Os antepassados desertores e as Latkes

Quando eu era miúda, o meu pai provocava-me dizendo que tínhamos algures na nossa linhagem um antepassado mouro. Inventava uma história rocambolesca sobre um pobre maometano de turbante branco, fugido de um exército desbaratado por algum dos nossos Afonsos ou Sanchos, na reconquista. Na minha cabeça, a cena acontecia à vista das muralhas de Serpa (?), com uma moura encantada a assistir de balcão. A pobre desfazia-se em lágrimas ao ver que, na planície cá em baixo, uma roliça camponesa alentejana recolhia o infiel e lhe dava enxerga, mesa, roupa lavada e… descendência. A história até era bonita e eu podia muito bem ter crescido a acreditar nela, não me contasse o meu pai outra exactamente igual sobre um refugiado celta (ou visigodo, nunca se apurou ao certo…). Esse desgraçado nórdico, acossado pelos romanos, ter-se-ía deixado ficar pela Lusitânia à guarda de outra camponesa roliça, até sair responsável pelos olhos azuis da minha avó.
Destes meus dois antepassados desertores, o mouro era o que tinha genes mais fortes, está bom de ver. De lábios cheios e olhos escuros, a pequena moura que eu era não lhe perdoava a desfeita. Nem ao meu pai, por insistir nestas historietas. Eu só queria ser portuguesa, sem mais. Não percebia que saber nadar numa imensa caldeirada genética era o requisito obrigatório para o cumprimento desse desejo.
Para piorar tudo, o meu pai apresentou-me ainda a um terceiro antepassado. Este não era desertor, valha-nos isso, mas era converso. O que é isso? Um cristão-novo, um judeu obrigado a rezar a todos os santinhos para não ir parar à fogueira. Contra a inquisição não havia alentejana roliça que valesse, parece. Nem sequer as minhas antepassadas, tão habituadas que estavam a salvar reprodutores em perigo.
Dizia-me então o meu pai que a prova da existência deste antepassado estava nos meus sobrenomes. Todos três constam da lista dos sobrenomes adoptados pelos cristãos novos aquando da conversão forçada. Foi das primeiras coisas que fui verificar assim que se inventou a internet porque, sabe-se lá as razões, simpatizei com este meu antepassado, o marrano.  Não me importei que estivessem na lista os apelidos de quase toda a gente que conheço. Se é para ser judia, serei mais judia que os outros todos! Fiquei tão curiosa que até lhe perdoei o formato e dimensão do meu nariz. E passei a interessar-me muito pela história e cultura judaica. Não serei uma estudiosa da cabala como a Madonna, ainda não distingo uma sefirah de outra, mas vou aprendendo umas coisinha aqui e ali. Livros, filmes e a minha última mania: comida!!

É aqui que relacionamos esta história com o meu post anterior. Às vezes “provo” comida nos livros e esta sabe-me tão bem que tenho de a cozinhar para prová-la mesmo. O Daniel Mendelsohn, que é um senhor que admiro muitíssimo, alarga-se em descrições gastronómicas no seu fabuloso livro “The Lost” (“Desaparecidos”, em português – preparem-se para chorar muito). Apeteceu-me provar todos aqueles pratos típicos da cultura judaica do leste europeu, mas mal li sobre as latkes, tive de meter logo as mãos na massa. E cá estão elas, esta espécie de panquecas de batata que aprendi a fazer aqui. Um prato económico e delicioso, até para mim que não aprecio fritos (a minha versão tem um pequeno twist – juntei curgetes, cenouras e sementes de sésamo).
Lindas, estaladiças, deliciosas! Para a próxima já ficarão mais redondinhas…

latkes
Porque tenho a certeza que se há coisa que os meus antepassados sabiam fazer bem para além de abandonar exércitos e ideologias, era comer. E eu herdei isso deles!

9 comments
  1. Que belo post, e com o ingrediente chave do suspense. Nunca pensei que o final da história fosse dar em comida. mas gostei muito sobretudo porque em minha casa também sempre ouvi histórias de como a minha família tem origem judaica, porque o meu nome é muito estranho e uma vez o meu pai andou a fazer pesquisas geneológicas e descobriu que era de origem judia :)
    Desde aí também tenho um especial orgulho em “ser judia” e quando vou a outros países vou sempre visitar o bairro judeu e as suas delícias gastronómicas.

    Olha, este teu post com uma história a introduzir comida parece os textos do Flagrante Delícia, conheces?http://www.flagrantedelicia.com/

    1. E que belo comentário o teu, como sempre. :) Eu também vou sempre às judiarias e sinagogas… e alcazabas e mesquitas… e castelos e fortificações. Enfim, vou a todas.

    2. E sim, conheço o blog. Este ano fiz o meu bolo de anos a partir daí!

  2. Isto tem bom aspecto! Sabe tão bem como o aspecto que tem?

    1. melhor ainda!

  3. Caramba, pah, isso tem bom aspecto.

    1. e bom sabor também… só não digo que são light por causa da questão da fritura, mas são vegetarianas!

  4. Usaste sal kosher? Se não usaste não conta como judeu, hein? Ahah Tem bueeee bom aspecto.

    1. Oops, não… era sal gema de Rio Maior.

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