O meu subúrbio é melhor que o teu

Antes de apanhar a violenta gripe-ou-faringite-ou-constipação-ou-lá-que-raio que pregou comigo na cama durante este controverso Entrudo, em que uns trabalharam e outros nem tanto, estive presente num jantar de grupo. Era um evento ao qual não me apetecia muito ir por três motivos: Um, o grupo não era meu, só lá na estava na qualidade de plus one, como se diz nas séries americanas; Dois, o restaurante era um daqueles buffets brasileiros onde o mais certo é sairmos de gatas com o bucho a rebentar de tanta carne vermelha ensopada em cachaça; Três, o dito restaurante era em Odivelas – eu nunca lá tinha ido nem tinha desejos disso.

Fui capaz de ultrapassar os dois primeiros motivos de repúdio com surpreendente facilidade. Afinal, era Carnevale, viva a maminha gaúcha, e não levei a mal que as outras plus one passassem a noite toda a falar dos seus gatos como se fossem bebés e dos seus bebés como se fossem gatos. Não consigo seguir este género de conversa durante muito tempo, mas julgo que me saí notavelmente bem a demonstrar interesse, enquanto empurrava tudo para baixo a goles de sangria.

Já com a vista um bocado turva, pus-me a olhar à volta, uma actividade que aprendi com a minha avó paterna, mas que aperfeiçoei com os anos. Ela faz jus ao título de coscuvilheira-mor, já eu sou bem mais discreta, mas chegamos as duas onde queremos. Neste caso eu até já lá estava – motivo número três. Terreno fértil, Odivelas. Que exótica fauna por ali se passeava, de prato na mão a rondar o buffet. Saias curtas a esmagar barrigas gelatinosas, pregas de carne a saltar de costuras várias, cabelos artísticos cheios de “geles”, ténis néon-incandescente, botinhas de travesti com brilhantes, casaquinhos tigresse, gargalhadas demasiado altas, demonstrações explícitas de afecto, vómitos lá fora no alpendre…

E eis que me dá para o preconceito e me sai uma enormidade em forma de suspiro: “Esta gente dos subúrbios…” Deve ter sido da sangria. Então não sou também eu gente dessa? Às vezes esqueço-me. Como só lá vou dormir e nunca tive um casaquinho de pele de bicho… Até parece que no meu subúrbio somos todos lindos e bem educadinhos e não mostramos o rabo na via pública. Outra margem, same shit. Pronto, está dito, confessei. É que pelos vistos sou bairrista nisto do subúrbio. Sim, Odivelas, nós temos outro nível, pá. Amadora, leiam e chorem, nós temos uma canção e tudo. Nós temos o deserto, nós temos o mar, nós temos o Cristo Rei.

P.S.: Para que conste, achei a canção do Unas medonha e mesmo exagerada, mas levei a coisa com o meu imenso sentido de humor… Ah, e o meu subúrbio é mesmo melhor do que o teu.

A imagem aí de cima, tem fauna obviamente mais estilosa que aquela que encontrei, é claro, ou não fosse do grande Jordi.

37 comments

  1. Rachelet

    E nem Odivelas nem nada na Margem Sul batem o berço do saloio: Loures. Aliás, Odivelas pertencia à CM de Loures, essa é que é essa!

    Como boa ex-suburbana, digo-te ademais que a capital também não tem espécimes “todos lindos e bem educadinhos”, até porque, a bem dizer, durante o dia, é povoada pelos suburbanos e durante a noite, são as velhas razinzas e os drogaditos.

    E queres música mai linda que o «é movimento, é Loures! é progresso, é Loures! É emoção – éééé Loooooures! É alegria, é Looooures!». Caramba, com os Parabéns e o Dartacão, são as únicas letras de música que sei de cor.

    • Alexandra

      Loures é fixe, estive para incluir no Post e tudo, mas depois lembrei-me das trouxas da Malveira (também pertence a Loures, não é?). Saloiada é comigo. Dartacão também. Tenho aquele vinil que no lado B tem a canção toda “ladrada”.

      • Rachelet

        Ai, também tive esse disco (45 rotações)! O lado B era para o karaoke e na contracapa tinhas a letra.
        Um dia que (sabe deuz porquê) passes por Loures tens de parar uns minutos para apreciar o cúmulo do kitsch que é a estátua dos saloios no jardim de Loures. Nesse sítio os noivos costumam fazer aquela foto típica com os convidados todos. Desde que lá puseram a estátua, dá ideia que há sempre um par de penetras nas fotos da boda.

    • VdeAlmeida

      Olha a minha sorte: sempre vivi em Lisboa. E em bairros finos. 1º no Largo do Rato (e não, nunca me dei ao trabalho de procurar a origem da toponímia, e se também há alguma travessa da Rata), e desde há bastante tempo, na Lapa, rés-vés a Madragoa. E olha que por cá também se vê alguma fauna dessa, embora que para os ver tenha que me deslocar um pouco até ali ao Príncipe Real, que aqui é tudo muito discreto (e ainda bem, que eu também sou muito pacato).
      Mas tenho família a morar em Odivelas e só te digo é que cada vez que lá vou, mal chego a minha vontade é voltar disparado para casa.
      Ao menos a margem sul sempre tem as belas praias ali ao pé.

      (as melhoras!)

  2. ml

    a terrinha de onde eu sou tem uma quantidade de unhas de gel mal feitas incrível. e azeiteirices. e gunada. mas, ainda assim, na festarola as farturas e os cachorros são melhores que os outros todos. e a broa. ah, a broa ;)

  3. Sofia

    Também eu, ex-suburbana, me confesso. Antes de morar na Grande Alface, ia e vinha todos os dias, se necessário. Dizia mal das pessoas alfacinhas para quem, passar a ponte era assim um esforço colossal comparado à meia-maratona. Mas no outro dia, em conversa telefónica com a minha mãe, sai-me qualquer coisa do género “Ai, eu até ia aí, mas é tão longe…”. Estou a ficar uma snob, igual a eles.

    Gosto muito do teu blog, Grande.

    • Alexandra

      Obrigado, e eu gosto do teu (espreito-o de vez em quando). Sou alfacinha de nascimento, suburbana por vocação… só pode. E essa coisa do “que longe que é”, oiço dos meus amigos todos e não te perdoo. ;)

  4. Ana

    Ora pois que eu, sendo menina de Odivelas criadinha há 34 anos por aqui, tenho que me manifestar…. Respondendo à Rachelet: Graças a Deus que lá conseguimos há uns anos passar Odivelas a concelho!! Tenho pavor de Loures para ser sincera, se bem que lá ande muito vez por necessidade.
    E respondendo também ao (à?) VdeAlmeida: parece-me que falta conhecer o que de bom Odivelas tem ou essa vontade de fugir não apareceria :)
    Quanto ao buffet onde a Alexandra esteve presente (isso não foi na 2ªfeira não?) vê-se tanto aqui como em qualquer outro lado, se bem que demos sempre mais atenção quando não estamos em “casa”. Espero não ter sido uma das visadas desse ataque se bem que por norma, e o Carnaval não é excepção, a minha “barriga gelatinosa e as pregas de carne” andem bem escondidinhas e disfarçadas! :)
    E adorei o post a propósito! Assim como todo o blog do qual fiquei fã…. da próxima vez (se não estiveres muito traumatizada e voltares a Odivelas) avisa que pode ser que se arranje um sitio ainda melhor para dares largas a esse teu “estudo da gente dos subúrbios” ;)

    • Alexandra

      Bravo! Fazia aqui falta o artigo genuíno, bem vinda Ana, menina de Odivelas!:)
      Não foi segunda-feira, e a barriga não seria a tua, se a trazes escondida (nada tenho contra barrigas, prefiro é não ter de as ver à refeição..)
      Muito obrigado e havemos de marcar um cházinho em Odivelas um dia destes – lembrei-me agora que escrevi em cima uma mentira sem querer – já estive uma vez no Parque da Cidade e gostei!

    • VdeAlmeida

      É ao, Ana, V de Victor (ainda sem o acordo ortográfico e ainda bem, porque há quem me chame Vic e se o c cai, fique um bocado sem graça). Quanto a Odivelas, infelizmente tenho motivos pessoais que me fazem gostar pouco de alguma dessa fauna de Odivelas de que fala a Alexandra.
      Mas é claro que nada é definitivo e as coisas menos boas vão-se esbatendo com o tempo :)

  5. W

    Quando morei no centro da capital também fui a um buffet desses e pensei para comigo «NUNCA MAIS!». Tenho conseguido manter essa promessa.
    Já agora, tens a certeza que não entraste numa tenda de circo em vez do buffet? Com tanta tigress e brilhantes…

  6. Ana

    Obrigado pelas boas-vindas! :)
    Para que conste o Parque da Cidade é Loures e deve ser dos poucos sitios que ainda se aproveitam por ali. Não sei se há cházinho por lá mas há uma casa de chá em Odivelas muito jeitosinha, é só marcar! ;)
    E eu estou como tu, nada tenho contras barriga a não ser contra a minha que não me larga, mas do mesmo modo prefiro não as ver! :D

  7. Ana

    Victor, como em tudo há coisas boas e más e eu não também não gosto dessa fauna que a Alexandra fala, mas aprende-se a ignorar o mau e a aproveitar apenas o bom! Da minha parte, que sou muito “bairrista”, digo que não até à data não conheço melhor sitio para morar! Espero que essas más lembranças se desvaneçam e possa um dia aproveitar a minha terra! :)

  8. Há um subúrbio incomparável, que é a linha do Estoril (considero-a um único grande subúrbio). O pessoal tem algum orgulho em auto-intitular-se betinho, mas só porque se faz um uso abusivo do título “Estoril” quando na prática isso significa Oeiras, Tires, Bobadela, e porque há alguns bairros de moradias geminadas entre as densas plantações de cogumelos habitacionais dos anos 70 envoltos em rotundas com fontes luminosas e esculturas ordinárias. É difícil encontrar subúrbio com uma fauna mais jardim-zoologicamente forçada a misturar-se, que deu origem a 2as e 3as gerações assustadoramente miscigenadas, entre betos e pessoal das barracas. Eu pertenci a este subúrbio até aos meus 23 anos, e assim que pude mudei-me para passar a gozar com a suburbana da minha mãe. Como diz o ditado, podes tirar o gajo do subúrbio, mas não podes tirar o subúrbio do gajo.

    • Alexandra

      Agora é que disseste tudo e muito bem dito. Conheço bem o interior desses concelhos à beira mar plantados e… é o degredo!
      Bem vindo, Zé, costumo usar essa tua última frase muitas vezes.

  9. bluesy traveler

    Ora bommmm: moi même, saloia, nascida e criada na Malveira (a dos bois e da feira), muito ano de convívio com a gente de Mafra, Loures and so on, os betinhos de Torres Vedras e os jagozes da Ericeira. Há largos anos a trabalhar com alfacinhas que não sabem o que é um rabanete e a morar actualmente no “subúrbio incomparável que é a Linha do Estoril”. Melting pot é pouco. Estou apta para dissertar sobre todas estas faunas.

    • Alexandra

      Betinhos de Torres Vedras… primeiro estranhei, depois veio-me uma centelha de reconhecimento. Tive uma na faculdade. Caso muito curioso.
      E tanto saloio que me aparece a comentar este post. Vocês são uma imensa minoria. Respect.

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