O Monocromático Rapaz do Pompom


Calhou olhar hoje por mim abaixo e reparar que as coisas mudaram e eu não dei por isso. Ou se calhar até dei mas apeteceu-me fingir que não, para não ter de pensar muito nos conceitos de Mudança e de Tempo que, vendo bem, são duas coisas que assustam como o caraças..

No meu ano de caloira havia na minha turma de geometria um rapaz com um pompom de cabelo perfeito na nuca: negro, espesso, redondinho, a roçar a carapinha. Um rabo-de-cavalo assim queria dizer uma coisa e só uma, que o seu dono sublinhava a negro, para que não restassem quaisquer dúvidas, com umas justíssimas calças: estávamos perante um metaleiro. E dos bons, se querem saber. Nunca uma pinga de cor lhe pousava no corpinho e jamais um refrão pop lhe conspurcava os ouvidos, sem que ele o esconjurasse com a repulsa dos que podem.

Tudo nele era monocromático e monocórdico como um videoclip doom e nem os sorrisos eram esbanjados por dá cá aquela palha. De phones nos ouvidos, guturais e pedal duplo a misturarem-se num zumbido cacofónico, entrava na sala de olhos no chão e dedos longos a arrancar um estalido ao botão do stop. (Escusado será dizer que isto era no tempo em que havia botões que davam estalidos e aqueles objectos bizarros chamados cassetes).

Também parcimoniosa no capítulo da simpatia, embora por razões de carácter mais misterioso, eu sentava-me muitas vezes na cadeira ao lado da dele, às sextas à tarde, sem que o nosso diálogo fosse além dos queixumes que a dificuldade dos exercícios nos forçava a emitir. Já as intersecções dos cones com os paralelípipedos projectavam sombra nos planos horizontais e nós nem os nomes tínhamos ainda trocado.

Ora acontece que eu, nessa altura, andava com sérias aspirações à classe dos metaleiros, não o demonstrando, no entanto, de forma tão eficaz como o rapaz do pompom. Roupa escura, cara de má, risco ao meio e pouco mais. Acontece também que, como dizê-lo…? …As minhas hormonas adolescentes andavam com ainda mais sérias aspirações a qualquer coisa e o rapaz, não sendo exactamente o meu tipo de rapaz, era, inegavelmente, um Rapaz.

Um dia, enchi-me de coragem, pousei a minha Rotring e perguntei-lhe o nome do zumbido que se lhe escapava dos phones. Era “Paradise Lost”, um álbunzinho chamado Icon, e parece-me que estou a ver de novo o sorriso súbito de boas vindas com que ele acolheu o meu reconhecimento da obra (prima – reconheço hoje). Sucesso! Consegui não denunciar a minha ignorância – apenas conhecia uma musiquita daqueles rapazes – e ainda impressioná-lo com os meus vastos conhecimentos, para uma rapariga aspirante a metaleira, de bandas mais obscuras. A confiança que se tem aos 18 aninhos.

Desta primeira conversa resultaram uma série de coisas engraçadas: Na aula seguinte trazia-me uma compilação, gravada especialmente para mim, com uma selecção do que melhor se fazia na época com guitarras e gajos cabeludos; na semana seguinte tinha um novo companheiro para a jardineira das sextas na cantina; no ano seguinte fomos juntos à primeira edição do Festival Sudoeste, onde desfalecemos de emoção perante o Anticristo, ele mesmo, o Sr. Marilyn Manson.

Mais importante, e o motivo desta conversa toda, nos quatro anos seguintes assisti de camarote à Mudança.

O monocromático rapaz do pompom, que dizia que o preto era um modo de vida e não uma moda, apareceu um dia com uma t-shirt cinzenta. Respondeu à minha provocação que 80% de preto era ainda preto – preto ruço, vá. O pompom desapareceu de seguida, vítima infeliz do barbeiro do bairro, e os 20% de cabelo restantes já não se aguentaram tão bem à desculpa de que “o gajo dos Paradise Lost também cortou o dele”.

Mais tarde, durante os exames finais, quer-me parecer que o vi de azul petróleo e mais para o Verão, de verde tropa. O sacrilégio.

E foi assim que o Modo sucumbiu à Moda. Devagar, muito devagarinho, sem sequer doer.
Foi nisso que reparei hoje, quando olhei por mim abaixo e me vi de rosa-velho, sem saber já decor nenhum refrão de Paradise Lost. Devagar, devagarinho, todo o meu preto se sumiu, o da roupa, o das canções e até o do cabelo do rapaz, que não resistiu à passagem do tempo e deslizou para a lista dos amigos esquecidos.
Sem sequer doer.

9 comments

  1. Rachelet

    Se te consola, ainda ontem estive a recordar a minha fase Hardcore (hoje, expressão utilizada exclusivamente para pornografia, mas back then, todo um estilo de vida à la Korn, Deftones, Ratos de Porão para cima).
    Quando me lembro do cabelo à pente 4, calças largachonas e camisas da tropa surripiradas ao meu pai, pergunto-me porque será que foi justamente essa a minha fase de maior sucesso com o sexo oposto?

    • Alexandra

      Hardcore, sim, sim conheço bem. Deftones rules! Korn era mais o meu irmão.
      Tocaste num ponto chave com essa coisa do sucesso com o sexo oposto. Ele há coisas. Back then, parafraseando a tua pessoa, eu nuuuuuunca cortava o cabelo nem largava as minhas doc esfoladas. Também surripiava coisas mas era à minha avó que enviuvou muito cedo e tinha lindos casaquinhos pretos bem jeitosos a cheirar a naftalina. E eram resmas de gajos. Este da história por acaso não. Também era magro demais.
      Bem vinda, Rachelet!

  2. Rachelet

    Obrigada.
    De facto, agora que me emboneco (até faço umas tentativas de risco nos olhos, que duram só o tempo de chegar aos sítios antes de ficarem todas esborratadas) e visto coisinhas mais femininas e tal, cadê? Verdade que agora os moços que na altura me agradavam pouco ou nada me dizem, mas… bolas! Que saudades de sair de um e entrar noutro!

    {Ok, como é que uma pessoa subscreve os comentários nesta tua interface (<- tentativa 3. estava difícil não escrever 'infertace')? }

  3. Alexandra

    Ó mulher, e eu sei? Esta coisa mal tem uma semana e é uma sorte eu já ter percebido como é que se põem os artigos. Mal descubra comunico. Também não sei como é que sigo os comentários noutros blogs, ando feita parva a segui-los à unha.

  4. Rachelet

    Bom, os do blogger é fácil: quando abres a caixa de comentários, os mais antigos (como o meu) têm em baixo um quadrado que assinalas para receber notificações de mais comentários a esse post; os blogger mais recentes têm um link para o mesmo efeito que diz “Subscrever yadda yadda” em baixo da caixa onde escreveste o comentário.
    Os do wordpress têm um quadradinho para assinalar também que diz “Quero ser notificado blabla” – depois tens a chatice de ter de confirmar no email que te mandam que sim, queres meeeesmo seguir aqueles comentários, não foi engano.

    Rache. Uma década a perder tempo cuscar a Internet.

  5. Menino de Sua Mãe

    há quem mude mais por fora que por dentro.
    conheço alguns que não mudaram: para os quais hoje olho e vejo barcos fundeados num cais de há décadas, já sem estrutura para se fazer ao mar.
    outros cresceram, com ou sem bandeiras pretas.
    (digo eu, que ainda ouço Xmal Deutschland)

Post a comment

You may use the following HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>