O sabor dos livros

Se há coisa que gosto nesta vida é de leituras. Depois, também gosto muito de comer. Somando o útil ao agradável, sou muito feliz a ler sobre comida. E não estou a falar de livros de receitas, não senhor, embora também goste desses, refiro-me mesmo a livros com personagens que… comem. Quando mais gulosos, melhor. Maior é a varidade de “sabores”.
É bizarro, mas qualquer alimento que apareça descrito num livro me parece delicioso de uma forma dolorosa. Às vezes até sei que não é, já o provei e não aprovei, mas assim lido, sabe-me pela vida. Estão a ver quando imaginamos o aspecto das personagens? Eu imagino também os sabores das coisas que elas comem e é como se comesse com elas. O problema é que a maior parte das vezes não há correspondente real para o sabor imaginado. Papas de aveia com mel, por exemplo. Até gosto, pois gosto, mas não há meio de me saberem ao mesmo que aquelas papas que os três ursos deixam a arrefecer, no dia em que a Caracolinhos de Ouro lhes entra pela casa a dentro. Essas são uma maravilha!
Saltemos dos infantis para os juvenis. Estão a ver “Os Cinco”? A minha mente esfomeada salivava de cada vez que lia as copiosas descrições da Enid Blyton daqueles festins campestres ingleses. Banais tomatinhos assados sobre fatias de pão caseiro com ovos quentes parecia-me que haviam de saber a ambrósia. Leite espumoso acabado de mugir, que tenho a certeza me faria vomitar, era ali naquelas páginas uma coisa doce e cremosa. Irresistível! E a pasta de anchovas com que as meninas do “Colégio das Quatro Torres” barravam as torradas depois dos jogos de lacrosse? Adorava-a! Mas a minha versão nem sequer sabia a peixe… possivelmente porque ao ler sobre tal iguaria eu ainda não sabia o que era uma anchova.
Na minha vasta experiência destas coisas, há só uma única coisa que consegue ser melhor comida que lida: a manteiga de amendoim. Muitas vezes lambi eu os beiços enquanto aquelas heroínas juvenis americanas barravam as suas sanduíches à pressa, antes de saírem de casa para descobrir que o vizinho da frente era ladrão de jóias. Mas muito mais me deliciei quando um dia convenci a minha mãe a comprar um frasco da substância, cara e de aspecto duvidoso. Não sabia a manteiga de amendoim lida, mas era tãaaaaao boa! Obrigado, Patrícia, Nancy Drew e amigas. Não conheço mais ninguém que goste daquela mistela, mas eu não seria capaz de viver sem ela!
E agora queriam exemplos de leituras mais refinadas? Pois não me apetece. Escrever este bocadinho deu-me fraqueza. Não querem lá ver que as iguarias escritas também sabem bem?

(Deu para perceber que isto da dieta foi chão que deu uvas?)

7 comments
  1. Alexandra, eu sentia exactamente o que descreve ao ler as descrições das iguarias nos livros dos “Cinco” e nos da “Patrícia”! Nunca tinha comentado com ninguém, achava uma coisa minha e incompreensível para os outros. :-)
    Quanto a leituras mais refinadas, que tal o “Como água para chocolate”?
    Abraço e boa continuação, gosto de passar por cá.

    1. Ora, essa podia ser a segunda parte deste post! Tentar cozinhar coisas que lemos nos livros! Ainda não me atrevi a fazer aquele “Mole”, mas tenho tanta vontadinha… Esse é um exemplo muito guloso.:)
      Obrigada e trata-me por tu, por favor, que eu não sou assim tão velha.

  2. e os banquetes no Astérix?
    :)

    1. ah!!! Aqueles javalis douradinhos!! Nunca comi nada assim… São óptimos!

  3. Se a dieta foi chão que deu uvas, que ao menos se aproveitem as mesmas para um jarro de vinho.

    (não é preciso ser de marca, cenas rústicas também abrem o apetite)

    1. E digo-te mais, ultimamente, as marcas andam-me a fazer azia. Da real e da psicológica.

  4. […] aqui que relacionamos esta história com o meu post anterior. Às vezes “provo” comida nos livros e esta sabe-me tão bem que tenho de a cozinhar […]

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