Toupeirinha e a peçonha dos infernos

Desde que me conheço como gente que sei que sou mais cegueta que uma toupeira, um morceguito pitosga, um Mr Magoo de sabrinas.
Fui tão boa a esconder esta super-habilidade que só me conseguiram enfeitar com um par de lunetas já a caminho dos 14 anos. Por essa altura já a lista de nódoas negras ía longa e não havia professor que não me encontrásse na primeira carteira, a copiar equações do quadro pela colega do lado, que tinha de ser sempre boa aluna, para não me deixar ficar mal.
Os meus pais, pessoas saudáveis sem qualquer traço de miopia, ficaram tão chocados com a elevada graduação que me foi prescrita, que acharam que devia ser engano. Já eu, só pensava, raios, lá me apanharam. Eram só mais três ou quatro anos e saltava a adolescência sem ouvir um “caixa-de-óculos” que fosse. (Curiosamente, como viria a verificar, o facto de ser alta pesou sempre muito mais nos petit-noms com que me agraciaram na escola secundária).
Com o passar dos anos fui ficando mais e mais graduada, praticamente uma catedrática das dioptrias. Umas vezes disfarçada de Jonh Lennon, outras de Clark Kent, só perdoei enfim os meus traidores olhinhos aos 19 anos, quando lhes enfiei com sucesso umas lentes de contacto. Chamem-me vaidosa, peneirenta, o que quiserem, mas até parece que renasci. Também deu jeito nunca mais me perder na praia.
Há muitos anos que já só uso óculos de longe a longe, aos fins de semana, quando estou acordada há muitas horas ou, para mal dos meus pecados, quando me ataca a peçonha dos infernos, também chamada conjuntivite. Felizmente, não é coisa que me aconteça com frequência e por isso, infelizmente, por questões de poupança, não mantive a graduação das lentes dos óculos a par da das lentes de contacto. Resultado: esta semana tenho-a passado remelosa,  peganhenta de pomadas, com ardores e comichões, e mais uma vez aos tombos, a ver tudo desfocado. Não reconheço pessoas que me acenam na rua e desconheço quando partem os comboios.  Tudo pode acontecer, parece. Mas o pior, o pior, é esta dor de cabeça. Irra.

6 comments

  1. Mirone

    Oh Alexandra, agora parecia que me estava a ver ao espelho. Mirone, também eu me confesso Toupeira. Felizmente, e muito embora faça tudo o que não se deve fazer com lentes de contactos (passo semanas que não tiro as lentes, uso líquiso aberto há bem mais que um m~es, enfim, um desleixo sem par) nunca em quase 20 de lentes me chegou tal peçonha, a conjuntivite. E digo-lhe mais, relativamente a uma adolescência difícil. Eu acumulava as lentes com um maravilhoso sorriso metálico. E não, por muito que o dentista me repetisse as palavras proféticas (vais ver que vai chegar o dia em que todos vão querer aparelho nos dentes, miúdos e graúdos – coisa que, efectivamente aconteceu) não havia meio de gistar daquilo.

  2. D

    Ora já eu, entradota na 3ª idade, filha de mãe míope e pai com astigmatismo, só preciso de óculos para ler ( verdade seja dita que também já não vejo aquelas coisas ao longe…). Como estas coisas saltam um geração a Minhamáivelha é a Miss Magoo lá de casa…

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