em criança dar um beijo ao pai dele na Catedral,  pela mão do meu avô. Estava tudo em família.

Depois interessei-me por gajos louros. Usava-se nos anos 80. Flash Gordon, Lagoa Azul, George Michael, o Ricardo lá escola e… a tríade escandinava: Mats Magnusson, Jonas Thern e Stefan Schwarz forravam todos os meus cadernos. Magnusson em particular. Escrevo-lhe o nome e ainda tremo. A época dourada do Benfica foi do tom dos cabelos dele. Por uns tempos, fui o mais fanática que era capaz. Até sabia o que era um fora de jogo.

Ora o fanatismo tem consequências e no meu caso uma bem clássica: ódio visceral ao arqui-inimigo, o Dragão. Com o Sporting, sempre simpatizei – tinha lá aulas de ginástica, mas os tipos do Porto… enfim… escumalha da pior. E traiçoeiros. E gatunos. Num dia negro para a minha existência, levaram o Rui Águas para aquele antro de iniquidade a que chamam cidade invicta. Filhos da puta, como diria (e disse) a minha mãe.  E o Benfica que permitiu a catástrofe? Et pluribis quê? Desterrado o unum, o futebol para mim acabou. Em baba, ranho e posters rasgados.

Fui incapaz de perdoar esta afronta tanto a uns como a outros. Deixei de ser do Benfica, claro, cortei relações com o Rui Águas, óbvio, e jurei nunca pôr os pés no Porto. Diverte-me lembrar que, dois anos mais tarde, a regressar do Minho, atravessei a Ponte da Arrábida de olhos fechados para não me deixar conspurcar pela visão da cidade maldita. Diverte-me ainda mais admitir que, uma década depois, quebrei o meu voto e fui mesmo ao Porto, de olhos bem abertos, apaixonar-me pela cidade e por um nativo, que felizmente era do Benfica e se riu muito com esta história.

Hoje, embirro com futebol mas, faça o que fizer, não consigo deixar de estar rodeada de benfiquistas. Raça de gente, estão por todo o lado. Obrigam-me a ver jogos ao jantar, dão-me bilhetes para ir ao estádio, oferecem-me canecas com águias. E como uma ex-alcoólica, tenho de me forçar a não alinhar com eles, a não saber os nomes dos jogadores, a não me interessar se estão à frente no campeonato. A não voltar a ser one of the boys.

Mas o meu inconsciente prega-me partidas e não são raras as vezes que pergunto a quem está a ver um jogo: Já marcámos? E rejubilo secretamente porque este ano vamos à frente.

Ah, e ganhámos 4 a 1. Sem itálico, pronto.

14 comments
  1. Parou tudo de emoção, não consegui ler mais nada a partir do Mats Magnusson… Colecções de calendários, recortes de jornal..muito eu suspirei por esse loiro com quem havia de ter bebés branquinhos e de olhos azuis. É uma pena que o Mats agora seja como a Vera do Trollofthenorth ( :p ): uma recordação balofa e luzidia das minhas borbulhas pré-adolescentes.

    1. Nem me atrevo a googlar. Preciso que ele fique intacto na minha memória. Eu sabia que não podia ter sido a única!
      Temos de parar com isto de partilhar comboios e gajos, pá.

  2. pronto, vamos cortar relações. cidade maldita????????????
    não estivesse eu a apanhar o solzinho toscano (agora é mais neve, mas pronto), e ficava sentida :P

    sou do Porto e do FCP. sem fervores nem paixões, pelo segundo. pela cidade tenho todo o amor que se pode ter por um sítio que nos crescer… e que esconde segredos em cada fachada, ainda hoje.

    ;)

    1. Dá-me um desconto, eu tinha uns 11 anos e estava muito zangada! Hoje em dia é uma cidade que adoro. Já o FCP. Não, não, não…. mas a culpa acho que é do Pinto da Costa. ;)

  3. Sou meio contra, meio a favor. Isto é, sou do Sporting – mas nunca morri com as derrotas do clube, como se pode verificar – e só te posso dar os parabéns por teres beneficiado dos superiores ensinamentos sportinguistas nas tuas aulas de ginástica, de certeza o melhor período da tua vida. Sou a favor, porque também não gosto do clube dos morcões, mais o seu papa (e bispo e acólitos – abomino mesmo acólitos seja do que for) e todas as trapaças que os rodeiam e que conspurcam os ares da cidade que os acolhe.
    Ah! E também nunca me apaixonei por qualquer jogador de futebol. Nem do Sporting. Livra!!

    Vic
    (aruainclinada.blogspot.com)

    1. Ah, ah, ah! Fizeste-me rir várias vezes no mesmo comentário. Não é para qualquer um, eheh!
      Não lhe chamaria o melhor período da minha vida – gozavam comigo por ser a miúda mais alta da turma, punham-me sempre cá para trás nos saraus, para não tapar as pequeninas, não conseguia fazer a esparregata e ficava hedionda de maiô verde. O leãozinho pregado no braço não me incomodava assim tanto.
      Tive uma leve simpatia pelo Cadete, no que toca homens do Sporting. Medo.

  4. Não se brinca com a religião. Não com esta. :)

    O Magnusson anda por lá outra vez. Grande, tosco, mas a marcar golos que se farta. Só não é louro.

    1. Tens de me traduzir isso. Não estou familiarizada com o plantel actual, Há lá um Magnusson, é?

      1. “Tenham cuidado.
        Ele é perigoso.
        Ele é o Óscar Tacuara Cardozo.” :)

  5. Referindo o teu nome/blog, tive de colocar o último parágrafo no meu FB. Não sou nada de futebol, blerg, tédio, mas o meu Benfica está a ganhar tudo este ano.

    1. Obrigado!!!

  6. Que bom este post, cheerio.

    1. Isto no ínicio tinha muito mais nível… :)

      1. isso não sei, mas isto é praticamente um Portuguese Epic (amor, futebol e família), só falta a religião que não faz falta, e eu nem sou do Benfica. :)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.