Os bichinhos verdes eram malaios

bichinhos

Há muitos, muitos anos, eu era a irmã mais velha. Tinha uma razoável quantidade de problemas psicológicos e, ainda que aparentando o contrário, muito pouco juízo.
Em plena adolescência, com os níveis de parvoíce e tendência para o drama a atingirem o seu zénite, aconteceu darem-me para a mão uma criancinha inocente. Toma conta dela, disseram, e não pensaram mais no assunto. Eu tinha boas notas, parecia sossegadinha, que mal podia fazer? Pois saibam que escangalhei a miúda para sempre.

A minha irmãzinha andava sempre atrás de mim e eu deixava. Se estivesse a arranhar o “Hotel California” na guitarra, ela punha-se a dançar ali por perto, se fosse escrever no meu diário, ela vinha fazer as suas garatujas, devidamente legendadas por mim, “a mana e eu”, no fim das páginas onde eu chorava as minha mágoas. Naturalmente, quando eu via a excelente televisão dos anos noventa, ela via também. Sem censura, como convém às criancinhas inocentes.

Foi assim que o Mulder e a Scully entraram no nosso folclore familiar. Primeiro fizeram parte de histórias mirabolantes de viagens no tempo que eu inventava para lhe contar, depois, deixei-a mesmo ver um ou outro episódio dos X-Files. Ela sentava-se comigo, muito quieta, nunca dava parte de fraca, e foi só anos mais tarde que me contou como costumava ficar aterrorizada.

Um determinado episódio, assombrou-a durante anos. Conhecido entre nós como “o dos bichinhos verdes” e pelo resto do mundo como “Darkness Falls”, esta aventura do bom do Mulder e da querida Scully é um clássico. A rapariga teve olho para a coisa. O problema é que esse olho, mesmo fechado, ficou a ver bichinhos verdes na escuridão para sempre. Eu não disse que a tinha escangalhado?

A semana passada, quando ela me trouxe da Malásia um pacote de snacks de ervilha, pequenas lagartinhas verdes doces e salgadas, lembrei-me imediatamente disto. Os bichinhos verdes existem! Depois comi-os todos porque, já se sabe, estou de dieta. Sobrenaturais de tão bons.

Em jeito de remate, a minha irmã estava na Malásia a trabalhar como voluntária num orfanato de uma ONG, no meio da selva. Escangalhada, é o que ela é. Desculpa, manicas, para a próxima vemos “A Bugs life” e talvez possas ser uma pessoa sem aspirações nem iniciativa.

E se pensam que vou falar na temporada actual dos X-files, esqueçam, que eu também já a esqueci.

 

 

8 comments
  1. na parte do aterrorizada com “a excelente televisão dos anos noventa” pensei que ias falar do Brandon e da Brenda ;)

    1. Ela era esperta demais para ver isso… eu via. Na verdade, nessa altura não sei se ela era nascida. Isto foi mais tarde um bocadinho.

      1. eu também via, com a minha irmã, e a minha mãe também ! ( a minha mãe via e lia todos os produtos de entretenimento infantil e juvenil, e eu achava o máximo porque assim conseguia acompanhar as nossas conversas parvas).
        E nós também víamos religiosamente os x-files mas era a minha irmã mais nova, quem era a corajosa, eu era muito mariquinhas e tinha imenso medo do chupacabras e daquele homem elástico que se escondia dentro das escadas rolantes.

        1. O Tooms!!! Esse é o meu favorito! Adoro, adoro!

          A minha mãe também via Beverly Hills comigo e não percebia porque é que eu gostava mais do Luke que do Brandon. Durante anos tentei copiar a franja da Brenda… sem grande sucesso.

          1. eu tinha um bocadinho de pena dela, porque as outras eram umas anémicas que comiam uma ervilha por dia e viravam-se para a Brenda com comentários do género “ao menos lá na tua terra de onde vens há neve e podes esconder as banhas debaixo dos camisolões”.

          2. Essa cena é um clássico. Penso sempre nisso quando visto um camisolão, ehehhehe… Porque quando como ervilhas, já se sabe… penso no Mulder.

  2. Das coisas que mais adoraria ter sido, era a irmã mais velha. Olha, agora tenho uma filha e vingo-me. Faço-lhe o mesmo que tu fizeste com a tua irmã. Escangalho-a com mimos e parvoíces várias.

    1. Vai dar no mesmo, eu sentia-me um bocado mãe dela, mas sem a responsabilidade e o peso que vêm quando és mesmo mãe. A minha filha foi poupada a muita parvoíce porque eu já gastei o stock na tia dela… :P Se gostarmos delas, é sempre tudo muito saudável.

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