Roth com bolinha

Não ando de carro diariamente. Há muitas e boas razões para isso mas a principal é esta: preciso do meu shot diário de literatura e se não o tomar a caminho do trabalho quando é que tomo? À noite preciso de ver séries parvas na cama e o America’s Next Top Model. É uma questão de equílibrio. Erudição no comboio de manhã, parvoeira na cama à noite. Ocasionalmente, também sou gaja para experimentar o contrário. Em particular quando me faltam menos de dez páginas para acabar um livro e não vale a pena sair de casa com ele, porque não vai chegar para a viagem toda. Foi assim que ontem à noite me enfiei debaixo dos cobertores a tentar acabar à bruta o “Teatro de Sabbath”.

Gosto muito do Philip Roth, sou sempre familiarmente surpreendida pela sua escrita limpa e bela, mas desta vez o homem passou-se. Estou a ler aquilo e a virar o livro para o encarar na contracapa. Que loucura. Quer dizer, o Marques de Sade também não tinha cara de má pessoa, mas este senhor podia ser meu pai. Até é parecido, se formos a ver bem. Tenho um nariz judeu mais judeu que o dele. E o que é que ele fez? Pôs-me a ler literatura erótrica geriátrica compulsivamente… e a gostar.

Dizer que não consigo simpatizar com o personagem principal, o que é notável para mim que gosto de toda a gente de papel, é redutor. Na verdade, odeio o Sabbath, apetece-me gitar-lhe, espancá-lo, salvá-lo, ter com ele uma conversa telefónica das dele, fazer-lhe festas… É de loucos. E ontem à noite, sem que nada levásse a isso, o livro entra nas “alegações finais” e eu debulho-me em lágrimas. E depois já são soluços. E ranho, caramba, tanto ranho. Levantei-me do quentinho para ir buscar um bocado de papel higiénico à casa de banho e quando voltei não consegui voltar a meter-me na cama com o Mickey Sabath.

Ainda não sei como é que acaba, mas tiro já o kipa ao Senhor Philip.

(E ao Rui Garrido pelo capas desta nova colecção Rothiana – apetece-me comprá-los todos

13 comments
  1. pronto. está-se mesmo a ver que vou ter de comprar um livro do senhor…

  2. Li a Pastoral. Confirmou aquilo que já estava mais do que confirmado para mim: jamais terei filhos!

    (yay, também já tens o plugin do seguimento dos comentários… vou ver se funciona e já digo se não funcionar.)

    1. Falta-me ler esse. Agora fiquei curiosa – o senhor costuma ser pro-famílias.

      (roubei o plugin ao Troll, reparei que ele resolveu a questão – não há como um homem para estas coisitas)

  3. desculpe lá, sei que não nos conhecemos de lado algum mas:

    pronto, outra com quem tenho de partilhar o Sabbath :\

    1. Ora essa, aqui ninguém conhece ninguém. Bem vinda! Então também caíste pelos olhos verdes do tipo? ;)

  4. error, 2ª tentativa: só um bocado

    1. Ahhhhh… muito me contas!!! ;)

  5. Bem, acabei o Complexo de Portnoy há coisa de dias. Não sei se vou já saltar para esse tal de Sabath. Leio um clássico entretanto para descansar da literatura erótica? :)

    1. Salta. Esta conversa toda é meio a sério, meio a brincar. A história é boa.

  6. Roth, só conheço o Tim, de quem os idiotas dos americanos cancelaram o Lie to Me, a série que ele protagonizava-
    Não, a sério, nunca li nada do Philip Roth e tenho ali à minha espera a trilogia do Stieg Larsson, por insistência familiar, e mais uma pilha deles que comprei e ainda não li.
    Por agora, ando a acabar de ler Uma coisa em forma de Assim, do O’Neal, que é um bocado surreal, mesmo para mim.
    Bom…mas lá terei que ir à FNAC no fim de semana. Ou se calhar a outra livraria, que já ando a ficar em brasa com o monopólio gaulês.

    1. Já agora: “voltar a meter-me na cama com o Mickey Sabath?” Olha, cá por mim nunca pus sequer a hipótese sequer de ir para a cama com a Miss Marple (e não tem nada a ver com a idade dela), muito menos com o Poirot. Mas que raio de ideia…

      1. AH, AH, AH… mas aí o problema acho que é a Miss Marple… e o Poirot. Alguém se imagina a ir para a cama com eles?

    2. Guarda o Stieg para as férias, vai saber-te bem. O Philiph Roth é fixe, mais que o Tim, que é igualzinho a um gajo que eu gostava no 10º ano e me faz impressão, mas não comeces por este livro… O’Neal nunca li e prefiro a Bertrand.

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