Se chocar, não faz mal, vamos todos para o hospital

O professor Nuno, o meu pediatra famoso, disse à minha mãe, mal fiz cinco anos, que eu era uma miúda muito grande e envergonhada* e por isso tinha de ir para um colégio. Para espevitar. Para deixar de ser tão bicho-do-mato. Tão menina da avózinha. “Atirem-na aos lobos”, foi como aquilo me soou, “e sem cestinho de merenda, já agora, que lá no colégio há-de haver todas as tardes uma mixórdia esbranquiçada cheia de nata a fazer as vezes de lanche”.
Eu não precisava de ir, não como precisam os miúdos de hoje em dia, cujos pais andam por fora a trabalhar até às tantas. Eu tinha uma mãe que chegava a casa às seis da tarde e uma avó que me lia histórias e tomava conta de mim o resto do tempo. Também me barrava fatias de pão com “tulicreme” e trazia pastilhas “gorila” gigantes do café. Tinha o meu irmão para atazanar e andava a tentar aprender a escrever sozinha. Até já conseguia legendar os desenhos de senhoras de saia de balão e coroa na cabeça com as letras “R-E-I-Ñ-A” (a minha costela espanhola era forte neste tempos).
Eu não precisava de ir, mas como era grande e envergonhada, fui. Ficava horrível, maior que todos, naquela bata castanha com o meu nome bordado. Não gostava que me obrigassem a dormir a sesta como os bebés e não queria desenhar espirais nem fazer picotados. Achava a plasticina nojenta, cheia de cabelos e com as cores misturadas. Tinha medo da educadora Alcina e do seu alfinete de dama e achava todas as miúdas parvas e todos os rapazes maus. De mim diziam todos o mesmo: aquela miúda é tão bicho-do-mato. Tem de espevitar.

Um dia veio o Verão e deram-me uma camisola branca com um grande trevo verde. Era igualzinha à das miúdas parvas e à dos rapazes maus. Também nos puseram ao pescoço um fio de couro com um medalhão de plástico. Um autocarro enorme levou-nos a todos para a Praia da Saúde. Cantámos em coro parvoíces: “Sr. Condutor, por favor, ponha o pé no acelerador…”. “1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 … viva a nossa camionete!” Havia mais autocarros grandes, mais miúdos vestidos de igual, mais das mesmas canções por todo o lado.
Sentados na areia, escutávamos o senhor Baeta, o nosso “Sr. Condutor”, a contar histórias amalucadas enquanto secávamos, cansados de rebolar na rebentação da Caparica. “Nestes grãozinhos de areia está o mundo”, dizia-nos ele enquanto deixava escorrer por entre os dedos a população dos cinco continentes. Chupávamos a água salgada dos nossos fios de couro e descobríamos entre metáforas, muitos pauzinhos azuis e rosa, restos defuntos de cotonetes. A água nunca estava fria nem a bandeira vermelha e havia sempre sol.
No fim de tudo, um gelado Sabiá para cada um. Que delícia! As miúdas pareciam menos parvas lambuzadas de chocolate e os rapazes menos maus com sal nas pestanas. Já eu, espevitava, espevitava… Afinal não era um bicho-do-mato, era um bicho-do-mar.

(*Que continua muito grande, envergonhado e só espevitado q.b.)

16 comments

  1. a.i.

    oh qui lindo! eu adoro ler sobe memórias de infância e também me lembro de chupar o cordão da “bolacha” (como chamávamos ao coiso que nos identificava como pertences à escola x), mas o resto, acho espantoso a tua memória. pareces a minha irmã, que no outro dia veio com a conversa sobre a tia angélica (eu já não me lembrava que no colégio as “tias” eram as funcionárias, mas ela lembra-se de tudinho , o raça da miúda, só um ano mais nova que eu)

  2. Mirone

    Mas será que só eu é que não fui com o colégio para a praia no verão? Dava-se a coincidência de, todos o anos, os meus pais e tios irem de férias para a mesma praia para onde o colégio ia. A directora tinha uma casa que naqueles meses se transformava numa enorme camarata. Todas as manhãs os via passar, em fila indiana, na direcção do imenso rectangulo de areia, delineado por cordas grossas, onde o colégio assentava arraiais e de onde os meninos não podiam sair, senão para ir a um curto banho (S. Pedro de Moel tem águas frias e mar agitado). Da barraca que alugávamos ficava a vê-los, ao longe (já nessa altura era um mirone). Não os invejava. Era imensamente feliz, com os primos e os meninos de outras cidades que, todos os anos, tinha oportunidade de conhecer.

  3. D

    Se o professor Nuno ( Rua das Chagas ?) foi o mesmo da minha filha mais velha, tinha umas ideias muito próprias sobre tudo, incluindo alimentação “.. se não quer comer, não come ! Deixe comer numa mesa, que quando tiver fome, comerá”… bem que podia esperar pela tal da fome. Também é bem verdade que quando a garota teve meningite, foi ele que a internou e levou aquele hospital de virote… e correu tudo bem…

    • Alexandra

      D, creio que deve ter sido o mesmo, sim (não sabia o nome da rua, mas já fui ao google confirmar). A minha irmã mais nova também levou com essa teoria da comida, com que eu aliás concordo, mas que dava cabo da cabeça à minha mãe. Já o meu irmão foi posto a dieta aos 10 anos, uma maçãzinha antes de cada refeição, que era para aprender a ser menos lambão.

      • D

        Já não praticava quando veio a mais nova , passados 10 anos… A minha filha um dia perguntou-me se ele não sabia ler o nome dela, porque o pronunciava mal :):) Grande médico

          • a.i.

            eu levo é com um “i” a mais no meu nome ainda hoje sempre que pessoas a norte do paralelo de leiria o pronunciam: dizem “Aiana” em vez de “A ana”

  4. Mak

    Colónia de férias.

    Não sendo de colégio, dava para ter acesso à camioneta roufenha, ao condutor da praxe, a monitores e monitoras que pareciam uma espécie de guardadores de ovelhas pós-modernos e a um semi-ódio que ainda persiste a todo o tipo de cantilenas que envolvam dezenas de crianças a bombar cantoria.

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