Uma torrada maniqueísta

Há uns anos, enquanto googlava um rapazinho de caracóis farfalhudos e falsetes poderosos, que soava a Freddy Mercury mas queria ser a Grace Kelly, descobri o Marmite. Ou a Marmite. Não sei, que isto do género em inglês é coisa que me ultrapassa. Escreve-se Marmite, lê-se “marmaite”, seja menino ou menina.
O Mika, pois era dele que se tratava, era comparado, num artigo britânico qualquer, ao Marmite. Love it or hate it, ama-o ou odeia-o, dizia. O que é esta merda, teria pensado eu se formulásse pensamentos com palavrões, e seria um bull’s eye: o/a Marmite é mesmo uma bela merda. Dentro de um boiãozinho muito bonito está uma pasta pegajosa, quase preta, de cheiro nauseabundo e sabor indescritível. Trata-se de extrato de levedura de cerveja. Yummy. Os súbditos de Sua Majestade barram as suas toasts com isto, esguicham-no às golfadas nas pancakes, misturam-no com scrambled eggs e lambem os lips de prazer. Ou pelo menos alguns deles. O produto é alvo de tradicional controvérsia. O lema da marca é mesmo o tal Love it or hate it com que estavam a descrever o Mikinhas, ‘tadinho, que até diz que “Big Girls are beautiful” e por isso tem o meu amor eterno.

Eu quis gostar de Marmite. Um produto com uma tal promoção maniqueísta deveria forçosamente servir para separar o trigo do joio. Achas que é bom? És dos bons. Achas mau? Não vales nada. Foi o que eu achei, porque às vezes ponho-me a achar coisas por falta de melhor ocupação. Além disso as filosofias simples agradam-me muito porque são um descanso para cabeça: Luz – Trevas, Preto – Branco, Deus – Diabo, Lisboa – Porto, Céu – Inferno. Um descanso. Fui logo a Londres comprar uma embalagem de Marmite – e aquela porcaria ainda é cara – para me sentir um bocado gnóstica. Fiquei muito desiludida quando não gostei. Tentei numa torrada, tentei à colher – intragável. Parecia petróleo. Afinal não fazia parte da raça dos eleitos. Eu que até fazia tão bem o falsete da Grace Kelly, mesmo naquelas partes mais rápidas. A embalagem passou de prazo só com uma esguichadela a menos.

Porque é que isto interessa? Porque tenho andado a precisar de um bocadinho de filosofia Marmite na minha vida. Quem és tu, pergunta o site. Eu sou uma fatia de torrada à espera de ser barrada à bruta. Com pasta de coisas boas, com pasta de coisas más e nada de pasta de coisas assim-assim.

 

16 comments

  1. Rachelet

    Isso é daquelas coisas que facilmente entra na minha categoria de “Não preciso provar para saber que detesto”, como caracóis, queijo chulé e spam.
    Com tanto alimento bom disponível na natureza (e por natureza leia-se «supermercado»), para quê tantalizar as papilas gustativas?

    • Alexandra

      Sabes, é que eu sou tão boa boca que não queria acreditar que houvesse no mundo algo que algumas pesssoas gostassem e eu não. Esqueci-me, de facto, da existência do queijo chulé.
      De resto, acho que vale sempre a pena tantalizar coisas.

  2. mariana

    Eu confesso que nunca tive coragem de provar. O aspecto e a ideia são suficientes para me demover. Podemos sempre criar a religião dos tão grandes, tão grandes que nem precisam de gostar de marmite.

  3. du

    considerando #1: o mika não tem voto na matéria
    considerando #2: por “Big Girls” ele refere-se a gordas
    considerando #3: o mika não tem vot… ah, já disse.

    who-the-fuck no seu perfeito juízo mete à boca essa tanga? olha que estive lá 1 ano não vi ninguém a comer isso.

    • Alexandra

      considerando #1: de facto…
      considerando #2: Big é Big e a parte do beautiful é que conta
      considerando #3: antes que caia 3,5 pontos na tua consideração, nota que só conheço o rapaz de ouvir na rádio e só achei piada a duas músicas do primeiro álbum…
      considerando #4: alguma te disse que o meu juízo era perfeito?

  4. Vic

    Nunca comi Marmite. Nunca comerei Marmite. Nunca comi o Mi…não era isso que queria dizer. O Mika é um gajo um bocado irritante para se ouvir mais do que 2 minutos seguidos.
    Os ingleses comem toda a trampa, por isso, comida e inglês combinados, só se for o Jamie :)

    • Alexandra

      A esse comia, mas acho que deve ser baixote. :P
      (eu também acho que a maior parte das músicas do Mika são boas é para fazer body combat – muita energia, bom ritmo, e mantém-te ali os níveis de agressividade constantes, o que é bom para os side kicks sairem direitinhos)

  5. freeculturelisbon

    Mas sabe ao quê? é que se for a queijo, sou uma lover.
    Como grande fã de queijos quanto mais chulé melhor.
    Ao Mika não o quero comer, obrigado, só em pequenina é que gostava de fadas.

  6. Joana :)

    Adorei: “porque às vezes ponho-me a achar coisas por falta de melhor ocupação”. Acontece a muito boa gente!

    Quanto ao / à Marmite, não conheço, nunca ouvi falar. Mas pela descrição, prefiro manter-me na ignorância… esquisitinha como sou!

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