Posso-te conhecer?

Eu tinha horror desta frase. Acho que agora já não se usa. Deve ter desaparecido pela mesma altura que os slows do Bryan Adams e as petazetas.
Acontecia muito na escola, claro, os miúdos do 11º. Matulões em matilha, armados de mochilas montecampo e ténis nike, espinhas e hormonas estampadas no sorriso, em road block na porta do pavilhão do meio. A miúda alta do 7º tinha um kispo com coelhinhos e ainda brincava com Barbies, mas não importava. Posso-te conhecer? Está bem. Grudentos como lambugem, roçavam-me as barbas incipientes de um lado e do outro. Chuac, chuac. E eram muitos, qual gang bang. A minha cara corada a passar em ziguezague a milímetros do nariz deles. Sou o Bruno, sou o Luís, sou o João. Sou a Alexandra. Para quê? Cumprimentos apressados nos corredores durante o resto do ano. Eu conheço aquele. Ele conhece-me. Ai sim?
A primeira vez que aconteceu foi numa festa da aldeia, à noitinha. No balancé com o meu irmão, para trás e para frente, os meus pais na conversa com primos e primas. A minha camisola da She-ra, o meu rabo de cavalo gingão e um espertalhão de 20 anos, capacete de mota debaixo do braço, símbolo dos Iron Maiden algures. Eu tinha 11 anos, corpo de 15, a altura que se sabe. Posso-te conhecer? Eu não sabia, nunca soube, o que era aquilo. Qual a finalidade? Pânico, horror, suores frios. Baloicei em silêncio, atordoada, e depois cuspi-lhe um NÃO! Parecia fúria, mas não era. O meu irmão rebentou em gargalhadas. Os meus pais fizeram coro. Os primos cacarejaram igualmente. Eu fiquei com um trauma. E estava tão contente por tê-lo ultrapassado e até já conseguir conversar normalmente com pessoas que acabam de se apresentar.
Até que vieram os pedidos de amizade do facebook.
Eu conheço aquele. Ele conhece-me. Ai sim?

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A ilustração é do Ben Mounsey e é um frame deste vídeo.

29 comments
  1. Mas olha que os slows do Bryan Adams e as petazetas ainda andam aí ;)

  2. Tens razão, como sempre, ainda o Verão passado comprei umas petazetas na feira de Paço de Arcos. Já o Bryan nunca mais ouvi. Mas tu percebes a cena…

  3. Ainda se usa, lamento informar-te. E já nem têm a desculpa da adolescência – é mesmo involução.

    1. Raios!
      Fico triste. Pensei que o pessoal tivesse aprendido alguma coisa com as chatrooms. Toda a gente sabe que agora se aborda logo uma pessoa com a pergunta M ou F.

  4. Eheh, muito bom. A última vez que ouvi a bem dita frase deve ter sido há mais de 7 anos… espero que realmente isso tenha passado de moda, pois caso contrário apenas quer dizer que ninguém me quer conhecer :O

    1. Segundo me dizem, parece que sim, o problema é nosso.

  5. No facebook até dá para fazer aquilo do “Queres conhecer o meu amigo?”. Sad :|

    1. EHHHHH! Essa também era muito boa! Muito bem lembrado, Hipster Karenina.

  6. umsa miúdas cujos nomes suspeito serem sheila e micaela fizeram-me essa pergunta um dia. foi nos arredores do estádio das antas (esse antro de elegância que toda a gente sabe) e nunca tinham visto um punk de perto, aí pelos anos de 97 ou 98.

    e parece que o comeback deste ano são os pega-monstros. encontrei um estabelecimento que os vende a € 0,30

    1. A grande questão é: disseste que sim?
      Eu também sempre quis ver um punk de perto. Posso-te conhecer?

      De pega-monstros falaremos mais tarde, que também tenho uma boa sobre eles.

      1. não. empurrei-as para a frente do autocarro. ia a passar o 21.

        chamas-te sheila?

        1. achas que Alexandra não é dose suficiente? :PP

          1. nem de perto.
            uma sheila é mais que um nome, é um modo de vida.
            walk the walk.

  7. Nunca tive essa sorte. Mas a verdade é que também não sou assim tão alto e sempre usei o cabelo solto :)

    1. É isso. O truque era o rabo-de-cavalo. Como elásticos Meu Pequeno Pónei.

  8. Eu nunca gostei das festas da aldeia. Havia sempre uma cara conhecida em algum canto, e todo e qualquer avanço era praticamente impossível. :)
    Mas apresentava-me sempre antes. Nas festas das aldeias vizinhas, que nas minhas já era conhecido.

    Ahhh…petazetas.. :)

    1. Sabor coca-cola! Qual era o teu?

  9. Eh Eh! Há tanto tempo que não ouvia (lia) essa frase!
    O que eu mudava de cor quando alguém me perguntava isso… Só me apetecia que se abrisse um buraco no chão para eu enfiar-me nele…
    Ai, que pérolas agora fizeste-me recordar! lol
    Mas eram bons tempos… lol

    queriadeti.blogspot.pt

    1. Óptimo, óptimo. Eu gosto é que a malta fiquei corada em retrospectiva. :)

  10. se tu soubesses o que custava para um rapaz ganhar coragem para se meter num imbróglio desses que ia dar uma tampa certinha, com o único intuito de ser aceite pelos outros ou de fazer alguma coisa pelo seu próprio desespero hormonal, entendias hoje melhor os homens adultos como um produto mal calculado de uma adolescência e costumes que são uma trapalhada mal parida, com vários trajectos possíveis e alguns sem saída. é difícil pá, julgas que é fácil? hás-de experimentar reencarnar num rapaz adolescente, com borbulhas e ejaculação precoce.

    1. Mas não dava tampa certinha, Zé. Comigo não dava, pelo menos. Eu aceitava “conhecê-los” num instante, com os mesmos medos desse rapaz que descreves, só para ver o momento pelas costas. Só não tinha era borbulhas nem ejaculação precoce, mas achava que aquele poema “Não te amo, quero-te”, do Almeida Garret, devia ter sido escrito por mim, o que vai dar ao mesmo. :P

      1. mas a iniciativa, Alexandra, a iniciativa tinha que ser dos rapazes, diziam-nos os outros putos e a sociedade. imagina-te à beira de uma falésia a hesitar fazer um mergulho de 20 metros, com outras miúdas atrás a chamar-te mariquinhas, praticamente a empurrar-te, até que te fartas de ser mariquinhas e te atiras, e a meio da queda pensas “ca estupidez!” e mandas um granda chapão na água. sais da água toda dorida e sem fato de banho, mas há a remota possibilidade de teres aprendido qualquer coisa.

        1. :)
          Estou quase com pena dos rapazes e não queria. Afinal, inseguros ou não, eram o inimigo! E, Zé, não estarás a ser mais dramático que eu? Afinal não estamos a falar da outra frase maldita, aquela que ainda está mais fora de moda e que tinha um maior e mais doloroso coeficiente de tampas: “Queres namorar comigo?” Isso é que era sofrimento. Nãos que nos custavam muitíssimo. É oficial, tenho mesmo pena vossa. :P

  11. O que foste buscar… de repente voltei ao pátio do liceu. Eu era aquela que corava até às orelhas, fingia que não tinha ouvido e procurava o buraco mais próximo a toda a velocidade. Muitas figuras tristes fiz eu…

    1. Agora vê lá tu, eu não cabia nos buracos! Era aguentar-me à bronca.

  12. melhor, melhor, foi aqui a menina, em resposta a essa frase e a um ‘dás-me o teu nº?’:

    ‘eu não acredito em telemóveis, mas acredito no destino. e se ele nos quiser juntar, e eu tenho a certeza que sim, voltaremos a encontrar-nos’

    (foi na praia. nunca mais x))

    1. Uma saída elegante, mas o Karma é tramado. Ainda te cai em cima um dia destes. Já me aconteceu. Evita os festivais de Verão, só te digo.

  13. Até me dava jeito que alguém me quisesse conhecer.
    I’m a lonelyyyyy uuuhhhhoohohuuuhh

    1. mas cantas que é uma maravilha!

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