O rabo vai acampar

O rabo já não acampava há meia dúzia de anos. Antes disso, parte das suas férias anuais eram passadas no monta-desmonta típico de um acampamento de road trip. Não havia cá tendas-cozinha, tomadas de electricidade, avançados, tapetes ou estendais. O rabo só precisava de um tecto impermeável, um colchão insuflável para não ficar dorido e um saco cama para dormir quentinho. As noites numa tenda podem ser inclementes para um rabo desprevenido e este não era nada disso. Levava até outro rabo amigo para ter onde se encostar. Este rabo sabia bem o que fazia e o que queria. Estrelas à noite, cheiro a terra húmida de manhã, quilómetros e quilómetros calcorreados durante o dia. The simple pleasures of life, como diz outro rabo bem jeitoso.

Depois o rabo lembrou-se de experimentar hotéis. Meneou-se por resorts all inclusive, abancou-se em turismos rurais pipis, assentou arraiais em solares upa-upa e, vergonha das vergonhas, até num belíssimo cinco estrelas se alapou (resultado de um prémio para rabos literários, é certo, mas mesmo assim…)! Estava feito um rabo finório, cheio de manias, a dar-se ares (e gorgetas!). Começou a usar rendas, a preferir louças de sanitário italianas e a engordar um nadinha, com tanto suminho de laranja de beira de piscina. Contudo, não era um rabo feliz. Às vezes sentia falta do cheiro da madrugada, das canções dos passarinhos, do som do fecho da tenda a correr à noitinha: “ZZZZZZZZZTT!”. Começou a ficar triste, ansioso, a coçar-se aqui e ali. Os estofos cinco estrelas de repente faziam-lhe alergia. As espreguiçadeiras davam-lhe comichões. Ansiava pelo terapêutico chão duro da tenda, por umas cuecas de algodão e… imagine-se, até por um duche em chinelos num balneário público!

O rabo julgava que não acampava há meia dúzia de anos, mas ao fazer contas, tornou-se evidente que era bem mais que isso. Tão evidente, aliás, como o cheiro a mofo no interior da sua negligenciada tenda. Assim que a atirou ao ar, no Parque de Campismo da Cerdeira, no Gerês, o rabo ouviu-a suspirar de alívio enquanto se erguia sozinha (como não adorar as tendas 3 segundos da Decathlon?). Foi um suspiro malcheiroso, aquele, mas trazia misturado o inconfundível odor da aventura. Mal a deixou arejar, o rabo arrastou-se lá para dentro e sorveu o ar com delícia. Depois sentou-se à porta a olhar para as copas das árvores e bebeu suminho de laranja pelo cantil. Quando se levantou, ai! Acabou-se o idílio. Aí é que foram elas. Reumático, rabo? Já?
É bem feito. Agora aguenta-te que não hás-de voltar a ter almofadinhas de veludo tão cedo.

13 comments

  1. Smelly Cat

    Opá, que post lindo! Adorei este rabo, salvo seja!

    Pois eu tenho um rabo chique que nunca conheceu nenhuma tenda ou parque de campismo. Pronto, também nunca viu nenhum hotel de 5 estrelas e muito menos um resort de luxo, mas lá chegaremos!

    A mim o que me faz comichão, mais do que o dormir no chão (que já dormi) são 1) as bichezas rastejantes e 2) as “casas de banho” públicas!

    • Alexandra

      Obrigada! As bichezas nunca me entraram para a tenda, felizmente, já as casas de banho públicas… que remédio. É andar sempre com um pacotinho de lenços de papel na mão e aguentar.

  2. Menino De Sua Mãe

    Entendo-te bem. Em outras épocas tambem fui mais dado aos prazeres silvestres. Entretanto parece que fiquei arraçado de Princesa-E-A-Ervilha e tenho andado distante. Dizem que é duro viver com certas memórias. Eu acho é que certas memórias é que são duras! :)

    • Alexandra

      Ahahaha, arraçado de Princesa-E-A-Ervilha! Que lindo! Eu por acaso tinha uma raíz debaixo do colchão, nada que a minha pele suburbana não aguentásse.
      Quanto às memórias tens toda a razão e ainda acrescento esta, são bem mais duras do que nos lembramos delas. São os filtros a funcionar.

  3. Wallis

    ahahah
    eu já acampei aí!
    Só não detestei porque fui com boa companhia e era verão e tudo era lindo e maravilhoso, a natureza e tal. Ao fim de uns anos fartei-me dessas aventuras: levantar à noite para ir ao WC, tomar duche de água fria (supostamente era quente), as melgas, montar e desmontar tendas (num minuto o caraças) e isso tudo.
    isso explica aquela tua dor do teu post anterior, então?
    :)

    • Alexandra

      Eu acho este parque lindo e maravilhoso, a sério! É bem capaz de ser o melhor parque onde já estive, Verão ou não. Para mim tem de ter floresta dentro do parque e este tem.
      E a água estava quentinha. Quanto ao xixi da noite, bebi poucos líquidos ao jantar e aguentei-me (por acaso tinha medo disso… não há pachorra para sair do quente… mas acordei cedíssimo).

      A dor no Vegeta é mais rídicula: dois episódios seguidos do “Breaking Bad” no sofá… toda esparramada… ou então… abdominais à bruta com orientação deste gajo. Ainda não apurei bem.

  4. Sue

    No que toca a hospedagem felizmente gosto de tudo. Do bom e do melhor, do selvagem e do menos selvagem. Normalmente acampo um fim de semana por ano e mesmo eu que me recuso a ir às casas de banho num festival, é coisa que não pesa neste rabo num parque de campismo. Adoro, adoro, adoro. Acho que há momentos para tudo, para o hotel de 5* e para a tenda de 3 segundos ;) Btw tb tenho uma dessas e é realmente uma das melhores invenções de sempre :)

    Adorei o post, é por este e por outros do mesmo nível que o teu blog continua na minha pequena lista de favoritos ;)

    Beijinhos

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