Querido stôr

Californication – a série, deu um bocado de luta. Não gostei logo, logo, das aventuras do personagem principal, o mítico escritor Hank Moody que, como o nome da obra indica, fornica à fartazana na Califórnia. (Já Californication – a canção, foi amor à primeira audição. Basta dizer que os meninos vermelhos, quentes e apimentados, arranjaram maneira de juntar e fazer rimar unicórnios primogénitos com pornografia (levezinha), o que me parece genial em todas as frentes.)

O principal problema de Californication – a série, foi que me fez sentir uma vítima desde a primeira cena. Eu também ía na conversinha do Hank, um mulherengo inconsequente e irresistível, com toda a piada que o Duchovny quase conseguia dar ao agente Mulder. Desagradou-me instantaneamente, agarrou-me logo a seguir. Foi fácil perceber porquê. A somar à atitude de bad boy, há duas coisas essenciais que o tornam perfeito aos meus olhos: um sentido de humor delicioso e a aura mística que todos os escritores-homens têm. (Já agora fiquem a saber, bloggers masculinos que por aí andam, que quando vos leio, estou a imaginar-vos a todos como potenciais Hank Moodys e adorar-vos estupidamente, como se não tivesse coisas melhores para fazer.)

Foi só ao fim de 5 temporadas da série que me apercebi que havia ali mais qualquer coisa. O Hank é adorável e familiar. Muito familiar. É que eu conheço-o, já fui aluna dele. O meu Hank Moody era arquitecto e não escritor, e, tirando as parte das aventuras amorosas, que obviamente nunca partilhou com a turma, era um decalque perfeito deste infant terrible. Do corte de cabelo aos ray ban, das piadas cáusticas à atitude displicente. Usava T-shirts pretas, botas alentejanas ensebadas, barba de três dias, casaco de cabedal. Era giro, era rebelde, era um de nós, mas com mais pinta. Se me tivesse apaixonado por um professor teria sido por este. Quase me arrependo.

Foram quatro anos de lições. História de arte, geometria, viagens, acampamentos, leituras, histórias. Para ele eu era a boazinha da turma (ainda que secretamente preferisse ser a boazona), para mim ele era um mentor, uma espécie de Yoda, mas com bom aspecto. Saramago, o Abade de Suger, Che Guevara, Cipião, Rembrandt, Kerouac, Soeiro Pereira Gomes, tantos nomes que me apresentou e que ficaram comigo. Quanto a mim, escrevi-lhe um poema épico de despedida, uma crónica dos nossos anos com ele. Chorou.

A última vez que o vi, num jantar de grupo, já depois da faculdade, achei-o velho e magro e fui eu que chorei discretamente. Devia ter ficado para sempre com 30 anos, o maldito. Ainda trazia as botas e os óculos e quis mostrar-me uma banda nova, que lhe tinha devolvido a esperança no rock, dizia. E se eu tenho a certeza de alguma coisa é de que o Hank Moody também gosta de The Strokes.

5 comments

  1. Rachelet

    Tive exactamente a mesma percepção da série. Inicialmente, as duas primeiras temporadas vá, não pegava, mas percebia-se que devia haver ali algo. As últimas foram papadas em doses cavalares. É que nem dá para manter um track record, mas gostava da aluna-stripper e da enteada da ex. Não vou muito à bola é com a filha, mas pronto, percebo que tem relevância no enredo.

    • Alexandra

      ohhh… eu odeio a filha! Aquela atitude “é fixe ter um pai fixe mas só às vezes”, mete nojo. Quando era mais miúda achava piada aquele atitude gótica dela mas agora… cresce, minha!

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