Pogonologia caseira

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Quando fomos viajar no Verão ele deixou de fazer a barba. Voo low cost, mala de cabine, regiões remotas, fartura de gado ovino e ausência de dress code – uma combinação de factores que até fazia sentido. O pior foi quando, na última noite, já num bairro cool da capital europeia de serviço, aquele aglomerado de pelo facial en vacances, que devia estar a viver as suas últimas horas de glória, encontrou congéneres. Muitos e bastos. E sentiu-se parte de qualquer coisa maior que ele.
1000 anos depois da expulsão dos vikings da Irlanda, eu voltava para Lisboa com um.

A barba ficou e foi crescendo. Deitou raízes, todas as manhãs, em frente ao espelho da casa de banho. Alisa ali, penteia acolá, snip-snip-snip, tesouradas amorosas. Mil atenções para o pequeno bonsai piloso. Mil discussões muito pouco zen: A igualdade de direitos de acesso ao espelho, o desaparecimento sistemático da tesoura da cozinha, o absurdo de tempo necessário para sair de casa! E isto era só o príncipio.

Começaram a desdenhar-se as barbas alheias. Aquilo é lá pelo que se aproveite? Eu se tivesse aquela penugem nem saía de casa. Barba que é barba quer-se cheia, rija… e aprumada. E as manias? Não se pode afagá-la, que se despenteia, nem sequer tocá-la ao de leve, besuntada que está de óleo-hidratante-para-barbas-modernas-comprado-na-internet-e-tão-caro-que-deve-ser-feito-de-trufa-branca. Haja paciência.

A barba cresceu ainda mais e eu fiquei com ela pelos cabelos. Tomou conta de tudo. Da festa da noite de Halloween: fui acompanhada por uma sinistra mulher barbada. Das pesquisas do google: páginas e páginas de testosterona trendy, para tirar o modelo. Das conversas todas. Houve piadolas no jantar de consoada,”Pareces mesmo um fundamentalista islâmico, pá, tira essa barba”, e no almoço de ano novo, “Tens de ter cuidado com essa barba, ó mujahedin”. E nos últimos dias, tantos comentários iguais e surpreendentes, “Allahu, Akbar!! Onde está a tua kalashnikov?” e “Essa barba comprida, especialmente agora… ó Alexandra, convence-o lá a rapar aquilo. Não tens medo de andar por aí assim com ele armado em jihadista?”.

Medo? Porque carga de água? Parece que barbas compridas são exclusivas de uma só ideologia. Agora sim, medo. Eu que detestava o raio da barba, passei a defendê-la com unhas e dentes. Cá por coisas. É só pelo facial, não é? Deixá-lo estar. Pelo facial bem aparado, bem-cheiroso e livre. Livre de se parecer com o do Bin-Laden, com o do Thorin Escudo-de-Carvalho ou com o do D. Afonso Henriques. Eu é que não sou livre de lhe fazer festinhas, parece. Mas isso, resolve-se, e em breve. É que, caramba, uma barba livre é uma coisa mesmo sexy, não é?

[ilustração: Roma-May Daly]

 

10 comments
  1. Nem me fales nisto.
    Uma pessoa até se arrepende de dizer que gosta de homens com barba. ´
    Vai-se a ver, entusiasmam-se, e querem cultivar algo sólido na sua vida (relações não que dá muito trabalho, mas uma barba muito bonita e grande e viçosa, aparentemente, já não custa).

  2. Nunca vi o meu pai sem barba, mas felizmente ele nunca foi dado à obsessão de cuidar dela com tanto esmero, que trabalheira bolas! :P

  3. O limite da sanidade acaba aqui – http://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/02/4c/22/ba/o-barbas.jpg

    O resto é tudo lícito, no jogo da glória capilar.

  4. E eu a imaginar (imaginação não me falta, é bom que se diga) que esta ausência se devia a um possível crescimento dentro da barriguita da menina e, afinal, o que cresceu foi a barba do teu homem.
    Foi-se me a teoria. :D

  5. Sou adepta ferrenha da barbicha de 3 dias…mais do isso nem pensar!

  6. Por aqui temos patilhas. Patilhame. (adorei, regresso em grande)

  7. Em primeiro lugar, de onde é que ele manda vir os produtos?
    Eu mando vir do site http://www.beardbrand.co.uk , mas não são baratos de todo. Existem outras marcas mais baratas, mas das Américas e, para além de demorar a chegar, ainda temos de pagar as taxas alfandegárias ou nem vermos os produtos.
    Em segundo lugar, percebo o teu homem. Também passo cerca de 20 minutos, todas as manhãs, entre escovar, pôr óleo, voltar a escovar, acertar as pontas, pentear e voltar a retocar. Neste momento, está assim: http://nowmustache.blogspot.pt/2015/01/homem-das-cavernas-ou-piacaba.html (foto tirada antes de ir correr, à noite, daí a indumentária.)
    Em terceiro lugar, alegra-me saber que apoias o teu homem na sua decisão de deixar crescer a barba. O pior de tudo, durante o processo, são as constantes criticas que nos fazem, chamando-nos de tudo, deste terrorista a Pai Natal. Ter alguém que nos apoia, ajuda bastante a não desistir.
    Em quarto lugar, bem vinda de novo.

  8. O meu namorado está na demanda de deixar crescer a barba até Março. Partilha lá que óleo é esse :P

  9. Uma solução low-cost de óleo para barba em Portugal é o óleo sólido de Aragão da Bodyshop. Como o seu portador não é esquisitinho com os afagos, comprovo que fica mesmo fofinha.

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